Macron condena violência e promete diálogo com estudantes, mas não anuncia medidas para conter crise

Sob forte pressão após a mais grave explosão de violência social na França em anos, Emmanuel Macron fez neste domingo (18) um aguardado pronunciamento à nação no qual condenou saques, incêndios e ataques a prédios públicos, prometeu rigor contra os responsáveis e defendeu um retorno à ordem. Embora tenha reconhecido a perda de poder de compra e o mal-estar social, o presidente não anunciou medidas econômicas concretas para responder às reivindicações que levaram centenas de milhares às ruas.

18 out 2026 - 15h42
(atualizado às 15h47)
Resumo
Após protestos em massa marcados por violência e saques na França, o presidente Emmanuel Macron condenou os atos de vandalismo e prometeu restaurar a ordem pública, autorizando prefeituras a restringirem atos de risco. Embora tenha admitido o mal-estar social com o custo de vida e prometido diálogo futuro com estudantes e sindicatos, Macron não anunciou medidas econômicas imediatas para conter a crise, focando seu pronunciamento na repressão e na punição judicial dos responsáveis pelos danos.

A expectativa em torno da fala presidencial era elevada. Desde sábado (17), a França vive as consequências de uma mobilização nacional que reuniu centenas de milhares de pessoas, mas acabou dominada por cenas de violência, saques, confrontos e ataques contra prédios públicos em diversas cidades do país.

Pronunciamento de Emmanuel Macron no Palácio do Eliseu, em Paris, em 18 de outubro de 2026.
Pronunciamento de Emmanuel Macron no Palácio do Eliseu, em Paris, em 18 de outubro de 2026.
Foto: AFP - LUDOVIC MARIN / RFI

Diante do agravamento da crise e da pressão crescente sobre o governo, Macron apareceu em rede nacional buscando separar as reivindicações sociais dos atos de vandalismo que monopolizaram o debate público.

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O presidente atribuiu a violência a "agitadores ligados a pequenos grupos de extrema esquerda" que teriam sido acompanhados por "numerosos criminosos". Segundo ele, os ataques a lojas, prefeituras e edifícios públicos representam uma agressão direta à República.

"Nada justifica isso. Nada explica isso. Nada desculpa isso", afirmou o presidente. "Todos nós sentimos, nesta noite, raiva e vergonha", disse Macron na televisão.

Ao longo do pronunciamento, Macron insistiu diversas vezes na necessidade de "restaurar a ordem pública". Também prestou solidariedade às forças de segurança, aos comerciantes atingidos pelos saques e aos prefeitos de cidades afetadas pelos confrontos. Em referência aos policiais feridos durante a mobilização, declarou que eles "resistiram e fizeram o melhor que puderam" diante de uma situação de violência que classificou como "excepcional".

Prefeituras poderão proibir manifestações

Para comerciantes e empresários que tiveram seus estabelecimentos atingidos, Macron procurou transmitir uma mensagem de apoio. "Não serão deixados sozinhos para enfrentar essas dificuldades", prometeu. A principal medida concreta anunciada pelo presidente diz respeito à segurança. Macron afirmou que os prefeitos e representantes do Estado nos departamentos receberão poderes ampliados para proteger prédios públicos, centros urbanos e estabelecimentos comerciais.

Segundo ele, as autoridades locais poderão adotar "todas as medidas necessárias" para evitar novos episódios de violência. Entre elas está a possibilidade de proibir determinadas manifestações consideradas de risco. 

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Embora tenha prometido futuras reuniões com sindicatos, estudantes, empresários e representantes políticos, a possibilidade de restrições a manifestações foi uma das poucas medidas imediatas e concretas apresentadas no pronunciamento.

O presidente também não fez qualquer menção aos manifestantes gravemente feridos durante os confrontos com as forças de segurança. Ao longo do pronunciamento, Macron não comentou os casos que levaram à abertura de investigações sobre a atuação policial, entre eles o de um adolescente que perdeu a mão após a explosão de uma granada em Saint-Étienne e o de uma jovem que perdeu um olho em Mulhouse.

Presidente admite falhas e cobra punições

Uma das passagens mais significativas da intervenção foi o reconhecimento de que o Estado precisará examinar detalhadamente sua própria atuação. Sem mencionar erros diretamente, Macron afirmou ter pedido ao governo que extraia "todas as lições" dos acontecimentos em matéria de inteligência e prevenção para compreender como a violência alcançou tamanha dimensão em tantas cidades simultaneamente.

