A Promotoria Antiterrorista da França investiga o ataque a tiros em uma escola de Aubagne, cometido por um estudante influenciado pela True Crime Community (TCC). Essa rede digital, surgida após o massacre de Columbine e expandida na pandemia, glorifica assassinos e incentiva a violência extrema entre jovens. O adolescente, que alegou sofrer bullying e planejava a vingança há meses, feriu duas pessoas, marcando um dos primeiros casos franceses com ligação direta a esse tipo de radicalização virtual.
As revelações sobre o perfil do estudante dominam a imprensa francesa nesta quarta-feira (14), dois dias após o ataque ocorrido no colégio Joseph-Lakanal, em Aubagne. Segundo a Promotoria Nacional Antiterrorista (PNAT), o jovem reconheceu ter efetuado os disparos que atingiram o diretor da escola e uma professora, mas nega ter pretendido matar as vítimas. Durante os interrogatórios, afirmou ter sido influenciado pela True Crime Community (TCC), embora rejeite a ideia de que tenha agido em nome do movimento.
De acordo com o Le Figaro, as primeiras investigações indicam que o estudante vinha planejando a ação havia meses. O jornal relata, citando fontes próximas ao caso, que o adolescente dizia sofrer bullying na escola e manifestava desejo de se vingar de professores. A publicação também informa que seu pai é ex-militar e que sua mãe é muçulmana, sem que tenham sido identificados indícios de radicalização religiosa. Essas informações reforçam a hipótese de que a investigação esteja concentrada sobretudo na influência exercida por comunidades digitais ligadas à glorificação de massacres.
O caso representa uma das primeiras vezes em que a Justiça francesa estabelece uma ligação direta entre um ataque em ambiente escolar e a chamada True Crime Community. Segundo a PNAT, trata-se de "um ecossistema de comunidades digitais que glorifica autores de massacres e incentiva, sob determinadas formas, o recurso à violência extrema". A promotoria afirma que a análise preliminar dos dispositivos eletrônicos do adolescente revelou uma "provável adesão" à comunidade.
Comunidade surgiu após Columbine
O Le Parisien descreve a TCC como uma rede informal de fóruns, grupos privados, conteúdos audiovisuais e perfis em redes sociais dedicados a crimes violentos, especialmente ataques planejados em escolas. Segundo o jornal, o fenômeno começou a ganhar dimensão após o massacre de Columbine, nos Estados Unidos, em 1999, episódio que se tornou uma referência recorrente dentro desses círculos virtuais.
A partir dos anos 2000, essa cultura digital se espalhou por diferentes países europeus, impulsionada por plataformas online que facilitaram a circulação de conteúdos produzidos por admiradores de autores de massacres. Em alguns ambientes, os responsáveis por ataques são transformados em figuras de culto, com biografias, imagens e registros compartilhados entre usuários.
Em declarações ao Libération, o pesquisador francês Alexandre Rodde, especialista em terrorismo, afirma que a crescente atração de adolescentes por esse universo preocupa especialistas em radicalização. Segundo ele, a TCC recruta principalmente jovens entre 13 e 18 anos, em sua maioria meninos, embora ataques recentes cometidos por adolescentes na Turquia e na Polônia tenham ampliado a visibilidade de figuras femininas dentro dessas comunidades.
Fenômeno cresceu durante pandemia
Rodde atribui parte da expansão recente do fenômeno ao período da pandemia de Covid-19. Segundo o pesquisador, o isolamento social favoreceu uma explosão de servidores privados em plataformas como o Discord, ampliando a circulação de conteúdos e a formação de grupos fechados voltados à exaltação da violência. "Como todos estavam confinados em casa, o fenômeno se desenvolveu muito rapidamente", afirmou ao Libération.
A preocupação das autoridades francesas decorre justamente da combinação entre isolamento, vulnerabilidade psicológica e acesso a redes que transformam massacres em objeto de admiração. Para os investigadores, ainda é cedo para determinar até que ponto a ideologia associada à True Crime Community influenciou diretamente o ataque de Aubagne. A hipótese, porém, ganhou peso suficiente para levar a Promotoria Nacional Antiterrorista a enquadrar o caso como investigação relacionada ao terrorismo.