A Espanha investiga uma colisão de trens em Castilla-La Mancha que deixou dezenas de feridos e mortos não contabilizados. O acidente ocorreu após uma pane no sistema de segurança LZB parar as composições; inexplicavelmente, o centro de controle autorizou um trem da Renfe a avançar, atingindo a traseira de um comboio da Iryo parado. O premiê Pedro Sánchez decretou luto de três dias em meio ao resgate difícil, enquanto a tragédia reacende debates sobre a segurança ferroviária no país.
"Toda a Espanha está de luto", declarou Sánchez no centro de coordenação das operações de resgate. O premiê também afirmou ser "inaceitável para um país como a Espanha" registrar dois acidentes ferroviários graves em menos de um ano. A colisão ocorre pouco mais de nove meses após outro acidente ferroviário, em 18 de janeiro, que deixou 46 mortos.
No início da tarde, as autoridades contabilizavam 108 feridos, dos quais 77 estavam hospitalizados e 15 em estado muito grave. Em atualização posterior, o governo regional de Castilla-La Mancha informou que 53 pessoas continuavam hospitalizadas, 15 delas em estado grave.
Os números refletem momentos diferentes da apuração, enquanto as equipes de resgate continuavam trabalhando entre os destroços. O chefe do governo espanhol decretou três dias de luto nacional, de quinta-feira (29) a sábado (31).
O acidente ocorreu nas proximidades da estação de Urda, na região de Castilla-La Mancha, a cerca de 150 quilômetros ao sul de Madri. A colisão envolveu um trem da empresa privada Iryo, subsidiária do grupo ferroviário italiano FS, que transportava 152 pessoas, e um trem da estatal Renfe, com cerca de 400 passageiros, segundo informações fornecidas pelo ministro dos Transportes, Óscar Puente.
Falha no sistema de sinalização
Em coletiva de imprensa, Puente, disse que o sistema de segurança ferroviária LZB apresentou uma falha por volta das 8h30, no horário local (4h30 em Brasília), provocando a parada automática dos seis trens que circulavam pelo trecho, incluindo os dois envolvidos no acidente.
O LZB, sigla em alemão para Linienzugbeeinflussung, é um sistema de sinalização e proteção ferroviária que transmite informações sobre as condições da via à cabine do maquinista e permite monitorar a velocidade dos trens. O sistema pode acionar os freios automaticamente quando necessário, contribuindo para evitar colisões e excessos de velocidade.
Com a falha, a circulação passou a depender de procedimentos alternativos. Segundo Puente, o trem da Iryo chegou a um sinal vermelho e parou. Poucos minutos depois, porém, o centro de controle da infraestrutura ferroviária autorizou o trem da Renfe a retomar a marcha normalmente, embora a sinalização ainda impedisse a circulação. O ministro classificou a decisão como "errada" e "inexplicável".
O trem da Renfe percorreu cerca de 25 quilômetros em aproximadamente 17 minutos até atingir a traseira do Iryo, que permanecia parado na via. A velocidade no momento da colisão ainda não havia sido determinada.
As circunstâncias da autorização para retomar a circulação estão entre os pontos que deverão ser esclarecidos pela investigação. Embora as primeiras informações levantem a hipótese de erro humano, as causas do acidente ainda não foram estabelecidas.
Puente classificou a tragédia como "implausível" e garantiu que o sistema ferroviário espanhol é "seguro". Questionado sobre a possibilidade de renunciar ao cargo, descartou essa hipótese.
Estrangeiros entre as vítimas
As equipes de emergência trabalham para içar dois vagões do trem da Iryo, que ficaram reduzidos a um amontoado de ferragens após a colisão. Três guindastes de grande porte participam das operações, segundo a imprensa espanhola. Bombeiros e outras equipes também procuram corpos entre os destroços. Um dos vagões do Iryo teria pegado fogo.
O acesso ao local é difícil e só pode ser feito por pequenas estradas de terra, o que torna as operações de resgate mais complexas.
O governo informou que a identificação das primeiras vítimas já havia começado, mas que a identidade de todas ainda não era conhecida. As autoridades também esperavam encontrar mais vítimas fatais nos vagões do Iryo. A divulgação de um balanço dos desaparecidos deverá aguardar a conclusão das inspeções nos trens acidentados.
Segundo fontes envolvidas nas operações de resgate ouvidas pelo jornal El País, há estrangeiros entre as vítimas. As autoridades já entraram em contato com as embaixadas de vários países, mas ainda não divulgaram as nacionalidades dos passageiros atingidos.
Segurança ferroviária em debate
A tragédia também afeta a campanha eleitoral, a um mês das eleições legislativas de 29 de novembro. O Partido Socialista (PSOE), de Pedro Sánchez, e o Partido Popular (PP, de direita) suspenderam suas atividades de campanha por tempo indeterminado.
Com quase 4 mil quilômetros de trilhos, a rede ferroviária de alta velocidade espanhola é a segunda maior do mundo, atrás apenas da chinesa. Cerca de 26 milhões de passageiros viajaram em trens de alta velocidade na Espanha entre janeiro e agosto, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE).
O acidente de 18 de janeiro, em Adamuz, no sul do país, já havia reacendido o debate sobre a manutenção da infraestrutura ferroviária e a segurança dos passageiros na Espanha, uma das nações mais visitadas do mundo.
Com um balanço ainda provisório, a tragédia de Urda é o acidente ferroviário mais mortal na Espanha desde o descarrilamento de um trem perto de Santiago de Compostela, no noroeste do país, em 2013, que deixou 80 mortos.
RFI e AFP