Pelo quinto dia consecutivo, a Albânia viveu intensos confrontos em Tirana, com milhares de pessoas exigindo a renúncia do premiê Edi Rama. O movimento, iniciado por estudantes, ampliou sua pauta contra a crise política e econômica. Pela primeira vez, a polícia usou balas de borracha, além de bombas de gás e jatos d’água contra barricadas e pedras. Os atos já deixaram mais de 140 feridos, incluindo policiais, e resultaram em 167 prisões. Rama prometeu ouvir a juventude, mas vetou atos violentos.
Os confrontos continuaram neste sábado pelo quinto dia consecutivo na capital da Albânia, onde manifestantes mantêm a pressão sobre o governo em uma das maiores ondas de protestos dos últimos anos no país. O movimento, iniciado por estudantes, ampliou sua pauta nos últimos dias e passou a incorporar críticas à condução política do governo de Edi Rama.
Centenas de pessoas, algumas com os rostos cobertos, se reuniram por volta do meio-dia em frente ao Ministério da Educação. Ao longo da tarde, os protestos se espalharam por diferentes pontos da capital.
Logo no início da manifestação, um grupo incendiou uma mala e a lançou para dentro do pátio do ministério. O gesto pretendia simbolizar a recusa dos jovens em abandonar o país em busca de oportunidades no exterior, um tema recorrente no debate público albanês.
À medida que a mobilização avançava, manifestantes passaram a lançar pedras contra as forças de segurança. Também incendiaram contêineres de lixo e os utilizaram para montar barricadas nas ruas, numa tentativa de impedir o avanço da polícia.
Balas de borracha para dispersar a multidão
Pela primeira vez desde o início da atual onda de protestos, a polícia utilizou balas de borracha para dispersar a multidão. Jornalistas da AFP presentes no local registraram o uso desse tipo de munição durante os confrontos.
Segundo uma jovem identificada apenas como Paula, que ajudou a organizar um posto improvisado de primeiros socorros em um escritório de advocacia, três pessoas receberam atendimento por ferimentos na cabeça, em um dos olhos e na perna, aparentemente provocados por balas de borracha.
A legislação albanesa permite o uso desse recurso apenas em situações consideradas extremas durante manifestações públicas. O Ministério da Saúde informou que nove manifestantes e quatro policiais precisaram de atendimento médico ao longo do dia. "Hoje, pela primeira vez desde o início dos protestos, a polícia utilizou balas de borracha. É uma medida extrema, especialmente porque há adolescentes de 16 e 17 anos entre os manifestantes", afirmou à AFP Redi Taku, estudante de educação física.
A direção da polícia confirmou o emprego desse tipo de munição, mas afirmou que seu uso foi limitado."As balas de borracha foram utilizadas de forma restrita", declarou o diretor da polícia, Skender Hita, em entrevista coletiva.
Segundo ele, todos os equipamentos empregados pelas forças de segurança estão autorizados para situações semelhantes e seguem padrões utilizados em países da União Europeia.
De acordo com Hita, 167 pessoas foram presas desde o início dos protestos nesta semana. Além disso, 388 indivíduos passaram a ser investigados ou responder a procedimentos criminais relacionados aos confrontos.
Violência policial
As autoridades também anunciaram que sete policiais foram afastados de suas funções e são alvo de investigações disciplinares por supostamente terem excedido seus poderes durante as operações.
Ao mesmo tempo, a polícia informou que 132 integrantes das forças de segurança ficaram feridos nos cinco dias de confrontos, a maioria deles em Tirana. Como nos dias anteriores, agentes utilizaram canhões de água e gás lacrimogêneo para dispersar temporariamente os manifestantes. Em vários momentos, densas nuvens de fumaça cobriram ruas e avenidas da capital.
Os protestos violentos começaram na terça-feira e reúnem milhares de pessoas que pedem a saída do primeiro-ministro. Entre os participantes, muitos afirmam que o movimento ultrapassou a questão universitária e passou a representar um descontentamento mais amplo com a situação econômica e política do país.
"A juventude despertou, também pelos nossos pais. A indiferença e a arrogância são intoleráveis. Não estamos pedindo privilégios. Estamos defendendo nossos direitos, nosso futuro e um país melhor", afirmou Sinan Billa, estudante de jornalismo.
Direito a protestar
Em meio à escalada da crise, Edi Rama visitou estabelecimentos comerciais danificados durante os protestos e afirmou respeitar as reivindicações dos estudantes. "O direito deles de protestar deve ser protegido e será protegido", declarou.
Segundo o premiê, as demandas apresentadas pelos jovens serão ouvidas pelo governo. "As vozes dos jovens e de todos os cidadãos que participaram das manifestações precisam ser escutadas e serão escutadas", afirmou.
Rama, porém, acrescentou que não permitirá ações que coloquem em risco a estabilidade do país. Na sexta-feira, o líder albanês acusou supostas forças externas de incentivar os protestos. Segundo ele, haveria interesses tentando prejudicar o processo de adesão da Albânia à União Europeia.
Enquanto isso, a tensão também se espalhou para outras regiões do país. Veículos de comunicação albaneses relataram novos protestos na cidade portuária de Durres, onde manifestantes quebraram vidraças de uma agência dos correios e bloquearam ruas com barricadas em chamas.
A escalada desta semana ocorre após meses de manifestações contra o governo. A atual fase de mobilização tem origem em um impasse político mais amplo, alimentado inicialmente pela controvérsia em torno de um projeto turístico associado à família do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Sem sinais de recuo por parte dos organizadores nem do governo, a crise entra em uma nova etapa, aumentando a pressão sobre Edi Rama e ampliando as incertezas sobre a capacidade das autoridades de conter uma mobilização que ganha novos participantes a cada dia.
Com AFP