Ao completar 80 anos, a tradicional Casa da América Latina em Paris corre risco de fechar após o Banco da França pôr à venda seus dois palacetes históricos por € 100 milhões, sem garantir a permanência da instituição. Considerada polo vital da diplomacia e cultura regional, a entidade, autossuficiente e alvo recente de disputas políticas, busca apoio do presidente Emmanuel Macron para seguir no local e evitar o que diplomatas apontam como um grave abalo nas relações entre a França e a região.
A vitrine da diplomacia e da cultura latino-americanas na França foi criada logo depois da Segunda Guerra Mundial pelo governo do general Charles de Gaulle. O Brasil, representado pelo embaixador Souza Dantas, teve um papel de relevância na fundação.
A Casa da América Latina preparou uma grande festa para marcar o aniversário de 80 anos. O evento acontece nesta quinta-feira, 15 de outubro, na sede histórica da instituição, no boulevard Saint-Germain, no coração de Paris. Durante todo o dia, mesas-redondas e momentos de confraternização vão lembrar as oito décadas de promoção do diálogo entre a França e os países latino-americanos. Entre os convidados, estão nomes de prestígio como o ex-presidente socialista François Hollande e o filósofo Régis Debray, além de diplomatas, intelectuais e representantes do setor cultural.
Mas o que era para ser uma festa se anuncia como o canto do cisne. Os dois palacetes do século 18 que sediam a instituição desde 1965 foram colocados à venda por € 100 milhões (R$ 600 milhões na cotação atual) pelo Banco da França, proprietário dos imóveis. Mais de vinte grupos já manifestaram interesse, mas o edital de venda não obriga os potenciais compradores a manter o funcionamento da instituição no local.
"Nós não somos contra a venda. O que queremos é uma solução que permita, ao mesmo tempo, nossa permanência na sede histórica com suas atividades. Não precisamos de todo o prédio para continuar desempenhando nossa missão", ressalta o diplomata Jean-Marc Laforêt, presidente da Casa da América Latina.
O espaço recebe uma subvenção do Ministério das Relações Exteriores francês de € 25 mil por ano, mas é independente e autossuficiente financeiramente. As embaixadas dos 20 países da América Latina não contribuem com a instituição.
A MAL paga € 2 milhões de aluguel por ano e financia os mais de 100 eventos gratuitos que organiza alugando os salões e jardins de sua sede. Cerca de 50 mil pessoas visitam a Casa todos os anos.
Campanha de difamação
A proposta de venda dos dois casarões do século 18, tombados pelo patrimônio histórico, já era conhecida. Mas o Banco da França decidiu acelerar o processo, que deve ser encerrando antes do fim do ano. O edital de venda foi lançado após uma campanha na imprensa contra a Casa. A MAL foi acusada de má gestão e de "reduto de esquerdistas".
Para Jean-Marc Laforêt, isso "não é uma coincidência". Segundo o presidente da MAL, que já foi embaixador da França no Brasil e na Colômbia, "essa campanha (na imprensa) serviu para preparar o terreno por meio de acusações totalmente caluniosas e difamatórias. É bastante claro para nós quem estava por trás dessa operação. Houve três artigos caluniosos publicados numa revista chamada Le Figaro Magazine, todos assinados pelo mesmo jornalista, que nunca veio aqui. Nunca".
François Vitrani, diretor-geral da Casa da América Latina de Paris desde 1984, citado pessoalmente nas matérias, acredita que os autores dessa campanha de difamação politizam a questão.
"Quando me perguntam sobre política na Casa, minha resposta é sempre a mesma: 'a Casa da América Latina não tem posição política'. Nós, indivíduos, temos nossas opiniões, eu inclusive. Mas a instituição não possui uma posição política. Trabalhamos com todos. Governos, oposições, representantes de todas as correntes. Quem frequenta a Casa sabe disso. Ela é aberta a todos. Agora, aqueles que desejam politizar o assunto o fazem para tentar colocar as mãos sobre a instituição. Faz parte da disputa. É uma forma de travar essa batalha", avalia.
O Banco da França justificou, em nota à AFP, que decidiu "dentro de uma política de boa gestão patrimonial, vender os imóveis por decisão de seu Conselho-Geral", explicando que "não faz parte de sua vocação conservar os palacetes, cujos custos de manutenção e de reforma seriam muito elevados".
Péssimo sinal para as relações entre França e América Latina
O espaço é considerado o principal polo cultural latino-americano em Paris. A venda do imóvel sem a garantia da permanência da Casa da América Latina no local seria um péssimo sinal para as relações diplomáticas franco-latino-americanas.
"Necessariamente, essa venda tem uma dimensão diplomática. A Casa da América Latina abriga a sede do grupo de embaixadores latino-americanos na França, desde a fundação da instituição, em 1946. É um lugar muito importante. Esse é o único espaço em Paris destinado aos encontros da comunidade latino-americana e aos intercâmbios entre a França e a América Latina. Seu desaparecimento será inevitavelmente interpretado como uma falta de interesse da França pela América Latina", ressalta Jean-Marc Laforêt.
"Não entendemos por que destruir algo que funciona, que responde a uma necessidade real. As relações diplomáticas com a América Latina são importantes. E os latino-americanos se importam muito com essa instituição, que é um símbolo, mas um símbolo extremamente forte", reforça François Vitrani.
O deputado Benoit Larrouquis, do grupo macronista Ensemble pour la Republique (Juntos pela República) e representante dos franceses que moram na América Latina, lembra a força simbólica da instituição, que deve ser preservada.
"Charles de Gaulle criou a Casa para agradecer a solidariedade da América Latina à França Livre. Isso tem um significado profundo, especialmente porque, naquela época, De Gaulle propunha uma espécie de terceira via. De certa forma, é exatamente isso que a França propõe hoje na América Latina: uma terceira via. Nem a via da China, nem a dos Estados Unidos, mas a via da França, baseada numa diplomacia de confiança e respeito mútuo", salienta Larrouquis.
Petição
Um abaixo-assinado pedindo a intervenção do presidente francês para manter a MAL em sua sede histórica e garantir o futuro da instituição já recolheu mais de 25 mil assinaturas.
"A Casa está sob a chancela do Presidente da República desde sua criação. Portanto, Emmanuel Macron tem a responsabilidade de garantir a manutenção da Casa da América Latina. Até agora, não temos nenhum posicionamento público do presidente sobre o assunto. Mas, no momento do 80º aniversário da instituição, isso seria um sinal bastante estranho", contextualiza Laforêt.
Resta saber se Emmanuel Macron será o presidente que permitirá o fechamento da Casa da América Latina, fundada pelo general Charles de Gaulle.