Le Pen é recebida com vaias e encurta agenda no primeiro ato após anunciar candidatura

O primeiro compromisso público de Marine Le Pen, nesta quarta-feira (9), um dia após anunciar sua candidatura à Presidência da França apesar da condenação em segunda instância, foi marcado por vaias, protestos e pela interrupção de um passeio previsto. A líder da extrema direita rejeitou as críticas à sua candidatura, mas o impacto político da condenação na corrida eleitoral é uma incógnita.

8 jul 2026 - 12h28

Em sua primeira aparição após o veredicto, Le Pen escolheu um terreno politicamente favorável. Ao lado de Jordan Bardella, apresentado como seu futuro primeiro-ministro em caso de vitória na corrida eleitoral, ela visitou uma feira livre em La Flèche, a 220 quilômetros a sudoeste de Paris, cidade conquistada em março pelo seu partido, o Reunião Nacional (RN), nas eleições municipais.

A líder do partido de extrema direita Reunião Nacional, Marine Le Pen, é acolhida por apoiadores em seu primeiro ato como candidata à presidência, ao lado de Jordan Bardella em La Flèche, na França, em 8 de julho de 2026.
A líder do partido de extrema direita Reunião Nacional, Marine Le Pen, é acolhida por apoiadores em seu primeiro ato como candidata à presidência, ao lado de Jordan Bardella em La Flèche, na França, em 8 de julho de 2026.
Foto: AFP - FRED TANNEAU / RFI

Antes da chegada da comitiva, manifestantes ligados ao partido de esquerda radical A França Insubmissa (LFI na sigla en francês) e a movimentos ambientalistas fizeram um panelaço diante de apoiadores de Le Pen. Por causa dos protestos, a candidata precisou mudar o local da aparição e surgiu em uma rua ao lado da feira, protegida por um cordão policial e cercada de simpatizantes.

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Sorridente, respondeu às perguntas da imprensa, enquanto Bardella afirmou estar "encantado" com a possibilidade de Le Pen disputar a próxima eleição presidencial.

Mesmo com o esquema de segurança, os protestos continuaram e obrigaram os dois a encurtar a agenda. Após cerca de vinte minutos caminhando pela entrada da feira e tirando fotos com apoiadores, Le Pen e Bardella entraram em um carro e seguiram diretamente para a prefeitura da cidade.

"Espero que o Ministério do Interior crie as condições para que todos os candidatos possam fazer campanha normalmente, sem violência", afirmou Le Pen. Bardella disse não sentir "nem alívio, nem decepção" com a decisão judicial e afirmou que ambos "continuarão a trabalhar de mãos dadas".

"O tribunal restaurou a minha elegibilidade. Sou inocente e estou recorrendo para provar a minha inocência", declarou Le Pen.

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Ela demonstrou irritação ao ser questionada repetidamente sobre sua situação jurídica e sobre o recurso apresentado à Corte de Cassação. "Não vou passar a campanha presidencial fazendo análises jurídicas", respondeu. "Se os meus adversários políticos não têm outros argumentos além desse, significa que não têm absolutamente nada a oferecer aos franceses."

Recurso pendente

A candidata também evitou responder se interromperia a campanha caso a Corte de Cassação rejeitasse seu recurso no início de 2027 e ela tivesse de cumprir prisão domiciliar com monitoramento eletrônico. Negou ainda que esteja tentando adiar uma decisão definitiva para depois da eleição. "É preciso arriscar para ganhar", afirmou.

Le Pen recorreu à Corte de Cassação, a mais alta instância da Justiça francesa para processos criminais e civis. Diferentemente de um tribunal de apelação, ela não reexamina as provas, apenas verifica se a lei foi corretamente aplicada pelas instâncias inferiores.

Pelo direito francês, esse tipo de recurso suspende, em regra, a execução da pena criminal. Assim, embora a Corte de Apelação tenha confirmado sua condenação a um ano de prisão domiciliar com monitoramento eletrônico, Le Pen não precisará usar a tornozeleira enquanto o recurso estiver pendente.

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A situação é diferente da inelegibilidade. Na condenação de primeira instância, em 2025, a proibição de disputar eleições teve execução imediata. Já a decisão da Corte de Apelação reduziu esse período para um prazo já cumprido durante a tramitação do processo, restabelecendo sua elegibilidade para a eleição presidencial de 2027.

Na Corte de Cassação, a defesa tenta anular a condenação com base em uma questão de direito relacionada ao artigo que pune o desvio de recursos públicos por agentes públicos, tese rejeitada tanto na primeira instância quanto na apelação.

Impacto político da condenação

A principal incógnita agora é o impacto político da condenação sobre sua candidatura. Na noite de terça-feira, Le Pen apresentou-se oficialmente ao eleitorado como candidata à Presidência mesmo após duas condenações judiciais, com apenas um último recurso ainda pendente.

As eleições presidenciais francesas estão marcadas para 18 de abril e 2 de maio de 2027. Ainda é difícil medir os efeitos eleitorais da condenação nos próximos nove meses, sobretudo se a Corte de Cassação decidir o caso antes do pleito e confirmar a pena de prisão domiciliar com monitoramento eletrônico. O partido Reunião Nacional, porém, minimiza esse risco e aposta na demora natural do processo.

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Le Pen mantém há meses mais de 30% das intenções de voto, embora apareça ligeiramente atrás de Bardella, que seria o candidato do partido caso ela permanecesse inelegível. Desde sua primeira condenação, em março de 2025, sua popularidade praticamente não sofreu desgaste.

"A base eleitoral de Le Pen pode aceitar uma condenação", afirma Adélaïde Zulfikarpasic, diretora do instituto de pesquisas Ipsos-BVA. "Ao afirmar que pretende esgotar todos os recursos legais, ela transmite perseverança e determinação."

Segundo a pesquisadora, embora 64% dos franceses considerem honestidade e integridade a principal qualidade de um chefe de Estado, a determinação para vencer aparece logo em seguida entre os atributos mais valorizados.

"Há uma desconexão entre a defesa da honestidade como valor e a realidade do comportamento eleitoral", afirma.

"Quem acreditará nela?"

Os adversários de Le Pen, porém, já transformaram a condenação em tema central da disputa. "Isso é um indicador do nível de corrupção do país", disse François Ruffin, candidato da esquerda. Já o ex-primeiro ministro e candidato centrista a presidência, Gabriel Attal, afirmou que, "em qualquer outro país europeu, esse tipo de comportamento provocaria uma revolta".

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"Será ela a presidente que dirá aos juízes para serem mais duros com os criminosos, aos policiais para não deixarem nada impune e aos professores que integridade e justiça devem ser ensinadas? Quem acreditará nela?", questionou Boris Vallaud, líder da bancada do Partido Socialista na Assembleia Nacional.

Para Frédéric Dabi, diretor do instituto de pesquisas Ifop, o principal risco para Le Pen é "o ruído permanente em torno dos escândalos". Segundo ele, os adversários terão a oportunidade de "deslegitimar tudo o que ela disser" durante a campanha.

Para Zulfikarpasic, o maior desafio poderá surgir justamente na ampliação de sua base eleitoral. Caso avance ao segundo turno, Le Pen precisará conquistar parte do eleitorado da direita moderada para ter chances de chegar ao Palácio do Eliseu.

Na história recente da França, candidatos condenados são raros e nenhum chegou à Presidência.

Com AFP

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