O primeiro-ministro francês denunciou que os protestos estudantis no país se transformaram em violência urbana após a infiltração de grupos radicais, gerando depredações em escolas e quase 900 policiais feridos. Apesar das negociações do Ministério da Educação sobre infraestrutura e vagas, bloqueios continuam em várias cidades. A tensão se agrava com a adesão do movimento dos "coletes amarelos", que convocou atos nacionais contra a crise e o custo de vida, temendo-se uma escalada social.
Após várias semanas de mobilização e bloqueios nos estabelecimentos de ensino, a violência se intensificou nos últimos dias, na opinião do premiê. "Tememos violência? Sim. Está claro que não conseguimos ter uma manifestação neste país" sem que "movimentos violentos da ultraesquerda, principalmente, e às vezes da ultradireita se infiltrem nos atos", afirmou.
O premiê denunciou o que considerou uma "incitação à violência absolutamente estarrecedora" em alguns locais. Sébastien Lecornu mencionou, entre outros episódios, "disparos de morteiros dentro de escolas" e "invasões". Segundo ele, esses atos são um "insulto aos estudantes" que buscam expressar sua "angústia" e "insatisfação" ou "fazer reivindicações".
"Há um cansaço que paira sobre o país", disse o premiê, acrescentando que a França "vive uma espécie de crise permanente, com guerras, incertezas sobre o poder de compra e inflação". Na opinião de Sébastien Lecornu, "alguns movimentos políticos querem se apropriar desse cansaço para obter dividendos eleitorais", em uma alusão ao partido de esquerda radical França Insubmissa. O governo acusa a legenda de "instrumentalizar" o movimento dos estudantes do ensino médio.
Algumas escolas francesas continuavam de portas fechadas nesta quinta. Segundo a Secretaria de Segurança Pública, "cerca de 20 estudantes" da Faculdade de Administração HEC (École des Hautes Études Commerciales), conhecida pelo seu elitismo, também manifestaram apoio aos estudantes do ensino médio, em uma adesão considerada inédita.
Na manhã desta quinta, o ministro da Educação, Édouard Geffray, visitou o colégio Les Iris, em Lormont, perto de Bordeaux, no sudoeste do país, depredado na quinta-feira passada. A visita foi marcada por um forte dispositivo de segurança.
Os prejuízos foram estimados pela região em pelo menos € 250 mil (cerca de R$ 1,4 milhão). "O diálogo existe e já produziu resultados, mas as pessoas que fazem isso não passam de criminosos. Mantenham-se firmes!", declarou o ministro, antes de agradecer aos funcionários que "salvaram jovens", mas "também adultos".
Nesta quinta, ele volta a discutir com os representantes das organizações de estudantes do ensino médio problemas que envolvem a infraestrutura escolar, a plataforma Parcoursup de acesso ao ensino superior e a carga horária. O encontro é realizado por videoconferência.
"Esperamos medidas concretas", lembrou Pierre Sourzat, representante da Les Lycéens!, lamentando ter recebido apenas "migalhas" até agora. Já o representante da Renouveau lycéen, Nathanaël Combary (também filiado ao partido Renaissance, do presidente francês Emmanuel Macron), havia comemorado "alguns avanços" após o último encontro no ministério.
Pouco depois da reunião anterior, na quinta-feira, 8 de outubro, foi anunciado o remanejamento de 3.000 professores efetivos substitutos, além da contratação de temporários. "Dessas 3.000 pessoas, quase dois terços já foram designados", afirmou o ministro nesta quinta.
"Estamos nos organizando para resolver a imensa maioria dos casos, especialmente nos estabelecimentos com dificuldades específicas. Eram 114 na quinta-feira passada, 47 nesta manhã e, normalmente, não haverá mais nenhum quando as aulas forem retomadas depois das férias" [entre 17 de outubro e 2 de novembro], afirmou.
O governo disse estar disposto a trabalhar no acompanhamento dos estudantes durante o processo de orientação no ensino médio e em mudanças na plataforma Parcoursup, mas se recusa a acabar com o sistema atual. Medidas concretas "serão anunciadas até o fim de outubro", reiterou Édouard Geffray.
