Após protestos contra o custo de vida reunirem mais de 550 mil pessoas na França, o governo admitiu falhas de segurança diante de saques e violência que deixaram 2.331 detidos e mais de 2 mil comércios vandalizados. Emmanuel Macron rejeitou a demissão do ministro do Interior e convocou um comitê de crise para conter os prejuízos e dialogar com sindicatos, enquanto a oposição intensifica as críticas à gestão do presidente a seis meses das eleições presidenciais.
De acordo com o ministro, 2.331 pessoas foram detidas durante o fim de semana. Cerca de 70% são maiores de idade, e mais de 80% dos casos já resultaram em processos judiciais. Dezenas de suspeitos foram colocados em prisão preventiva, incluindo 13 em Marselha.
Segundo a Secretaria de Segurança Pública da região, reuniões ou manifestaçõesestão proibidas nesta segunda-feira, das 12h às 20h, em todo o município, anunciou a prefeitura de polícia local. A medida foi adotada após os episódios de violência e saques registrados na cidade à margem da jornada de protestos de sábado.
O ministro do Interior, Laurent Nuñez, também admitiu erros na atuação do governo. Ele reconheceu que houve falta de planejamento e perda de controle da situação em grandes cidades durante os protestos contra o alto custo de vida, iniciados pelas manifestações dos secundaristas em setembro por melhores condições de ensino.
Novos confrontos voltaram a ocorrer no fim do dia em Paris, na Praça da República, principal ponto de concentração dos manifestantes na capital. Houve 350 detenções no domingo e durante a madrugada de segunda-feira em Paris, cerca de 30 lojas foram saqueadas, anunciaram nesta segunda-feira o ministro do Interior, Laurent Nuñez, e o prefeito da capital, Emmanuel Grégoire.
Diante do impacto provocado pela violência, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu convocou nesta manhã uma célula interministerial de crise que abordará três temas principais: economia e comércio, seguros e acompanhamento judicial, segundo o gabinete do governo.
Lecornu também recebeu de Emmanuel Macron a missão de reunir partidos políticos, sindicatos, autoridades locais e parlamentares para discutir a situação. As autoridades estimam que até 30 mil saqueadores tenham atuado na cidade durante os distúrbios de sábado.
Segundo o ministro do Interior, 60 mil policiais e gendarmes foram mobilizados no sábado, número inferior ao mobilizado em grandes manifestações anteriores. Apesar disso, Emmanuel Macron rejeitou o pedido de demissão apresentado pelo ministro, alegando a necessidade de manter a continuidade do comando das forças de segurança.
Em pronunciamento na véspera, o presidente francês denunciou uma "violência desenfreada", atribuída a grupos radicalizados de ultraesquerda e a delinquentes. Segundo ele, os ataques a lojas, prefeituras e edifícios públicos representam uma "agressão direta à República".
Crítica da oposição
O movimento de protesto, inicialmente organizado nas redes sociais, recebeu apoio de sindicatos estudantis e de centrais sindicais mobilizadas por melhores condições de ensino e contra o alto custo de vida. A atuação das autoridades durante as manifestações vem sendo criticada por grande parte da classe política francesa e por diversos prefeitos.
A seis meses da eleição presidencial, a oposição atribui parte da responsabilidade pela crise ao presidente Emmanuel Macron. Os partidos de esquerda acusam o presidente de ignorar as reivindicações dos manifestantes, enquanto a direita cobra uma postura mais firme diante da violência.
O prefeito socialista de Paris, Emmanuel Grégoire, associou os confrontos a uma "forma de deterioração desse movimento social provocada pelo governo". Já Jordan Bardella, presidente do partido Reunião Nacional (RN), afirmou nesta segunda à Europe 1/CNews que "o poder abandonou completamente suas responsabilidades".
Por sua vez, Raphaël Glucksmann, candidato da esquerda à presidência, lamentou o que classificou como "impotência" do presidente e do Estado, avaliando que o "caos" pode favorecer a candidata do RN, Marine Le Pen.
A porta-voz do governo, Maud Bregeon, rebateu as críticas em entrevista à LCI. Segundo ela, "os primeiros responsáveis são os vândalos", embora tenha acusado a França Insubmissa (LFI) de ter uma "responsabilidade moral e política" pelos episódios de violência.
Impacto econômico
Os distúrbios também tiveram forte impacto econômico. O presidente da federação das Câmaras de Comércio e Indústria da França (CCI France), Alain Di Crescenzo, estima que mais de 2 mil estabelecimentos comerciais tenham sido atingidos por atos de vandalismo e saques, com prejuízos de centenas de milhões de euros.
Entre os casos mais emblemáticos está o da loja de departamentos BHV Marais, em Paris, que teve a entrada arrombada, o térreo vandalizado e mercadorias furtadas. Diante da situação, o ministro do Comércio, Serge Papin, reúne representantes de comerciantes, artesãos, bancos e seguradoras para discutir medidas emergenciais de apoio.
Entre as propostas estão a aceleração das indenizações pelas seguradoras, linhas de crédito com juros reduzidos, ampliação do regime de trabalho com jornada reduzida e uma possível moratória sobre impostos e contribuições sociais para os estabelecimentos afetados.
O banco Crédit Agricole já anunciou medidas emergenciais, incluindo a suspensão temporária de parcelas de empréstimos, crédito de até 20 mil euros com juros de 2,5% e substituição gratuita de máquininhas de pagamento roubadas ou danificadas.
Segundo o Ministério do Interior, cerca de 550 mil pessoas participaram das manifestações de sábado em toda a França, incluindo 110 mil em Paris. A central sindical CGT, por sua vez, estimou a mobilização em 800 mil pessoas. A maior parte dos atos transcorreu de forma pacífica, mas foi marcada por episódios de violência e saques em diversas cidades do país.
Com agências