Brasileiro Souza Dantas ajudou a fundar Casa da América Latina de Paris, hoje ameaçada

A Maison de l'Amérique latine de Paris (MAL) está comemorando 80 anos. A instituição foi criada em outubro de 1946 pelo general De Gaulle, com a participação determinante do embaixador brasileiro Luiz Martins de Souza Dantas. Mas, após oito décadas promovendo o diálogo entre a França e os países latino-americanos, a casa corre o risco de desaparecer.

16 out 2026 - 12h17
Resumo
Criada no pós-guerra por iniciativa de Charles de Gaulle e com papel decisivo do diplomata brasileiro Souza Dantas, a Casa da América Latina em Paris corre risco de fechar. Fundada para estreitar laços culturais e acolher latino-americanos, a tradicional instituição no Boulevard Saint-Germain pode ser despejada após o Banco da França decidir vender o imóvel histórico por 100 milhões de euros, mobilizando um abaixo-assinado que já reúne milhares de assinaturas contra o encerramento das atividades.

A Casa da América Latina de Paris foi fundada logo depois da Segunda Guerra Mundial pelo general Charles de Gaulle, em reconhecimento ao apoio dado pela América Latina e pelo Caribe à França Livre e à Resistência durante a ocupação nazista. O objetivo da nova instituição era promover a aproximação entre a França e as repúblicas latino-americanas e contrabalançar a influência dos Estados Unidos. Mas a história da casa é, antes de tudo, franco-brasileira.

François Vitrani, diretor-geral da MAL desde 1984, lembra que "a ideia inicial era criar um local de acolhimento para os militares brasileiros da FEB que haviam combatido ao lado das forças aliadas" na Europa.

Vitrani destaca o papel decisivo na criação da Casa do "célebre embaixador Souza Dantas, que representou o Brasil por muitos anos na França".

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Durante a Segunda Guerra Mundial, Luiz Martins de Souza Dantas era o decano do corpo diplomático em Paris. Ele foi nomeado para o posto em 1922 e nunca abandonou o cargo durante a ocupação nazista, quando concedeu dezenas de vistos e salvou pessoas perseguidas pelo nazismo, principalmente judeus, contrariando inclusive as normas do governo brasileiro da época.

Retrato de Luiiz Martins de Souza Dantas, pintado poor Jean-Dominique Caulart e exposto na Casa da América Latina de Paris.
Retrato de Luiiz Martins de Souza Dantas, pintado poor Jean-Dominique Caulart e exposto na Casa da América Latina de Paris.
Foto: RFI

Diplomacia cultural

Souza Dantas foi preso pelos alemães em 1942 e, quando foi libertado em 1944, era uma das pessoas de maior prestígio em Paris. Ao longo de sua carreira, sempre buscou promover a cultura brasileira na França, ressalta o historiador Fabio Koifman, biógrafo do embaixador e autor do livro "O Quixote nas Trevas".

"Desde que chegou a Paris, no final de 1922, ele esteve muito empenhado em fazer a diplomacia cultural do Brasil na França, por meio da promoção de eventos culturais, da recepção de intelectuais e artistas brasileiros. Ele já vinha, ao longo dos anos, bolando alguma coisa (...). Em 1946, ele tinha muito bons contatos no governo francês e conseguiu, com um grupo, abrir a Maison de l'Amérique Latine", relembra o historiador.

O embaixador brasileiro foi presidente de honra da Casa da América Latina até pouco antes de sua morte, em 1954. O prestígio de Souza Dantas foi confirmado na badalada festa de seu jubileu diplomático, em 1951, na Casa da América Latina.

Segundo Fabio Koifman, foi "uma homenagem muito bonita. A participação dele em relação aos refugiados perseguidos pelo nazismo foi a parte final da carreira, mas antes ele já era uma pessoa muito prestigiada, não só formalmente, em razão da capacidade de agregar pessoas, estabelecer contatos e representar o Brasil, mas também na vida social. Ele usava esse contato, essa abertura, para desenvolver o que entendia como diplomacia, especialmente a diplomacia cultural".

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O historiador brasileiro Fabio Koifman (o primeiro à direita) participou das comemorações do aniversário de 60 anos da Casa da América Latina de Paris.
Foto: RFI

Uma história, dois momentos

A casa funcionou inicialmente como um clube privado fechado, financiado principalmente pelas contribuições de seus membros e por uma modesta subvenção do Ministério das Relações Exteriores francês. Era um local de encontro para diplomatas credenciados em Paris e de acolhimento para personalidades latino-americanas de passagem pela França.

Foi somente após sua quase falência, na virada para os anos 1980, que a instituição se abriu ao grande público. A MAL foi salva graças à intervenção do presidente François Mitterrand. Depois de superada a crise, o governo socialista exigiu que a Casa, administrada por uma associação sem fins lucrativos, fosse autossuficiente financeiramente e se tornasse a "vitrine da cultura e da criatividade latino-americanas na França".

Nessa segunda etapa, "a Casa da América Latina deixou de ser um clube para se tornar uma instituição aberta a todos os latino-americanos", conta François Vitrani. Para atingir esse objetivo, "a instituição contou com a ajuda de um jovem assessor de Mitterrand, François Hollande, que anos mais tarde se tornaria presidente da República e, por sua vez, ajudaria a Casa a dar continuidade às suas atividades", indica o diretor-geral.

François Vitrani, diretor-geral da Casa da América Latina de Paris desde 1984.
Foto: RFI

A fórmula deu certo. A instituição recebe uma subvenção anual de € 25 mil (R$ 150 mil) do Ministério das Relações Exteriores da França e aluga os salões e jardins de sua histórica sede no Boulevard Saint-Germain, no coração de Paris, para financiar sua ação cultural e diplomática.

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Futuro ameaçado

Mas o Banco da França, proprietário do imóvel, resolveu vender seu patrimônio por € 100 milhões (R$ 600 milhões). O edital de venda não obriga os potenciais compradores a manter o funcionamento da instituição no local. A Casa da América Latina, que tem em seus salões um importante acervo de obras, entre elas um quadro com o retrato do embaixador brasileiro Souza Dantas, pintado por Jean-Dominique Van Caulaert, pode ser despejada e corre o risco de fechar.

O local também é um lugar de memória da relação franco-latino-americana dos últimos 80 anos. Por exemplo, a festa que comemorou o fim da ditadura brasileira, em 1985, aconteceu nos salões da sede do Boulevard Saint-Germain. Um abaixo-assinado pedindo a intervenção do presidente francês, Emmanuel Macron, para preservar a Casa da América Latina em sua sede histórica já recolheu mais de 26 mil assinaturas.

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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