A França mobilizará 70 mil policiais para conter novos protestos e o risco de violência associado a convocações sem lideranças claras nas redes sociais. A operação, apoiada por blindados e aeronaves, ocorre sob forte tensão, enquanto o governo planeja dialogar com movimentos estudantis após semanas de greves. Paralelamente, entidades de imprensa e a AFP denunciam agressões recorrentes de policiais contra jornalistas durante a cobertura, registrando dezenas de feridos por golpes e balas de defesa.
O esquema de segurança será mantido nos mesmos moldes das operações realizadas nas últimas semanas, mas as autoridades demonstram preocupação com a possibilidade de confrontos e atos de vandalismo. Segundo o ministro do Interior, Laurent Nuñez, há menos manifestações formalmente organizadas por sindicatos do que na mobilização de quinta-feira (5). Em contrapartida, circulam nas redes sociais convocações para atos sem organizadores claramente identificados, situação que, segundo ele, aumenta os riscos de violência.
Em entrevista coletiva em Paris, Nuñez afirmou que foram identificados apelos à violência contra as forças de segurança, prédios públicos e estabelecimentos comerciais, além de incitações a saques, bloqueios de estradas e até à insurreição. O ministro também mencionou manifestações de grupos da ultra esquerda e da esquerda radical. "Portanto, o risco é exatamente o mesmo dos sábados anteriores", afirmou.
Para garantir a segurança, o governo mobilizará 70 mil agentes, 25 veículos blindados Centaure das forças de ordem, 15 veículos lançadores de jatos d'água, além de drones e helicópteros. Também estão previstos controles reforçados em rodovias, ferrovias e estações de trem.
As autoridades locais determinaram ainda a proibição de manifestações em determinados centros urbanos. Segundo o ministro, as áreas centrais das cidades serão sistematicamente protegidas pelas forças de segurança.
Nuñez afirmou que a polícia está preparada para enfrentar possíveis atos de violência e saques, mas garantiu que os manifestantes pacíficos terão proteção para exercer seu direito de protestar.
O reforço policial ocorre depois de uma série de episódios de violência registrados nas últimas semanas. No sábado, 17 de outubro, manifestações terminaram em cenas de tumulto, com saques, depredações e confrontos em várias cidades francesas. Na ocasião, 60 mil policiais foram mobilizados. Desde 24 de outubro, o dispositivo foi ampliado para 70 mil agentes nas jornadas de protesto.
Na quinta-feira (5), as manifestações transcorreram, em geral, sem grandes incidentes, embora tenham sido registrados confrontos em algumas cidades. Os sindicatos estimaram a participação em mais de 1,5 milhão de pessoas em todo o país. O Ministério do Interior, por sua vez, contabilizou 575 mil manifestantes, dos quais 65 mil em Paris. Segundo Nuñez, 642 pessoas foram detidas durante os atos.
Governo promete diálogo com estudantes
O primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, anunciou que receberá representantes de estudantes do ensino médio e universitários na próxima segunda-feira (9), em Paris. O encontro, previsto para as 15h30, será uma primeira rodada de conversas sobre as reivindicações do movimento, que já dura seis semanas.
Na sequência, das 17h às 19h, o premiê participará de uma reunião dedicada à reforma do Parcoursup, plataforma utilizada na França para orientar e organizar o ingresso de estudantes no ensino superior. O encontro contará também com os ministros franceses da Educação, Édouard Geffray, e do Ensino Superior, Philippe Baptiste, além de representantes de sindicatos, organizações patronais, associações de pais, parlamentares e instituições universitárias.
O comitê deverá apresentar as primeiras recomendações ao longo de novembro. Algumas propostas poderão resultar em um projeto de lei, segundo o governo.
Criticado pelo movimento estudantil, o sistema Parcoursup deverá passar por mudanças a partir de 2027 e ser substituído em 2028. Entre as medidas anunciadas pelo governo para responder às reivindicações estão a criação de 500 vagas adicionais para professores, o cancelamento dos cortes de postos previstos anteriormente, o limite de 28 alunos por turma no segundo ano do ensino médio, a revisão do sistema de avaliação contínua do baccalauréat - exame que encerra o ensino médio francês - e a abertura de 15 mil novas vagas no ensino superior.
AFP denuncia agressões policiais contra jornalistas
Em meio à tensão nas ruas, a direção da Agência France-Presse (AFP) denunciou nesta sexta-feira a violência cometida por integrantes das forças de segurança contra jornalistas que cobriam as manifestações estudantis e os protestos contra o aumento do custo de vida nas últimas semanas. A agência informou que vários profissionais foram atingidos por golpes de cassetete e até por disparos de balas de defesa (LBD), apesar de estarem identificados como jornalistas.
O caso mais recente ocorreu na quinta-feira (5), quando um fotógrafo da AFP, que usava a braçadeira de imprensa, foi atingido durante uma investida policial contra a parte dianteira de um cortejo de manifestantes. Ele recebeu cinco golpes de cassetete: três no capacete e dois na parte inferior de uma das pernas. O jornalista sofreu uma fratura na fíbula, osso da perna localizado entre o joelho e o tornozelo.
Em 17 de outubro, outro jornalista da agência foi atingido na coxa por um disparo de LBD durante uma manifestação em Lille, no norte da França. Na mesma data, uma jornalista de vídeo foi deliberadamente atingida por um jato de água disparado pela polícia em Paris. Ela estava acompanhada de profissionais de outros veículos de comunicação, todos identificados como imprensa. No dia seguinte, também recebeu um golpe de cassetete.
Em comunicado, a direção da AFP reconheceu as condições difíceis enfrentadas pelas forças de segurança durante as operações de manutenção da ordem, mas considerou indispensável que a identificação dos profissionais de imprensa seja levada em conta pelos policiais.
A agência pediu que sejam adotadas todas as precauções necessárias para preservar a integridade física dos jornalistas e permitir que cumpram seu trabalho. Também ressaltou que a possibilidade de observar, fotografar e filmar manifestações e operações policiais é parte essencial da missão de informar o público.
Outros veículos também informam violência
As denúncias de agressões não se limitam à AFP. Sindicatos de jornalistas e organizações de defesa da liberdade de imprensa também vêm alertando para a violência contra profissionais que acompanham os protestos.
A organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) informou ter contabilizado 58 casos de impedimento ou violência contra jornalistas durante a cobertura das mobilizações, sem incluir os episódios registrados na quinta-feira. Desse total, 40 envolveram integrantes das forças de segurança e 18 foram atribuídos a manifestantes ou terceiros. A entidade identificou ainda 35 casos de violência física, dos quais 21 teriam sido cometidos por agentes das forças de segurança.
Também nesta sexta-feira, uma repórter da revista Politis e uma fotógrafa do coletivo Divergences anunciaram, por meio de sua advogada, que apresentarão queixa contra policiais. As duas afirmam ter sido agredidas enquanto cobriam a manifestação de quinta-feira em Paris.
com AFP