Um novo livro da jornalista Françoise Degois expôs mensagens privadas de Emmanuel Macron sobre os bastidores do poder em 2024. Nos textos, o presidente francês rechaça renunciar, critica Donald Trump e seu ex-premiê Gabriel Attal, além de justificar a dissolução do Parlamento como estratégia para frear a extrema direita de Marine Le Pen. O caso gerou acusações de traição e expôs contradições de Macron, que prometera não manter relações de cumplicidade com a imprensa, embora o Eliseu minimize a obra.
"Vamos vencê-los!", "Donald, il ne connaît pas Raoul" ("Donald não sabe com quem está lidando", escreveu Macron, usando uma expressão popularizada pelo filme francês Les Tontons flingueurs para sugerir que Trump o subestimava. Lançado em 1963, dirigido por Georges Lautner e com diálogos de Michel Audiard, o longa é famoso por suas tiradas irônicas e expressões que entraram para a cultura popular francesa.
"Renunciar? Nunca!" é outra das frases extraídas das conversas entre o presidente francês e a jornalista, que decidiu incluir os diálogos em um livro sem avisar seu interlocutor, principal personagem da obra. O livro mistura trocas de mensagens no aplicativo Telegram em 2024 com relatos políticos sobre os bastidores do poder.
No livro, Macron comenta suas decisões e sua determinação em impedir que o partido de Marine Le Pen chegue ao poder. Ele também fala da ascensão do partido de extrema direita Reunião Nacional (RN) e dos desdobramentos da dissolução da Assembleia Nacional em junho de 2024.
"Essa dissolução me custou muito sob todos os aspectos, mas ao menos bloqueou o RN naquele momento. Tenho certeza disso. O partido estava pronto para o outono, mas não para junho. Enquanto os outros alimentam seus egos, eles se reorganizam. Essa será a responsabilidade deles", escreveu o presidente ao reagir às críticas sobre sua decisão.
Em uma mensagem enviada em junho de 2026, Macron afirma que qualquer instabilidade política acaba favorecendo a extrema direita e critica a ala da direita dita moderada. "Se você visse os dirigentes da direita. A maioria deles está correndo para o colo do RN. Por isso, repito: é preciso reduzir a tensão e não brincar com fogo."
"É um documento político que busca compreender esse homem solitário, que conhece a França melhor do que muitos dizem, mas que hoje se encontra em um impasse que ele próprio ajudou a construir, enquanto seu mandato chega ao fim", escreveu no X Françoise Degois.
Críticas à esquerda e a Gabriel Attal
Nas mensagens, o presidente francês também justifica sua recusa em nomear um primeiro-ministro de esquerda após a dissolução do Parlamento. "Vocês não venceram. Quem venceu foi o RN", escreveu à jornalista, que sugeria uma aproximação com a esquerda. "Vocês caem em uma semana se eu nomear qualquer um, porque não conseguem entrar em acordo."
O presidente também critica seu então primeiro-ministro, Gabriel Attal, antigo aliado político com quem mantém uma relação mais distante atualmente. "Demos espaço demais a ele. O tempo todo. Demais", escreveu.
Apesar da repercussão, o Eliseu minimizou o conteúdo das revelações. Um assessor presidencial declarou que o livro apenas confirma posições que Macron já havia expressado publicamente, como seu apoio à reforma da Previdência, suas críticas à direita tradicional e sua avaliação de Attal. O próprio Attal reagiu com desdém em entrevista à BFMTV. "Tudo isso não interessa aos franceses", disse. "Cada um faz seus comentários como quer, quando quer e com quem quer, aparentemente, inclusive com jornalistas."
Contradições
A divulgação das mensagens chama atenção por contrariar declarações feitas por Macron antes de chegar à Presidência. Em 2016, durante entrevista ao Mediapart, ele criticava a proximidade entre políticos e jornalistas. "Hoje existe uma relação de cumplicidade entre o mundo político e o mundo da mídia", afirmou à época.
Como candidato à Presidência, Macron também dizia: "Não tenho amigos jornalistas. Não mantenho relações de cumplicidade nem faço confidências". A declaração foi uma tentativa de se diferenciar do então presidente François Hollande, cuja série de conversas reservadas com os jornalistas Gérard Davet e Fabrice Lhomme, do jornal Le Monde, foi revelada no livro Un président ne devrait pas dire ça... ("Um presidente não deveria dizer isso...").
Reações políticas
As reações ao livro foram limitadas. O deputado Aurélien Taché, ex-integrante do movimento de Macron e atualmente ligado à esquerda radical, escreveu na rede X que não acredita "nem por um segundo" que o presidente desconhecesse a publicação do conteúdo.
Já a ministra delegada da Educação, Sabrina Roubache, próxima ao casal presidencial, classificou a atitude da jornalista como "pior que uma traição". Segundo ela, "só os muito ingênuos acreditam que conversas em off realmente permanecem em off".
Com agências