Crise na França: cientista político vê 'presidência enfraquecida' após quase dez anos de macronismo

Os protestos contra o alto custo de vida que levaram milhares de pessoas às ruas da França no sábado (17) terminaram em confrontos, saques e incêndios. Quase 2.400 pessoas foram detidas e cerca de mil policiais ficaram feridos. A violência prosseguiu no domingo, aumentando a pressão sobre Emmanuel Macron, a seis meses das eleições presidenciais. A RFI ouviu especialistas em política e em segurança sobre o tema.

19 out 2026 - 10h18
Resumo
A crise na França enfraquece a presidência de Emmanuel Macron e expõe o desgaste do governo após quase dez anos de macronismo. Marcada por protestos estudantis que escalaram para distúrbios violentos, saques e toques de recolher parciais, a situação é descrita como guerra urbana. Especialistas apontam lentidão na resposta estatal e falhas na segurança, alertando que o caos reforça a imagem de declínio do país e pode impulsionar eleitoralmente a extrema direita de Marine Le Pen.

Para o cientista político Olivier Rouquan, a crise expõe "uma presidência enfraquecida" e revela um problema que ultrapassa o atual governo: o desgaste da função presidencial e a percepção de declínio do país.

Policiais correm por uma rua enquanto confrontos eclodiam na Praça da República, após uma manifestação não autorizada, no centro de Paris, em 18 de outubro de 2026.
Policiais correm por uma rua enquanto confrontos eclodiam na Praça da República, após uma manifestação não autorizada, no centro de Paris, em 18 de outubro de 2026.
Foto: © AFP/Matthieu Rondel / RFI

"Os franceses têm uma cultura presidencialista. Eles esperam que um presidente se pronuncie, mas seus meios, inclusive simbólicos, são agora muito fracos."

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Na avaliação de Rouquan, o governo também demorou a responder à mobilização estudantil, que já dura cerca de um mês. Macron poderia, segundo ele, ter recebido diretamente os estudantes, demonstrando maior disposição para o diálogo.

"Matignon (sede do governo francês) é uma máquina administrativa pesada. Talvez, seja menos reativa, e isso permite multiplicar as incompreensões e os mal-entendidos."

O cientista político vê ainda um risco eleitoral para o governo caso a violência persista, com o fortalecimento dos partidos que se apresentam como defensores da ordem, sobretudo a extrema direita.

"Se os distúrbios perdurarem por muito tempo, há em nosso país (...) um reflexo que consiste em privilegiar os políticos que vão falar sobre a ordem."

"Guerra urbana"

A líder da extrema direita Marine Le Pen já acusa o governo de estar "exausto" e "desorientado". Macron, que não poderá disputar um terceiro mandato, afirmou que "nada justifica" a violência e pediu que os responsáveis pelos distúrbios não sejam confundidos com os manifestantes pacíficos.

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Para o general Dominique Trincamp, ex-chefe militar da missão francesa junto às Nações Unidas, a crise também expôs falhas na preparação das forças de segurança. Ele descreve a situação como uma forma de "guerra urbana".

"Quando você tem uma estratégia de guerra urbana para colocar o caos absolutamente em todos os lugares, é difícil passar do controle de uma manifestação (...) para um combate de grupos violentos", avalia.

Trincamp chama atenção ainda para o impacto internacional das imagens de violência e destruição.

"Essas imagens reforçam a visão de uma França em declínio e incontrolável."

Na sua avaliação, a crise pode acabar favorecendo eleitoralmente o Reunião Nacional, de Marine Le Pen, ao provocar uma reação de rejeição à violência e aumentar a demanda por segurança.

As manifestações, inicialmente centradas no custo de vida, colocam Macron diante de um problema que combina crise social, perda de autoridade presidencial e risco de avanço da extrema direita.

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Medidas

O primeiro-ministro da França, Sébastien Lecornu, anunciou ter solicitado aos prefeitos que "decretassem uma série de toques de recolher" na noite de segunda-feira (19), após os distúrbios e saques registrados nas grandes cidades durante o fim de semana.

"Pedi aos prefeitos que decretassem vários toques de recolher nesta noite, toques de recolher parciais", anunciou o chefe de Governo de centro-direita após uma reunião de crise, sem especificar em quais cidades a medida será aplicada.

A lista dos municípios impactados pelo toque de recolher deve ser anunciada durante a tarde, depois que representantes do governo nos diversos departamentos franceses conversarem com os prefeitos.

Algumas medidas já foram anunciadas. Em Marselha, foram proibidas manifestações entre 12h e 20h desta segunda-feira, e a cidade de Denain, perto da fronteira com a Bélgica, já decretou um toque de recolher noturno até domingo.

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