Sami Boukhelifa, enviado especial da RFI a Teerã, e agências
Fiéis começaram a chegar ao local desde o amanhecer, muitos com cartazes exibindo a foto do guia supremo, outros com bandeiras xiitas vermelhas com a inscrição "mártir", defendendo uma reação do regime à morte de Khamenei. A maré humana reunida sob o imponente arco da Mosalla grita: "Morte aos Estados Unidos".
Entrevistado pela RFI, o jovem Roozbeh Najafi se descreve como tão triste quanto no dia em que sua mãe morreu. "Então é preciso destruir Israel", reitera. "Foi Israel que matou o guia supremo, não os Estados Unidos".
Entre o público que chega para prestar homenagem à Khamenei, destacam-se muitas pessoas de aparência conservadora: mulheres usando o tchador, vestimenta reservada a eventos religiosos que cobre todo o corpo, e homens vestidos de preto.
"É evidente que Israel não passa do cão raivoso dos americanos. Sabemos de onde vêm as ordens. São os americanos que fornecem a eles os equipamentos e os alvos militares. Sem os americanos, eles não podem fazer nada", diz à RFI outro fiel, Mohsen Maasoumeh.
O funeral, que deve se estender por seis dias, promete ser o maior da história do Irã. O evento também é uma demonstração de força em meio às negociações entre Estados Unidos e Irã, após a assinatura em junho de um protocolo de acordo para tentar pôr fim à guerra.
Imenso esquema de segurança em Teerã
Por ocasião dessa homenagem, que ocorre seis meses depois de importantes manifestações populares contra o alto custo de vida e o governo, o centro de Teerã foi transformado em uma fortaleza, com numerosos controles policiais. Por outro lado, o regime resolveu abrir às portas à imprensa internacional pela primeira vez desde o início da guerra, com o objetivo de mostrar a destruição causada pelos bombardeios e a devoção da população ao guia supremo.
Para receber iranianos de todo o país, mais de 400 tendas da ONG humanitária Crescente Vermelho iraniano foram instaladas em um grande parque da capital. Também foram colocados caminhões-pipa, prontos para refrescar a multidão diante de temperaturas que devem ultrapassar os 35°C.
Mesmo antes do início oficial da cerimônia neste sábado, várias centenas de pessoas aguardavam na noite de sexta em frente à Grande Mosalla, na esperança de serem as primeiras a entrar. Alguns dos presentes choram e outros aguardam sentados no chão, enquanto se recitam poemas e se difundem cânticos religiosos.
A presença do filho de Khamenei, Mojtaba, que o sucedeu no início de março como guia supremo, não foi confirmada. Supostamente ferido durante os ataques que mataram seu pai, o dirigente se expressa apenas por meio de mensagens escritas e não apareceu em público.
Seis dias de funeral
O caixão com o corpo de Khamenei permanecerá exposto dia e noite até segunda-feira (6) na Mosalla, antes de uma procissão pelas ruas da capital. Após essa primeira etapa, os restos mortais farão escala em várias cidades do Irã e do Iraque, antes de seu sepultamento em 9 de julho na cidade santa de Mashhad, no nordeste do Irã, onde o guia supremo nasceu.
Diante do público, vários altos funcionários iranianos e alguns líderes estrangeiros prestaram na sexta-feira (3) uma última homenagem ao líder supremo que comandou por mais de três décadas o destino do Irã até sua morte, aos 86 anos.
O chefe da Guarda Revolucionária, Ahmad Vahidi, apareceu em público pela primeira vez desde o início da guerra. Ele foi nomeado para o cargo no começo de março, após a morte de seu predecessor em 28 de fevereiro, primeiro dia do conflito.
Ao lado do caixão de Khamenei estão também os de seus familiares mortos junto com ele - uma de suas filhas, um genro, uma nora e uma neta de 14 meses, segundo as autoridades. Enquanto isso, a imagem do dirigente com o punho erguido, símbolo da resistência que ele reivindicava diante do Ocidente, permanece onipresente no recinto.