Em meio a protestos internos pelo alto custo de vida, o presidente Emmanuel Macron visita países do Golfo para assegurar o fornecimento de combustíveis e tentar conter os preços da energia na França. A iniciativa busca mitigar os impactos do bloqueio no estreito de Ormuz por meio de rotas alternativas e acordos estratégicos. A missão diplomática inclui ainda negociações bilaterais de defesa, aviação e inteligência artificial, embora analistas vejam com ceticismo efeitos imediatos nos preços.
Poucas horas depois de tentar retomar o controle da situação interna em um pronunciamento aos franceses, o presidente chegou ao Kuwait, onde se reuniu com o emir Mechaal al-Ahmad Al-Sabah no Palácio Bayan. Macron visitará na sequência os Emirados Árabes Unidos, o Bahrein e o Catar até quarta-feira (21), na tentativa de reforçar "parcerias econômicas e de defesa".
Segundo o Palácio do Eliseu, o objetivo da viagem é obter "uma série de compromissos" sobre fornecimento de hidrocarbonetos em um momento de forte tensão nos mercados.
Antes de partir, o chefe de Estado prometeu ser firme contra os responsáveis pelos atos de violência durante os protestos e mais "transparente" sobre as regras de manutenção da ordem, que foi criticada após as cenas de caos registradas em várias cidades no sábado.
O presidente francês, que manteve a viagem apesar da crise, justificou a decisão pela necessidade de "garantir nossos abastecimentos", já que os preços dos combustíveis estão entre as principais reivindicações dos manifestantes.
No Kuwait, as conversas giraram em torno dos estoques de querosene e diesel posicionados previamente em Omã, próximo ao estreito de Ormuz, que poderiam ser enviados a territórios ultramarinos franceses, como Reunião e Mayotte.
Os preços da energia são impactados pelo bloqueio do estreito de Ormuz, por onde transitava cerca de 20% do petróleo mundial antes da guerra com o Irã. Os ataques dos houthis pró-Irã, no Iêmen, contra a Arábia Saudita e as tensões em torno do estreito de Bab el-Mandeb, outra importante rota marítima que liga a Europa à Ásia, também impactam o fornecimento.
"Estabilização"
"Os países árabes do Golfo têm grande interesse em abastecer o mundo e o mercado francês, mas é difícil assumir compromissos firmes enquanto a região não estiver estabilizada", alerta Francis Perrin, especialista em energia do Instituto Francês de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS).
Perrin não acredita que a viagem do presidente Macron terá impacto imediato sobre os preços.
"Além disso, para comprar é preciso ter recursos, e o talão de cheques francês já não tem muitas folhas", acrescenta Thierry Bros, professor da Sciences Po, em referência à situação das finanças públicas da França.
Macron também discutirá com seus interlocutores, entre eles o presidente dos Emirados Árabes Unidos, Mohammed bin Zayed Al Nahyan, e o emir do Catar, xeque Tamim bin Hamad Al Thani, formas de proteger as rotas marítimas da região e criar alternativas aos trajetos atualmente ameaçados.
Uma das possibilidades seria ampliar o uso de oleodutos terrestres que atravessam o Iraque, enquanto os países do Golfo continuam expostos a ataques iranianos desde o início do conflito.
França e Reino Unido lançaram uma missão internacional para contribuir com a reabertura do estreito de Ormuz, incluindo operações de desminagem após o retorno da paz. No entanto, ainda não há acordo entre Donald Trump e o Irã.
No Kuwait, a ministra das Forças Armadas, Catherine Vautrin, assinou uma declaração de intenções na área da defesa com autoridades kuwaitianas. Segundo integrantes da delegação francesa, as discussões também envolveram possíveis vendas de armamentos.
A Airbus assinou uma declaração de intenções para acompanhar a renovação da frota da Kuwait Airways e cooperar em manutenção e treinamento. Já a empresa francesa de inteligência artificial Pertimm firmou acordo semelhante para organizar os dados do governo kuwaitiano, com a expectativa de assinatura de um contrato definitivo até o fim do ano.
Com agências