Uma onda de falsos alertas de bomba atingiu dezenas de voos e redações jornalísticas na Europa, afetando países como França, Bulgária, Portugal e Irlanda. Nenhum explosivo foi achado, mas os episódios causaram desvios aéreos, evacuações e reforço na segurança diplomática. Autoridades e analistas suspeitam de uma ação coordenada de guerra híbrida voltada à desestabilização e ao pânico logístico, enquanto lideranças policiais pedem cautela para evitar respostas desproporcionais.
Onze voos com origem ou destino em Praga, na República Tcheca, e Sófia, na Bulgária, foram alvo de alertas de bomba, informou à AFP o aeroporto da capital tcheca.
Na França, quatro novos alertas foram registrados em aviões que sobrevoavam o território nacional. As aeronaves pousaram sem incidentes, e equipes especializadas em desativação de explosivos realizaram inspeções de segurança, segundo os serviços do primeiro-ministro francês.
Em Portugal, um voo da companhia Ryanair que partiria de Lisboa com destino a Roma na manhã de sexta-feira também recebeu uma ameaça de bomba. A suspeita foi considerada infundada pelas autoridades portuguesas.
Na quinta-feira, pelo menos 20 voos já haviam sido alvo de ameaças semelhantes. Em nenhum dos casos foram encontrados explosivos.
A onda de ameaças também chegou às redações irlandesas. As sedes de quatro veículos de comunicação - a emissora pública RTÉ, o jornal The Irish Independent, a rádio Newstalk e o canal Virgin Media - foram evacuadas na manhã desta sexta-feira após terem recebido mensagens ameaçadoras.
O governo irlandês considera provável que os episódios façam parte de uma "campanha coordenada para provocar perturbações", em referência à sequência de alertas que vem atingindo a aviação comercial europeia. As autoridades, no entanto, ainda não identificaram os responsáveis.
O alerta foi emitido depois que a RTÉ recebeu um e-mail na manhã de sexta-feira. A RTÉ Radio 1 chegou a interromper suas transmissões por volta das 9h, no horário local. O jornal The Irish Independent também confirmou o recebimento de uma mensagem ameaçadora. A polícia irlandesa informou que investiga ameaças dirigidas a organizações de comunicação no país e em outras partes da Europa.
Diante do cenário, o primeiro-ministro irlandês, Micheál Martin, anunciou uma grande operação de segurança para dois encontros diplomáticos previstos em Dublin: a reunião da Comunidade Política Europeia, na quinta-feira, e uma cúpula informal de chefes de Estado e de governo da União Europeia, na sexta-feira. Os eventos acontecem durante a presidência irlandesa do bloco.
A Otan informou que acompanha a situação e mantém coordenação estreita com seus países aliados.
Suspeita de operações de desestabilização
Para especialistas, mesmo quando são falsas, ameaças desse tipo provocam efeitos concretos: mobilizam equipes de segurança, interrompem operações e disseminam medo, com custo praticamente zero para os responsáveis.
Sem atribuir diretamente os episódios a um país ou grupo, Jean-Marc Rickli, diretor de riscos globais e emergentes do Centro de Política de Genebra, afirmou à AFP que os casos devem ser analisados no contexto das chamadas operações híbridas contra Estados europeus.
"Não custa nada para quem faz isso, mas o impacto logístico é importante e, naturalmente, também afeta a percepção da população", observou. Segundo ele, as autoridades não podem ignorar nenhuma ameaça, pois serão responsabilizadas caso uma delas se concretize.
A dificuldade de identificar os autores torna ainda mais complicado encontrar formas de prevenir novas ocorrências.
Mensagens reivindicando os alertas enviados na quinta-feira aos aeroportos de Roma e Sófia foram assinadas por um grupo que se identificou como "Combatentes do Estado Masculino". O nome parece fazer referência a um movimento ultranacionalista russo, mas não foi possível confirmar qualquer ligação entre os dois.
Países europeus acusam regularmente a Rússia e o Irã de promover operações de desestabilização em seus territórios, incluindo campanhas de desinformação, sabotagem e ataques cibernéticos.
Uma fonte ligada à segurança europeia observa que, nos últimos anos, ganharam força formas de confronto que ficam abaixo do limiar de uma guerra convencional. Essas ações podem envolver ataques digitais, campanhas de manipulação da informação, intimidação e até o uso dos fluxos migratórios como instrumento de pressão política.
Apelo para evitar reações exageradas
Diante desse cenário, o chefe da polícia de Londres, Mark Rowley, defendeu cautela e sangue-frio na avaliação das ameaças.
Em entrevista à rádio BBC 4, ele lembrou que o Reino Unido enfrentou situações semelhantes durante a campanha de violência do IRA, grupo paramilitar irlandês, décadas atrás.
Na época, as autoridades utilizavam a expressão "terrorismo de dez centavos" para descrever ameaças falsas que, apesar de simples e baratas de produzir, podiam paralisar uma cidade inteira. "Precisamos aprender a distinguir o que é uma brincadeira de mau gosto de uma ameaça real", afirmou.
Para Rowley, o mesmo princípio deve ser aplicado ao atual cenário de segurança, marcado pela atuação de grupos hostis em diferentes partes do mundo, alguns deles supostamente orientados por Estados. O desafio, segundo ele, será adaptar os mecanismos de resposta sem reagir de forma desproporcional a cada mensagem recebida pela internet.
Na quinta-feira, dois caças da Força Aérea francesa também precisaram escoltar, na região da Normandia, um voo da companhia irlandesa Aer Lingus que fazia a rota entre Dublin e Roma, após um alerta emitido pelas autoridades italianas.
com AFP