Nos últimos dois dias, prefeitos de diferentes regiões questionaram publicamente a atuação das autoridades e afirmaram que os dispositivos de segurança não foram suficientes para conter os ataques. O presidente tentou responder a essas críticas prometendo transparência e investigações rápidas. Ao mesmo tempo, adotou tom de firmeza em relação aos responsáveis pelos distúrbios.

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"Quem destruiu terá de pagar. Quem saqueou terá de ressarcir os prejuízos. Quem tentou derrubar a República terá de responder por seus atos", declarou.

Macron também afirmou esperar uma resposta exemplar do Judiciário e disse que o governo exigirá o máximo rigor na responsabilização criminal dos participantes dos atos violentos.

Diagnóstico amplo sem medidas concretas

Se houve um esforço para compreender as causas do movimento, ele ficou restrito principalmente ao diagnóstico. Macron reconheceu explicitamente que centenas de milhares de franceses foram às ruas para manifestar preocupações legítimas relacionadas ao custo de vida, aos preços dos combustíveis e às dificuldades econômicas enfrentadas por famílias de todo o país.

"Compreendo perfeitamente essa preocupação", afirmou. Segundo o presidente, parte dessas dificuldades decorre das consequências econômicas da guerra no Golfo Pérsico e dos efeitos da crise energética sobre os mercados internacionais. Ele destacou negociações realizadas pelo governo para garantir o abastecimento energético francês e reduzir a pressão sobre os preços.

Mas, apesar da descrição detalhada dos problemas, o pronunciamento não trouxe nenhum anúncio econômico novo. Macron limitou-se a afirmar que "o governo está fazendo todo o possível para enfrentar essa questão essencial do poder de compra" e que continuará trabalhando para produzir resultados.

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A ausência de medidas concretas chamou atenção porque o custo de vida esteve no centro dos protestos que desencadearam a mobilização nacional. Não houve anúncios sobre combustíveis, energia, impostos, salários ou mecanismos extraordinários de apoio às famílias.

Governo ganha tempo, mas não encerra o debate

Ao final de oito minutos de intervenção, Macron procurou apresentar uma estratégia baseada em três pilares: restauração da ordem, abertura ao diálogo e construção coletiva de soluções.

"Sim ao diálogo. Sim a respostas concretas para os problemas imediatos e à preparação das decisões para o futuro. Mas não à violência, seja ela qual for", afirmou.

O pronunciamento, contudo, deixa uma questão central em aberto. Se a violência ocupou o centro das atenções durante o fim de semana, as reivindicações que levaram centenas de milhares de franceses às ruas continuam sem resposta imediata.

Macron reconheceu a gravidade do mal-estar social, descreveu a ansiedade dos jovens, admitiu a preocupação com o custo de vida e prometeu ouvir sindicatos, estudantes, empresários e autoridades locais. Mas, diante da maior mobilização social dos últimos anos, optou por não apresentar medidas econômicas ou sociais concretas.

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A consequência é que o presidente conseguiu ocupar o espaço institucional da crise, mas dificilmente encerrou o debate sobre suas causas. Nos próximos dias, será justamente essa ausência de respostas imediatas que deverá alimentar as críticas da oposição e dos organizadores dos protestos.

Muito além do custo de vida

O movimento nasceu em torno de reivindicações ligadas ao aumento do custo de vida, à perda de poder de compra e ao descontentamento de estudantes e jovens trabalhadores. Ao longo do sábado, no entanto, o debate sobre essas reivindicações foi progressivamente eclipsado pelas cenas de violência.

Segundo as autoridades, cerca de 2 mil pessoas foram detidas em todo o país. Aproximadamente 600 integrantes das forças de segurança ficaram feridos. Centenas de estabelecimentos comerciais foram depredados ou saqueados. A Federação do Comércio e da Distribuição estima que cerca de 1.500 lojas tenham sido atingidas pelos distúrbios. Os prejuízos podem atingir várias centenas de milhões de euros.

Os danos mais simbólicos ocorreram em prédios públicos. Em Limoges, uma prefeitura parcialmente destruída pelo fogo tornou-se uma das imagens mais marcantes da crise. Neste domingo, cerca de 7 mil pessoas participaram de uma concentração organizada na cidade para demonstrar solidariedade ao município e condenar os ataques.

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Em várias localidades, moradores se mobilizaram espontaneamente para limpar ruas cobertas de destroços, vidros quebrados e resíduos deixados após os confrontos.

Com AFP

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