Matador de aluguel adolescente é julgado na França por morte de motorista de aplicativo

A Justiça francesa começou a julgar nesta terça-feira (10) um adolescente de 15 anos pelo assassinato, em outubro de 2024, em Marselha, no sul do país, de um motorista de aplicativo. Este é o primeiro caso emblemático que ilustra o fenômeno crescente da contratação pela internet de menores como matadores de aluguel pelo crime organizado de Marselha. O julgamento ocorre a portas fechadas no Juizado de Menores de Paris.

10 fev 2026 - 13h11

O processo foi transferido de Marselha para Paris porque esta é a primeira vez que uma ação penal é conduzida pelo recém-criado Ministério Público Nacional Anticrime Organizado (Pnaco). O órgão começou a operar no início de janeiro e tem sede na capital.

Palácio de Justiça de Paris, onde acontece o julgamento de um adolescente de 15 anos, acusado pelo assassinato, em outubro de 2024, em Marselha, no sul do país, de um motorista de aplicativo.
Palácio de Justiça de Paris, onde acontece o julgamento de um adolescente de 15 anos, acusado pelo assassinato, em outubro de 2024, em Marselha, no sul do país, de um motorista de aplicativo.
Foto: © Zakaria Abdelkafi / AFP / RFI

O adolescente, cujo nome não pode ser divulgado por determinação legal, é julgado por homicídio doloso em associação com organização criminosa. As audiências, realizadas sob forte proteção policial, devem durar três dias. A sentença é esperada para a tarde de quinta-feira (12).

Publicidade

O julgamento ocorre um ano e meio depois do assassinato, quando o adolescente tinha apenas 14 anos. Devido à idade, ele está sujeito a uma pena máxima de 20 anos de prisão; se fosse maior de idade, poderia ser condenado à prisão perpétua. A legislação francesa prevê a atenuação de penas para infratores com menos de 16 anos. Diante da repercussão do caso, alguns deputados passaram a defender uma reforma constitucional para endurecer punições a menores infratores.

Assassinato

Em 4 de outubro de 2024, o motorista de aplicativo Nessim Ramdane, pai de três filhos e com 36 anos, foi encontrado morto a tiros no volante de seu carro, que havia colidido com o muro de uma escola infantil em Marselha.

Pouco após a descoberta do corpo, a polícia recebeu a ligação de um presidiário da região, que se apresentou como membro da gangue DZ Mafia. Ele afirmou ter contratado o jovem para matar um narcotraficante rival. O motivo seria a vingança pela morte de um adolescente de 15 anos que o mandante havia enviado anteriormente para intimidar o concorrente — mas que acabou descoberto, esfaqueado cerca de cinquenta vezes e queimado vivo.

Insatisfeito com o novo executor, que matou uma vítima sem qualquer relação com o alvo previsto, o mandante denunciou o adolescente à polícia. O jovem foi preso logo em seguida.

Publicidade

Na época do crime, o promotor de Justiça de Marselha, Nicolas Bessone, revelou que o adolescente vivia em um abrigo desde os nove anos, já que seus pais estavam presos por envolvimento com o tráfico de drogas.

Quando foi detido, o menor também era investigado em outros cinco procedimentos ainda não julgados, nenhum deles considerado de grande gravidade, informou uma fonte judicial.

"Esperamos que o Tribunal de Menores imponha uma punição exemplar. A Justiça é o último bastião contra a violência", afirmou antes da audiência a advogada da família de Nessim Ramdane, Anne Santana-Marc.

As advogadas do réu, Coline Grindel e Eva Bensoussan, classificaram o caso como "evidentemente dramático", mas afirmaram que o desfecho "era inevitável diante das falhas dos pais e, sobretudo, das instituições". Segundo elas, essas falhas serão o foco do debate durante o julgamento.

Publicidade

Recrutado pelo Snapchat

O adolescente foi recrutado como matador de aluguel por meio do Snapchat. Os mandantes o buscaram no departamento de Gard, no sul da França, e o hospedaram em um hotel em Marselha, onde ele recebeu uma arma e um telefone, segundo uma fonte judicial.

Para executar o "contrato", o jovem solicitou uma corrida pelo aplicativo Bolt. Durante o trajeto, ele teria se desentendido com o motorista, por razões ainda desconhecidas, e atirou na parte de trás da cabeça de Nessim Ramdane.

"Vou para a audiência com um nó no estômago, porque preciso ver esse menor que tirou a vida de Nessim — não por ódio, mas para dizer a ele o mal irreparável que causou aos meus filhos", declarou Mélanie Giacomi, viúva de Ramdane, de 34 anos. O motorista também era técnico de um clube de futebol amador da cidade.

Fenômeno crescente

O caso inaugura uma onda de julgamentos ligados ao crescente recrutamento de menores pelo crime organizado de Marselha. O fenômeno já provocou um aumento de 18% na atividade penal do Tribunal de Menores da cidade no último ano.

Publicidade

"Essa delinquência é marcada por atos cada vez mais violentos, pelo recrutamento de menores pelas redes de narcotráfico — menores que frequentemente acabam vítimas de tortura, atos de barbárie, sequestros ou até assassinatos", afirmou no fim de janeiro o presidente do Tribunal Judicial de Marselha, Olivier Leurent.

Com AFP

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se