Inspirados pela França, estudantes e professores protestaram em Roma e Turim contra o governo de Giorgia Meloni, o aumento dos gastos com Defesa e a precarização do ensino, registrando confrontos com a polícia e ocupações de escolas. O descontentamento cresce com a inflação e a alta dos combustíveis, que motivaram bloqueios rodoviários e greves no transporte. A crise levou centrais sindicais a convocarem uma manifestação nacional neste sábado e uma greve geral para o fim de outubro.
Os estudantes atenderam às convocações de diferentes coletivos pela paz e contra o governo de Giorgia Meloni, que pretende aumentar o orçamento da Defesa e limitou o número de alunos estrangeiros por sala de aula. Em Roma, alguns confrontos ocorreram durante a manifestação que reuniu "vários milhares de estudantes" entre o Coliseu e o Ministério da Educação, informou a prefeitura da capital italiana.
Milhares de jovens também protestaram em Turim, no norte do país, acompanhados por professores que reivindicam, entre outras medidas, aumentos salariais e novas contratações. Parte deles se colocou entre os jovens e a polícia, que respondeu ao lançamento de pedras com jatos d'água e gás lacrimogêneo.
Cerca de dez escolas de ensino médio já estão ocupadas em Turim, que incitam os manifestantes a fazer "como na França", segundo a imprensa local. "O mundo é nosso", dizia, em francês, um cartaz exibido na cidade. "A Itália vive uma crise econômica e social dramática", afirmou Christian Ferrari, secretário-geral da central sindical CGIL. "O custo de vida é insustentável, nosso sistema produtivo perde força a cada dia e há uma emergência climática."
"Nosso objetivo é colocar as condições concretas de vida e trabalho dos italianos no centro da campanha eleitoral", acrescentou o sindicalista. Uma nova manifestação nacional contra o "custo de vida insustentável" está marcada para sábado, 17 de outubro, em Roma.
Já o sindicato USB convocou uma greve geral para 30 de outubro. As ondas de inflação causadas pela pandemia de Covid-19 e, posteriormente, pelas tensões geopolíticas tiveram impacto particularmente forte na Itália, onde salários e produtividade estão estagnados há várias décadas.
Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas (Istat), a inflação acelerou em setembro, atingindo 4,2% na comparação anual, principalmente devido ao aumento dos combustíveis.
República de 'clãs'
Desde março, após o início da guerra no Irã conduzida pelos Estados Unidos e por Israel, a primeira-ministra Giorgia Meloni tem procurado conter a alta dos combustíveis, inicialmente por meio da suspensão temporária de impostos e, depois, por meio de um acordo com distribuidoras de petróleo, que mantêm o preço da gasolina abaixo de dois euros por litro.
A poucos meses das eleições legislativas previstas para a primavera de 2027, a questão do poder aquisitivo se torna cada vez mais sensível. A premiê de extrema direita destaca a longevidade de seu governo e a melhora das contas públicas, mas sem aceleração do crescimento econômico ou aumento significativo dos salários.
Para a economista Veronica De Romanis, professora da Universidade Luiss, em Roma, "um conjunto de fatores ligados ao medo do futuro, alimentado pela situação geopolítica e por fatores econômicos", leva parte dos italianos às ruas.
Segundo ela, "ainda não vemos na Itália o que acontece na França, porque o país é uma 'República de clãs', com proteções muito mais fortes ligadas à família", especialmente por meio das heranças, que continuam funcionando como "amortecedores sociais", embora estejam se tornando menos resistentes.
Estudantes montam acampamento
Em Roma, Milão e Bolonha, estudantes também montaram barracas nos centros das cidades para fazer suas reivindicações. Após meses de forte mobilização pró-palestina, "falta na Itália um grande movimento de outono (europeu) contra o alto custo de vida, pelo direito à moradia, pelo direito aos estudos, contra a precarização do trabalho e o aumento do custo de vida", afirmou Riccardo, de 22 anos, integrante do sindicato estudantil UDU, diante de sua barraca em Milão.
"Na prática, mesmo que não consigamos provocar transtornos no país como na França ou bloquear todas as estradas como na Espanha, o objetivo é que, com tudo isso, ao menos durante a discussão do último Orçamento deste governo, esses temas voltem ao centro do debate", concluiu o estudante.
Agricultores e transportadores também bloquearam diversas rodovias nesta semana na Puglia, na Calábria e na Sicília, no sul do país, para protestar contra a alta dos preços dos combustíveis. A medida desacelerou ou impediu o transporte de mercadorias e ameaça comprometer a produção de massas devido à falta de entregas de trigo. O sindicato dos transportadores Conftrasporto ameaça agora promover um "bloqueio nacional", denunciando o "clima de tensão criado pela situação insustentável provocada pela disparada dos preços da energia".
Com agências