Protestos contra o aumento do custo de vida mobilizaram a França com forte esquema de segurança e dezenas de detenções. Em Paris e outras cidades, atos não autorizados reuniram estudantes, sindicatos e adeptos dos "coletes amarelos", registrando confrontos, ataques à sede da emissora CNews e bloqueios contidos pela polícia. A mobilização antecede novas greves gerais e reacende a tensão social no país, com autoridades estimando a adesão de quase 200 mil pessoas em todo o território nacional.
Dezenas de pessoas foram detidas na manhã deste sábado (17) em Paris, enquanto a tensão aumentava em várias cidades da França durante as primeiras ações e manifestações do dia nacional de mobilização contra o aumento do custo de vida e em defesa da educação.
No fim da manhã, duas manifestações não autorizadas foram registradas na capital francesa, levando à intervenção das forças de segurança para dispersar os participantes, segundo a Secretaria de Segurança Pública de Paris.
De acordo com informações do órgão, o primeiro grupo, formado por cerca de cem sindicalistas, reuniu-se nas proximidades da estação Gare du Nord, no norte da cidade, antes de seguir pela Rue du Faubourg-Saint-Denis. O segundo, de tamanho semelhante e composto por estudantes do ensino médio, concentrou-se na Rue de Rennes, na região central da capital.
De acordo com a polícia, até as 11h (6h em Brasília), haviam sido realizadas 61 detenções e 589 abordagens preventivas, além da aplicação de quatro multas.
O percurso da manifestação principal em Paris foi alvo de intensas negociações com as autoridades. A Secretaria de Segurança Pública publicou decretos proibindo protestos em diversos pontos estratégicos da cidade, incluindo os arredores do Palácio do Eliseu, da residência oficial do primeiro-ministro em Matignon e da região da Champs-Élysées.
Organizações de estudantes universitários e do ensino médio, que há mais de uma semana pedem uma audiência com o primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, pretendiam levar o ato aos "centros de poder" da capital, mas a solicitação foi rejeitada.
Ao final das negociações, ficou definido que a concentração ocorreria às 14h na Praça da República, de onde o principal cortejo seguiria em direção à Praça de Clichy.
Emissora atacada
Entre as detenções registradas pela manhã, 21 ocorreram após uma ação em frente à sede da emissora de televisão CNews. Segundo o próprio canal, cerca de cem manifestantes encapuzados bloquearam o acesso ao estacionamento do prédio, localizado no oeste de Paris.
Os participantes lançaram objetos contra o edifício e quebraram vidraças. Imagens compartilhadas nas redes sociais também mostram barreiras de segurança derrubadas. A CNews e a rádio Europe 1, que funciona no mesmo edifício, pertencem ao grupo do bilionário conservador Vincent Bolloré.
Em Marselha, Valenciennes e La Rochelle, manifestantes, alguns usando coletes amarelos, deram início a mobilizações cuja dimensão ainda era difícil de medir, mas que estavam sendo acompanhadas de perto por um forte aparato policial.
Incidentes também foram registrados em outras regiões do país. Em Rouen, um prédio da Faculdade de Letras foi atingido por um incêndio nas primeiras horas da manhã. Segundo uma fonte próxima à investigação, há indícios de que o fogo tenha origem criminosa.
Em Marselha, no sul da França, um posto da polícia municipal foi alvo de manifestantes. Já em Lyon, no centro-leste do país, a polícia dispersou com gás lacrimogêneo cerca de 300 pessoas reunidas diante da Universidade Lyon 3 pouco após as 10h, depois que participantes começaram a entoar o slogan em italiano "Siamo tutti antifascisti" ("Somos todos antifascistas").
Em Clermont-Ferrand, centenas de pessoas, muitas delas jovens, marcharam pelas ruas carregando uma faixa vermelha com os dizeres: "Uma única solução: a revolução".
Em Toulouse, as forças de segurança intervieram para impedir o bloqueio de linhas férreas e de uma rotatória.
🔴🇫🇷 ALERTE INFO - Une centaine de casseurs se sont rassemblés devant le siège de CNews et ont brisé des vitres. La BAC et d'autres unités de police sont vite arrivées sur place. Une vingtaine de personnes ont été interpellées. (Europe 1) #17octobre https://t.co/PbjVFbLceY
— Jon De Lorraine (@jon_delorraine) October 17, 2026
Volta dos coletes amarelos
A seis meses da eleição presidencial, o apelo para reavivar o movimento dos "coletes amarelos", que marcou o primeiro mandato de Emmanuel Macron, coincidiu com os protestos promovidos por estudantes do ensino médio e universitários em defesa de melhores condições de estudo.
Nas redes sociais, os organizadores também convocaram moradores de bairros populares, agricultores, trabalhadores e aposentados a ocupar ruas, rotatórias e áreas próximas a postos de gasolina, pedágios e grandes vias de circulação.
Ainda é difícil prever a amplitude da mobilização, que ocorre justamente no início das férias escolares. Além disso, uma coalizão sindical convocou trabalhadores dos setores público e privado para realizar greves e manifestações em 5 de novembro, com pautas relacionadas aos salários e aos serviços públicos.
Na sexta-feira, após uma reunião de líderes da União Europeia em Bruxelas, Emmanuel Macron fez um apelo à calma.
Segundo uma fonte policial, são esperados cerca de 150 mil manifestantes fora da região parisiense e aproximadamente 40 mil na capital francesa.
Com AFP