Estudantes franceses foram às ruas no quinto ato nacional contra a precariedade das escolas, a falta de professores e os cortes no orçamento, em meio aos debates sobre o ajuste fiscal do governo. O protesto em Paris reuniu dezenas de milhares de jovens e contou com o apoio de sindicatos e de Greta Thunberg. O movimento também denuncia a violenta repressão policial nos atos, que já deixou manifestantes gravemente feridos, enquanto o governo rejeita as críticas e oferece medidas insuficientes.
Daniella Franco, da RFI em Paris
A capital francesa acolheu duas passeatas nesta terça-feira; a maior delas saiu de Place d'Italie, no sul, em direção à Esplanada dos Inválidos, no centro, perto do escritório do primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, e do Ministério da Educação. O ato reuniu cerca de 100 mil participantes em Paris, segundo os organizadores; 41.500, de acordo com as estatísticas do governo.
No cortejo parisiense, milhares de jovens exibiram cartazes em prol da melhoria das escolas e contra a falta de reação do governo à mobilização. Muitos entoaram as famosas frases "Macron demissão", "somos todos antifascistas" e "todo mundo odeia a polícia", diante da forte revolta dos estudantes com a repressão policial nos atos.
Em entrevista à RFI, participantes da principal marcha de Paris relataram a insalubridade de muitas escolas do ensino médio. "Conheço estudantes que viram o teto desabar sobre suas cabeças e isso é inadmissível", diz Mahia, de 17 anos.
Entre as principais reclamações do movimento está a precariedade das salas de aula, além da escassez de professores e das falhas no processo de seleção para o ensino superior. A União Sindical das Escolas do Ensino Médio exige o fim deste sistema e também um plano de € 10 bilhões para os estabelecimentos de ensino.
"Faz anos que o governo corta o orçamento das escolas. Muitos alunos estão estudando em condições deploráveis. Estamos fartos e queremos mudanças", diz Eva, de 18 anos, que relata que sua classe passou seis meses sem professor de francês.
O quinto dia de mobilização nacional foi realizado enquanto o Parlamento dá início a um debate decisivo sobre o projeto de orçamento do governo para 2027. A proposta prevê € 43 bilhões em medidas de ajuste fiscal para tentar reduzir a dívida pública, que atualmente equivale a 112% do PIB.
A manifestação desta terça-feira ganhou a presença da ativista ambiental sueca Greta Thunberg, que participou de um bloqueio em uma escola em Saint-Denis, na periferia de Paris. "Estão roubando o nosso futuro" e "as escolas não recebem os investimentos de que precisam", declarou a militante de 23 anos. "Mas não vamos desistir", continuou ela, afirmando estar "orgulhosa dos estudantes franceses".
Quarta semana de protestos
A mobilização dos alunos do ensino médio da França começou em meados de setembro, com o bloqueio de uma escola na periferia de Paris, e se espalhou por todo o país. As manifestações ganharam o apoio de centrais sindicais, professores, universitários, políticos da esquerda, e outros setores da sociedade.
Parte do apoio recebido se deve à comoção com as violências policiais empregadas durante os atos. A Inspeção-Geral da Polícia Nacional (IGPN), anunciou nesta terça-feira que realiza 36 investigações internas sobre supostas agressões cometidas por agentes das forças de segurança contra manifestantes, entre elas a de um adolescente de 15 anos que teve a mão arrancada por uma granada de efeito moral, e outro de 16 anos que perdeu a visão em um dos olhos após ser atingido por uma bala de borracha.
"Vemos que alunos, universitários e trabalhadores de muitos setores participam cada vez mais da mobilização e não se deixam abater pelas diferentes técnicas do governo e pela enorme repressão policial adotada. Hoje temos adolescentes de 14 anos, de 15 anos, que perderam os dentes, a mão, o olho, isso é extremamente grave", aponta Elie, secretário-geral da Federação Sindical Estudante (FSE) da grande região parisiense.
Novas cenas de violência policial
No final do cortejo na capital francesa nesta terça-feira, cenas de violências voltaram a ser registradas, quando a polícia tentou esvaziar a Esplanada dos Inválidos. Segundo a secretaria de Segurança Pública de Paris, indivíduos mascarados entraram em confronto com os policiais, que usaram canhões de água para mantê-los "à distância" e bombas de gás lacrimogêneo.
A maioria dos manifestantes deixou o protesto "de forma pacífica", mas "alguns indivíduos hostis permaneceram no local e passaram a arrancar paralelepípedos" para arremessá-los contra as forças de segurança, diz o comunicado emitido pelo órgão.
O governo francês rejeita as críticas sobre a violência policial nos protestos, classificando-as de "proporcionais", e aposta no enfraquecimento da mobilização, com a aproximação das férias escolares, de 17 de outubro a 2 de novembro. Por enquanto, a única medida concreta anunciada pelo ministro da Educação, Edouard Geffray, é a convocação de três mil professores substitutos, uma solução considerada insuficiente pelos estudantes.
"Atualmente como resposta do governo não temos grande coisa além da repressão, o que é triste porque não somos malvados, reivindicamos uma ideia e gostaríamos de ser ouvidos", diz a estudante Clara, de 17 anos. "Penso que o diálogo é possível, porque somos jovens e não idiotas. Estamos aqui e afirmamos coisas que são verdades, ou ao menos que são a nossa realidade", reitera.
Os alunos do ensino médio prometem continuar nas ruas enquanto suas reivindicações não forem ouvidas. No próximo sábado (17) eles se juntarão à manifestação nacional contra o alto custo de vida, convocada pelas maiores centrais sindicais da França e com participação confirmada do movimento dos coletes amarelos.