'Gostoso da Paulista' inspira manifestantes na França

Um manifestante sem camisa, o rosto coberto, uma bandeira nacional erguida acima da multidão e uma pose quase cinematográfica. Bastou uma fotografia feita durante os protestos na França na quinta-feira (5) para que brasileiros enxergassem nela uma cena familiar. O militante anônimo clicado na Praça da República, em Paris, foi rapidamente comparado a Israel Augusto Gomes dos Santos, o "Gostoso da Paulista", que viralizou durante uma manifestação de apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil. E o fenômeno parece se alastrar nas redes sociais.

6 nov 2026 - 11h54
Resumo
A foto de um manifestante sem camisa segurando a bandeira nacional durante protestos na França viralizou entre brasileiros por lembrar o "Gostoso da Paulista", Israel dos Santos. Especialistas apontam que a cena evoca a iconografia revolucionária clássica, como obras de Delacroix. Porém, diferentemente do caso brasileiro, onde o indivíduo virou celebridade nas redes sociais, na França o homem permaneceu anônimo, mantendo o foco da imprensa na pauta coletiva contra o custo de vida.

A imagem francesa, publicada pelo perfil do jornal Le Monde no Instagram e creditada à fotógrafa da Reuters Hannah McKay, mostra um homem de torso nu segurando uma bandeira francesa acima da multidão. A fotografia se tornou uma das imagens mais marcantes das manifestações que têm mobilizado milhares de pessoas nas ruas da França contra a alta do custo de vida, pela valorização dos salários e em defesa de reivindicações apresentadas por estudantes. 

Manifestante ergue uma bandeira francesa durante a greve geral contra o alto custo de vida na França. Paris, 5 de novembro de 2026.
Manifestante ergue uma bandeira francesa durante a greve geral contra o alto custo de vida na França. Paris, 5 de novembro de 2026.
Foto: REUTERS - Hannah McKay / RFI

Na publicação do jornal francês apareceram diversos comentários de brasileiros estabelecendo o paralelo. Entre eles, frases como: "O gostoso da Paulista versão Delacroix"; "Brasil exportando manifestações"; "Olha aí o gostoso da Champs-Élysées"; e "O gostoso da Paulista virou referência". 

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Um dos comentários fazia referência ao pintor francês Eugène Delacroix, autor de "A Liberdade Guiando o Povo" (1830), uma das representações mais famosas da tradição revolucionária francesa. 

Acredita-se, contudo, que não seja o único manifestante na França a ser comparado ao chamado "Gostoso da Paulista". Diversas publicações nas redes sociais exibem cenas semelhantes.   

De acordo com especialistas em comunicação, imagens desse tipo costumam ganhar força por reunir diversas referências em um único quadro. A presença da bandeira nacional, a ocupação de um monumento emblemático e a posição elevada do personagem remetem a uma iconografia antiga das revoluções e das manifestações de rua, profundamente ancoradas na história francesa. 

Imagem viraliza no Brasil

A comparação deixou de circular apenas entre usuários das redes sociais e chegou também a sites brasileiros. O Portal Manaós, por exemplo, publicou uma reportagem intitulada "Do Brasil à França: cena de protesto lembra imagem que viralizou na Avenida Paulista", destacando as semelhanças entre o manifestante francês e o brasileiro. O texto observa que a repercussão partiu de internautas que identificaram na fotografia francesa elementos visuais muito próximos daqueles que transformaram Israel Augusto Gomes dos Santos em fenômeno digital.  

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Mas existe uma diferença importante entre os dois casos. No Brasil, o personagem foi rapidamente identificado e se tornou mais conhecido do que a própria fotografia. Depois da manifestação na Avenida Paulista, Israel Augusto Gomes dos Santos ganhou centenas de milhares de seguidores e passou a ser entrevistado por diferentes veículos de comunicação.  

Na França, ocorreu o contrário. Embora a imagem tenha sido reproduzida por jornais e agências internacionais, a imprensa permaneceu concentrada no movimento social. Nas legendas distribuídas pela Reuters, o homem da bandeira aparece apenas como "um manifestante". Sua identidade não foi divulgada nem transformada em objeto de reportagens.   

No fim, o chamado "Gostoso de Paris" talvez exista apenas do lado brasileiro da internet. Mas os dois casos revelam como uma imagem pode ultrapassar fronteiras e transformar manifestantes anônimos em símbolos de seu tempo. 

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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