O processo foi transferido de Marselha para Paris porque esta é a primeira vez que uma ação penal é conduzida pelo recém-criado Ministério Público Nacional Anticrime Organizado (Pnaco). O órgão começou a operar no início de janeiro e tem sede na capital.
O adolescente, cujo nome não pode ser divulgado por determinação legal, é julgado por homicídio doloso em associação com organização criminosa. As audiências, realizadas sob forte proteção policial, devem durar três dias. A sentença é esperada para a tarde de quinta-feira (12).
O julgamento ocorre um ano e meio depois do assassinato, quando o adolescente tinha apenas 14 anos. Devido à idade, ele está sujeito a uma pena máxima de 20 anos de prisão; se fosse maior de idade, poderia ser condenado à prisão perpétua. A legislação francesa prevê a atenuação de penas para infratores com menos de 16 anos. Diante da repercussão do caso, alguns deputados passaram a defender uma reforma constitucional para endurecer punições a menores infratores.
Un adolescent de 14 ans jugé pour le meurtre du chauffeur de VTC Nessim Ramdane à Marseille https://t.co/yHvZgGERen
— franceinfo (@franceinfo) February 10, 2026
Assassinato
Em 4 de outubro de 2024, o motorista de aplicativo Nessim Ramdane, pai de três filhos e com 36 anos, foi encontrado morto a tiros no volante de seu carro, que havia colidido com o muro de uma escola infantil em Marselha.
Pouco após a descoberta do corpo, a polícia recebeu a ligação de um presidiário da região, que se apresentou como membro da gangue DZ Mafia. Ele afirmou ter contratado o jovem para matar um narcotraficante rival. O motivo seria a vingança pela morte de um adolescente de 15 anos que o mandante havia enviado anteriormente para intimidar o concorrente — mas que acabou descoberto, esfaqueado cerca de cinquenta vezes e queimado vivo.
Insatisfeito com o novo executor, que matou uma vítima sem qualquer relação com o alvo previsto, o mandante denunciou o adolescente à polícia. O jovem foi preso logo em seguida.
Na época do crime, o promotor de Justiça de Marselha, Nicolas Bessone, revelou que o adolescente vivia em um abrigo desde os nove anos, já que seus pais estavam presos por envolvimento com o tráfico de drogas.
Quando foi detido, o menor também era investigado em outros cinco procedimentos ainda não julgados, nenhum deles considerado de grande gravidade, informou uma fonte judicial.
"Esperamos que o Tribunal de Menores imponha uma punição exemplar. A Justiça é o último bastião contra a violência", afirmou antes da audiência a advogada da família de Nessim Ramdane, Anne Santana-Marc.
As advogadas do réu, Coline Grindel e Eva Bensoussan, classificaram o caso como "evidentemente dramático", mas afirmaram que o desfecho "era inevitável diante das falhas dos pais e, sobretudo, das instituições". Segundo elas, essas falhas serão o foco do debate durante o julgamento.
Recrutado pelo Snapchat
O adolescente foi recrutado como matador de aluguel por meio do Snapchat. Os mandantes o buscaram no departamento de Gard, no sul da França, e o hospedaram em um hotel em Marselha, onde ele recebeu uma arma e um telefone, segundo uma fonte judicial.
Para executar o "contrato", o jovem solicitou uma corrida pelo aplicativo Bolt. Durante o trajeto, ele teria se desentendido com o motorista, por razões ainda desconhecidas, e atirou na parte de trás da cabeça de Nessim Ramdane.
"Vou para a audiência com um nó no estômago, porque preciso ver esse menor que tirou a vida de Nessim — não por ódio, mas para dizer a ele o mal irreparável que causou aos meus filhos", declarou Mélanie Giacomi, viúva de Ramdane, de 34 anos. O motorista também era técnico de um clube de futebol amador da cidade.
Fenômeno crescente
O caso inaugura uma onda de julgamentos ligados ao crescente recrutamento de menores pelo crime organizado de Marselha. O fenômeno já provocou um aumento de 18% na atividade penal do Tribunal de Menores da cidade no último ano.
"Essa delinquência é marcada por atos cada vez mais violentos, pelo recrutamento de menores pelas redes de narcotráfico — menores que frequentemente acabam vítimas de tortura, atos de barbárie, sequestros ou até assassinatos", afirmou no fim de janeiro o presidente do Tribunal Judicial de Marselha, Olivier Leurent.
Com AFP