Maria Paula Carvalho, de Paris
Eles representam não apenas um país tropical em busca de medalhas inéditas, mas uma identidade brasileira que atravessa fronteiras e encontra força justamente nessa mistura. Em sua décima participação nos Jogos Olímpicos de Inverno, o país está presente em cinco modalidades. E não é só por sorte, mas por bons resultados que garantiram classificação e até favoritismo.
Como no caso do esqui alpino, em que Lucas Pinheiro Braathen, de 25 anos, é o segundo melhor do mundo. Nascido em Oslo, de pai norueguês e mãe brasileira, ele foi o porta-bandeira do Brasil na cerimônia de abertura e vem disposto a conquistar um pódio inédito para o país. "Esse é o maior sonho da minha vida. Eu sou muito grato por todo mundo torcendo por mim, torcendo para o Brasil, que está nos acompanhando nessa jornada, e eu vou fazer tudo para trazer essa medalha para a nossa casa", disse em entrevita coletiva, na Itália.
O jovem, criado na Escandinávia, diz que descobriu o gosto pelo esporte nas quadras de futebol do Brasil, onde costumava passar férias na infância. Torcedor do São Paulo, ele cresceu em um ambiente cercado de referências brasileiras. Adora bossa nova e vários artistas do país.
Com mais de 20 pódios na carreira, oito deles representando o Brasil, Lucas sente a pressão.
"Honestamente, a pressão é enorme. Represento mais de 200 milhões de brasileiros. Eu sou esse atleta que tem a chance, a oportunidade de trazer a medalha, e isso é uma responsabilidade que eu carrego todo dia. Agora, essa pressão é um privilégio."
Amante de música e de moda, Lucas Braathen foge dos padrões tradicionais do esqui alpino, fazendo questão de mostrar sua personalidade. Em 2023, surpreendeu a todos ao anunciar sua aposentadoria precoce, após entrar em desacordo com a Federação Norueguesa de Esqui sobre questões ligadas à sua imagem e liberdade de expressão. Depois disso, decidiu representar o Brasil. E tem sambado no pódio quando vence. A imagem cativante do esquiador, somada ao seu desempenho, atrai fãs e admiradores no mundo todo, além de levar cada vez mais brasileiros às pistas de competição.
"Foi uma transição gigantesca. E me deixa meio emocionado olhar para trás, para essa jornada até chegar aqui em Milão, vestindo as nossas cores, porque eu tenho a sensação de que é o meu segundo capítulo na vida. É uma parte da minha vida com a liberdade de ser quem eu sou, representar os meus valores, os meus sonhos verdadeiros e não os sonhos de outros — da mídia, da indústria, da minha equipe — mas os meus próprios sonhos."
O sucesso de Lucas Pinheiro Braathen em sua primeira temporada pelo Brasil no esqui alpino definitivamente chamou a atenção — a ponto de outras estrelas dos esportes de inverno com cidadania brasileira seguirem o mesmo caminho. No snowboard, Pat Burgener, de 32 anos, competiu pela Suíça em PyeongChang (2018) e Pequim (2022), antes de defender o Brasil este ano.
A transição inclui adaptação à língua portuguesa — ainda um desafio — assim como provar que o país tem espaço nos esportes de neve. "Minha mãe cresceu no Brasil, um país que ela sempre disse que é maravilhoso e que eu tenho que ir. Então, graças ao meu esporte, eu tive a possibilidade de descobrir esse país maravilhoso," disse em entrevista à RFI. "Por que eu estou aqui? Para ajudar a acreditar que o Brasil tem um lugar nos esportes de inverno", completa.
Em janeiro deste ano, o suíço-brasileiro conquistou a primeira medalha da história do Brasil na Copa do Mundo de snowboard halfpipe, ao ficar com o bronze na etapa de Calgary, no Canadá. Para esses atletas, o sentimento de conexão com o Brasil se reflete não apenas no patriotismo esportivo, mas na responsabilidade que assumem como referência e inspiração para novos praticantes brasileiros de esportes de inverno.
Augustinho Teixeira, de 20 anos, é outro atleta filho de pai estrangeiro e mãe brasileira. Nascido em Ushuaia, na Argentina, acostumou-se à neve desde a infância e estreia nos Jogos de Milão-Cortina 2026, no snowboard halfpipe, uma das provas mais técnicas do programa olímpico, historicamente dominada por potências europeias e norte-americanas.
"Significa tudo para mim poder representar o país que me criou e o meu país. É uma sensação muito boa, muito orgulho e muita vontade de representar bem, ter um resultado bom. Eu não estou nas Olimpíadas por sorte."
O Brasil ainda tem representantes no esqui cross-country, skeleton e bobsled, onde será representado por atletas como Davidson de Souza, que veio do atletismo. Um ano antes da convocação, ele sofreu um sério acidente e pensou que não voltaria a competir. "É uma gratidão imensa e uma honra gigantesca poder representar o seu país de novo, as suas raízes, onde eu nasci, onde eu cresci e de onde eu sou. Eu sou brasileiro, vou morrer brasileiro, independentemente de onde eu more, independentemente de se eu tenho um passaporte canadense", afirma.
Todos fazem questão de destacar o apoio e os investimentos do Comitê Olímpico Brasileiro para que o país faça história também nos esportes de inverno.