Visita real a Ceuta coloca migração e disputa territorial com Marrocos no centro da campanha espanhola

O rei Felipe VI desembarcou nesta terça-feira (13) em Ceuta, território espanhol no norte da África reivindicado pelo Marrocos, em uma visita carregada de simbolismo político. A viagem ocorre dois meses e meio após a chegada de mais de 70 mil migrantes vindos do território marroquino e às vésperas das eleições antecipadas de 29 de novembro na Espanha. Além de reacender uma questão diplomática histórica entre Madri e Rabat, a visita coloca a imigração no centro do debate eleitoral espanhol.

13 out 2026 - 10h27
Resumo
A visita inédita do rei Felipe VI e da rainha Letizia aos enclaves de Ceuta e Melilla reforça a soberania espanhola frente às reivindicações do Marrocos, meses após uma severa crise com a entrada de mais de 70 mil migrantes. Cercada por sensibilidade diplomática e divergências populares, a viagem recoloca a imigração e as disputas territoriais no centro da campanha eleitoral na Espanha.

Matthias Raynal, enviado especial da RFI a Ceuta, e AFP

O rei Felipe VI cumprimenta moradores na sua chegada a Ceuta, em 13 de outubro de 2026.
O rei Felipe VI cumprimenta moradores na sua chegada a Ceuta, em 13 de outubro de 2026.
Foto: © REUTERS - Pedro Nunes / RFI

Dois meses e meio após a maior crise migratória de sua história recente, Ceuta recebe nesta terça-feira (13) a visita do rei Felipe VI e da rainha Letizia. A viagem, a primeira de um soberano espanhol ao território desde 2007, é cercada por forte simbolismo político e sensibilidade diplomática. Em uma cidade ainda marcada pela chegada de mais de 70 mil migrantes vindos do Marrocos no fim de julho, a presença da família real busca reafirmar a soberania espanhola sobre uma área reivindicada por Rabat e recoloca a imigração no centro da campanha para as eleições antecipadas de 29 de novembro. Na quarta-feira (14), o rei e a rainha Letizia seguirão para Melilla, o outro território espanhol localizado no norte da África.

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Localizada na costa norte da África e separada da Espanha continental pelo estreito de Gibraltar, Ceuta possui cerca de 80 mil habitantes e ocupa aproximadamente 20 km² de território. Junto com Melilla, outra cidade espanhola em solo africano, constitui um dos pontos mais sensíveis da relação entre a Espanha e o Marrocos.

O clima de expectativa é visível pelas ruas de Ceuta, onde fachadas, sacadas e prédios estão cobertos por bandeiras da Espanha. Em vários pontos aparece também o slogan "Ceuta no se vende" ("Ceuta não está à venda"), que se tornou um dos símbolos das manifestações contrárias à imigração realizadas quase diariamente desde a crise migratória de julho. Nesse contexto, a chegada de Felipe VI e da rainha Letizia é aguardada por muitos moradores como uma demonstração explícita do compromisso de Madri com o território.

A viagem ocorre em um momento particularmente sensível para o governo espanhol. A menos de sete semanas das eleições, a gestão dos fluxos migratórios voltou ao centro da disputa política. A cidade ainda tenta se recuperar do impacto causado pela chegada de dezenas de milhares de pessoas em poucos dias.

Embora a maioria dos migrantes tenha deixado o território logo após a travessia, milhares permaneceram na cidade, pressionando os serviços públicos e alimentando críticas de parte da população à resposta do Estado espanhol.

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"O rei deveria ter vindo já no primeiro ou no segundo dia. E deveria ter vindo usando o uniforme de comandante-em-chefe das Forças Armadas. Para os moradores de Ceuta, isso teria sido um sinal inequívoco de que o Estado estava presente", afirmou à AFP Susana Román, jurista de 57 anos e uma das responsáveis pela plataforma Salvemos Ceuta.

Apesar das críticas, muitos moradores reconhecem as limitações diplomáticas envolvidas em uma visita desse tipo. Como chefe de Estado, Felipe VI precisa coordenar seus deslocamentos com o governo espanhol, sobretudo quando se trata de territórios cuja soberania é contestada por outro país.

Román destacou, contudo, um gesto considerado significativo pelos habitantes locais: o fato de os reis passarem a noite em Ceuta. Segundo ela, nenhum soberano espanhol havia dormido oficialmente na cidade desde a redemocratização do país, após a morte do ditador Francisco Franco, em 1975.

Acampamentos desmontados

Nos últimos meses, as autoridades espanholas organizaram centros de acolhimento para mais de 7 mil pessoas e cerca de 2.800 menores desacompanhados. A medida permitiu o fechamento dos grandes acampamentos improvisados que haviam sido montados em praias e áreas abertas da cidade.

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Para alguns moradores, porém, o problema apenas mudou de lugar. "Se o rei tivesse vindo no segundo dia da invasão, teria visto a situação que enfrentamos aqui. Agora verá tudo limpo, porque as pessoas foram instaladas em tendas. Simplesmente foram transferidas de um lugar para outro", disse Ana Muñoz, funcionária pública de 33 anos, que afirma ter perdido parte da confiança na monarquia.

No domingo, as autoridades desmontaram o último acampamento ainda existente nas praias de Ceuta. Pouco depois, tratores demoliram os abrigos improvisados onde viviam cerca de 400 migrantes.

A agenda oficial prevê uma reunião com autoridades locais na prefeitura, seguida de uma visita a uma escola da cidade. Historicamente, Ceuta abriga comunidades católica, muçulmana, judaica e hindu, refletindo sua posição estratégica entre a Europa e a África.

Homenagem às vítimas e mensagem política

Os reis também visitarão o cemitério de Sidi Embarek, onde prestarão homenagem a mais de cem pessoas que morreram durante a chegada em massa de migrantes, segundo dados apresentados pelos governos da Espanha e do Marrocos.

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Mais tarde, Felipe VI participará de um encontro com representantes da sociedade civil local. O monarca já havia classificado os acontecimentos de julho como "inaceitáveis".

A visita deverá ser acompanhada de perto em Rabat. Na última sexta-feira, o rei Mohammed VI reafirmou a importância da parceria com a Espanha, especialmente na cooperação contra a imigração irregular, mas advertiu contra qualquer tentativa de "pressão" ou "chantagem" nas relações bilaterais.

As declarações refletem a delicada relação entre os dois países em torno de Ceuta e Melilla. Embora administradas pela Espanha há séculos, as duas cidades são reivindicadas pelo Marrocos, que considera sua presença uma herança do período colonial.

Entre muitos moradores, porém, a questão permanece encerrada. "O rei do Marrocos não tem nada a ver com isso. A opinião dele importa pouco, porque Ceuta sempre foi espanhola", afirmou Mohamed Hamadi, de 41 anos, que pretendia acompanhar a visita carregando a bandeira da cidade.

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Ao escolher visitar Ceuta e Melilla em um dos momentos mais tensos dos últimos anos, Felipe VI procura reafirmar a presença do Estado espanhol em territórios historicamente sensíveis. Mas a viagem também evidencia como migração, identidade nacional e disputas de soberania voltaram a ocupar lugar central na campanha eleitoral que definirá os rumos da Espanha nas próximas semanas.

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