A França registrou sua maior mobilização recente por reajustes salariais e investimento em serviços públicos, reunindo entre 600 mil e 1,6 milhão de manifestantes dos setores público e privado. Apesar dos impactos moderados no cotidiano e da adesão expressiva, a jornada teve episódios isolados de violência: confrontos com a polícia e vandalismo em Paris, hostilidade contra o eurodeputado Raphaël Glucksmann e a invasão seguida de incêndio em uma escola de ensino médio perto de Toulouse.
Segundo a central sindical CGT, quase 1,6 milhão de manifestantes participaram dos protestos em toda a França, dos quais 350 mil estavam em Paris. O Ministério do Interior contabilizava cerca de 600 mil participantes às 17h (hora local), em um balanço ainda provisório. Em qualquer uma das estimativas, trata-se da maior mobilização em um único dia desde o início de outubro, quando a população passou a pressionar o governo por reajustes salariais e maior investimento nos serviços públicos.
Os atos foram convocados pelas principais centrais sindicais francesas, entre elas CFDT, CGT, FO, UNSA e FSU. As reivindicações concentram-se principalmente na valorização salarial e no reforço dos serviços públicos.
Neste quarto dia nacional de mobilização, organizado em menos de um mês, o movimento contou também com a participação de trabalhadores do setor privado.
Apesar da adesão expressiva, os impactos sobre o cotidiano foram limitados. O transporte público, os hospitais, as escolas e o setor energético registraram apenas perturbações moderadas. Ainda durante a manhã, os sindicatos classificavam o movimento como um sucesso e prometiam ampliar a pressão caso o governo não responda às reivindicações apresentadas.
Vandalismo em Paris
Em Paris, a manifestação começou por volta das 14h (hora local) e percorreu o trajeto tradicional entre a Praça da República e a Praça da Nação, de cerca de 4 km. Ao longo do percurso, grupos encapuzados cometeram atos de vandalismo no Boulevard Voltaire, segundo a Prefeitura de Polícia. As autoridades informaram que as forças de segurança intervieram para conter os abusos, dispersar grupos considerados não autorizados e impedir bloqueios de vias.
Jornalistas da AFP presentes no local observaram momentos de tensão quando a frente do cortejo foi dividida em duas no Boulevard Voltaire. Policiais utilizaram gás lacrimogêneo e avançaram com cassetetes para dispersar manifestantes. Equipes de "street medics", voluntários que prestam primeiros socorros em protestos, atenderam diversas pessoas com ferimentos na cabeça.
O clima também foi marcado por incidentes políticos. O eurodeputado Raphael Glucksmann, candidato da esquerda social-democrata à eleição presidencial, foi recebido sob vaias e acabou impedido de avançar por grupos hostis à sua presença. "Não, Glucksmann não é um camarada", eles gritavam, o que ilustra, mais uma vez, sua dificuldade em fazer campanha. O político, que deixou a manifestação pouco depois. Sua equipe atribuiu a saída ao ambiente de tensão e à presença de grupos radicais.
Escola incendiada
Outro episódio chamou atenção em Tournefeuille, próximo a Toulouse, no sul da França. Cerca de 30 indivíduos encapuzados invadiram uma escola de ensino médio, lançaram fogos de artifício do tipo morteiro e atearam fogo a uma sala administrativa, segundo as autoridades locais. O incêndio foi controlado sem deixar vítimas, mas a instituição permanecerá fechada temporariamente.
Imagens divulgadas pela emissora regional Ici Occitanie mostram pessoas mascaradas e vestidas de preto dentro do estabelecimento, lançando fogos de artifício e alimentando as chamas com pedaços de madeira e painéis retirados do local.
A presidente socialista da região Occitânia, Carole Delga, condenou o ataque e afirmou que os responsáveis tinham como único objetivo "destruir instalações educacionais e ferir os funcionários".
O incidente provocou reações imediatas no cenário político francês. A líder da extrema direita e candidata presidencial do Reunião Nacional (RN), Marine Le Pen, classificou as imagens como "insuportáveis".
Embora esses episódios tenham marcado a jornada de protestos, eles permaneceram relativamente isolados diante da amplitude da mobilização.
Com agências