Protestos em várias cidades
Várias cidades francesas continuam registrando protestos nesta quinta. Em Lyon e sua região metropolitana, 13 escolas e três universidades estavam bloqueadas. Em Toulouse, no sudoeste, as manifestações também continuaram no colégio Berthelot.
Em Rennes, no norte do país, os bloqueios continuavam no colégio Zola, onde um incêndio em uma lixeira foi apagado no início da manhã na avenida Jean Janvier, em frente ao estabelecimento, próximo ao centro da cidade.
Em Tours, no centro-oeste, onde um estudante perdeu a visão de um olho no fim de setembro durante as manifestações, as escolas de ensino médio permanecerão fechadas até o recesso escolar, que começa no sábado.
Em Nancy, no nordeste, uma escola de ensino médio foi fechada e seu diretor foi colocado sob proteção depois que foram recebidas "ameaças de violência feitas por escrito", segundo a reitoria.
Os diretores das escolas francesas também foram convocados por seu principal sindicato a realizar nesta quinta uma "operação portas fechadas", que consiste em atender apenas situações urgentes para demonstrar que estão "cansados".
Iniciado em uma escola dos arredores de Paris em 17 de setembro, o movimento dos estudantes do ensino médio se espalhou pela França, com o apoio de organizações estudantis e sindicais. Desde o início do movimento, um terço das 3.700 escolas de ensino médio francesas "nunca foi afetado" pelas mobilizações, segundo Édouard Geffray nesta quarta-feira.
"Ordens contraditórias", criticam policiais
O sindicato policial Alliance anunciou na noite de quarta-feira que apresentará "uma queixa contra o Estado por colocar em risco a vida de terceiros". A entidade denuncia "ordens contraditórias" dadas aos policiais, que estariam "expostos à violência e entregues à condenação pública" no contexto do movimento estudantil.
Desde o início dos protestos, "quase 900" policiais ficaram feridos, segundo o Ministério do Interior, assim como mais de 200 estudantes do ensino médio e quase 150 funcionários da Educação. A corregedoria da polícia abriu 36 investigações, quatro delas relacionadas a "ferimentos mutilantes" e seis a "ferimentos significativos".
Retorno dos coletes amarelos
O governo aposta nas férias escolares para provocar a perda de força do movimento, mas organizações de jovens convocaram seus integrantes a participar, no sábado (13), da mobilização, que também terá a participação dos coletes amarelos.
O movimento social que tomou conta da França em 2018 e 2019 anunciou cerca de mil ações para sábado contra o alto custo de vida, com o objetivo de "retomar as ruas". Há semanas circulavam nas redes sociais convocações para que os coletes amarelos, vestimenta que se tornou símbolo do movimento surgido após a chegada do presidente Emmanuel Macron ao poder, voltassem às ruas em 17 de outubro.
Essa possível "convergência das lutas", temida pelas autoridades, ocorre em meio a fortes tensões sociais no país, com a inflação em 3,1% nos 12 meses encerrados em setembro, o maior nível desde janeiro de 2024, e com a queda do poder aquisitivo.
Um grupo na internet intitulado "amarelos e jovens" convoca "coletes amarelos, geração Z, indignados, agricultores, bombeiros, operários, professores, profissionais da saúde, defensores do clima, moradores de bairros populares e aposentados" a unir suas reivindicações.
"Não houve uma articulação prévia com as outras lideranças para convocar a manifestação, mas todos tivemos a mesma reação ao ver a violência policial contra estudantes do ensino médio", afirmou François Boulo, um dos representantes dos coletes amarelos que convidam a população a protestar no sábado, assim como outros nomes conhecidos do movimento, entre eles Jérôme Rodrigues, Priscillia Ludosky e Maxime Nicolle.
No sábado, estão previstas manifestações e bloqueios em cidades, barreiras que permitem apenas a passagem parcial de veículos e concentrações em rotatórias, pontes, postos de combustível, pedágios, estações ferroviárias, refinarias e depósitos de petróleo. Um mapa registrava, na manhã desta quinta-feira, mais de 1.000 ações em toda a França.
As autoridades, que esperam movimentos sociais até a eleição presidencial, destacam o caráter bastante heterogêneo da mobilização, mas contam com uma participação menor dos jovens devido ao início das férias escolares.
Com agências