França vai adotar toques de recolher e não descarta estado de emergência, diz premiê

O primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, anunciou nesta segunda-feira (19) que pediu aos prefeitos a adoção de "toques de recolher" a partir desta noite na França. As medidas serão parciais e restritas a determinadas áreas. O objetivo é proteger os estabelecimentos comerciais após um fim de semana marcado por violência, saques e depredações em diversas cidades do país.

19 out 2026 - 08h30
(atualizado às 08h42)
Resumo
Após atos de violência e saques em várias cidades, o governo francês anunciou toques de recolher, não descarta estado de emergência e prometeu auxílio a cerca de 3 mil comerciantes afetados. Enquanto a Alemanha e a União Europeia expressaram forte preocupação com a crise, movimentos sociais, sindicatos e estudantes rejeitaram os discursos oficiais e convocaram novos protestos e greves gerais para os próximos dias em reação ao alto custo de vida no país.

Segundo Lecornu, o mapa das áreas afetadas deverá ser divulgado ainda nesta segunda-feira, após consultas com os prefeitos dos municípios envolvidos. O premiê acrescentou que o governo poderá decretar estado de emergência, se necessário, mas considerou que os toques de recolher parecem, neste momento, uma resposta mais adequada à situação. 

O ministro do Interior, Laurent Nuñez (à esq.), e o primeiro-ministro, Sébastien Lecornu (ao centro), participam de reunião de crise em Paris; governo prepara novas medidas após a onda de violência e saques registrada no fim de semana.
O ministro do Interior, Laurent Nuñez (à esq.), e o primeiro-ministro, Sébastien Lecornu (ao centro), participam de reunião de crise em Paris; governo prepara novas medidas após a onda de violência e saques registrada no fim de semana.
Foto: AFP - KENZO TRIBOUILLARD / RFI

Ao defender a atuação das forças de segurança, Lecornu afirmou que "não há nada a esconder" e declarou que policiais e unidades especializadas desempenharam bem suas funções. 

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Ele atribuiu os distúrbios à ação de grupos de ultraesquerda e de delinquentes dispostos a promover uma profunda desestabilização do país até a eleição presidencial e prometeu uma "resposta judicial em larga escala" contra os responsáveis pelos atos de violência. Na área econômica, Lecornu anunciou medidas de apoio aos comerciantes atingidos pelos saques e depredações. 

A partir de terça-feira, os cerca de 3 mil estabelecimentos afetados poderão recorrer ao regime de redução de jornada com compensação salarial financiada pelo Estado, mecanismo destinado a preservar empregos enquanto as empresas se recuperam dos prejuízos causados pelos distúrbios. 

O ministro do Interior francês, Laurent Nuñez, confirmou que medidas serão adotadas "já nesta noite para conter os vândalos", após os episódios de violência e saques registrados no fim de semana em várias cidades da França. Segundo ele, o objetivo é impedir novos distúrbios e reforçar a proteção de áreas consideradas sensíveis, especialmente regiões comerciais. 

O ministro adiou a viagem que faria na tarde desta segunda a Marselha devido a uma reunião com o primeiro-ministro e outros integrantes do governo, informou sua equipe. Ele deveria visitar a cidade para se reunir com o prefeito, representantes do setor empresarial e integrantes das forças de segurança. 

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Em nota, sua equipe afirmou que Nuñez "reitera todo o seu apoio ao prefeito de Marselha, aos comerciantes vítimas dos saqueadores e a todas as forças de segurança mobilizadas nas ruas". 

A coordenação dos coletes amarelos que organizou as manifestações do último sábado na França contra o alto custo de vida, marcadas por episódios de violência em várias cidades, anunciou nesta segunda-feira um "Ato II", com novas mobilizações previstas para o próximo sábado e para 31 de outubro. 

Na noite de domingo, após o pronunciamento de Emmanuel Macron na televisão, essa mesma coordenação dos coletes amarelos classificou o discurso do presidente como "vazio" e pediu para ser recebida no Palácio do Eliseu juntamente com representantes de diversos setores mobilizados. 

Para 5 de novembro, uma frente sindical formada por CFDT, CGT, FO, Unsa e FSU convocou uma greve e manifestações em defesa dos salários, dos serviços públicos, do emprego e da indústria. 

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"Não ouvimos Macron falar em nenhum momento sobre as causas da insatisfação social", lamentou Coppélia Moreau, integrante da Interfac da região de Île-de-France. Segundo ela, a organização, que coordena os comitês de mobilização das universidades da região parisiense, aprovou a continuidade dos protestos na quinta-feira, com a possibilidade de uma manifestação em Paris. 

Já a Coordenação Nacional dos Estudantes do Ensino Médio, que afirma reunir porta-vozes de escolas mobilizadas em 27 cidades, convocou os estudantes a irem às ruas nos dias 22 e 24 de outubro. Em comunicado, a organização declarou apoiar "todas as formas de continuidade da mobilização: bloqueios, manifestações e ocupações". 

"A repressão reaviva a mobilização e fortalece a unidade", afirmou à AFP Anton, estudante do último ano do ensino médio em Toulouse e integrante da coordenação. 

Alemanha pede "cautela" a cidadãos 

A Alemanha condenou nesta segunda-feira os episódios de violência na França e afirmou estar "preocupada" após "as imagens vistas em Paris e Limoges", onde a prefeitura foi incendiada. O governo alemão também pediu que seus cidadãos em território francês ajam com cautela. 

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"A violência nas ruas não tem lugar em nossas democracias", declarou Stefan Kornelius, porta-voz do governo alemão, durante entrevista coletiva em Berlim. 

Ele lembrou que o Ministério das Relações Exteriores atualizou no domingo (18) à noite suas recomendações de viagem para a França. O governo orienta os cidadãos alemães a serem cautelosos e, sempre que possível, evitarem participar de manifestações ou se aproximar delas. 

"As imagens que todos vimos, seja em Paris ou em Limoges, nos causam grande preocupação. É um sinal positivo que a situação pareça ter se acalmado um pouco no domingo", acrescentou. 

"Naturalmente, a França é capaz de agir", disse Kornelius ao ser questionado sobre a capacidade do país de enfrentar a crise a seis meses da eleição presidencial. 

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"Inaceitável", diz UE

Já a União Europeia pediu nesta segunda que a França garanta o direito à manifestação pacífica, ao mesmo tempo em que classificou como "inaceitáveis" os saques e incêndios registrados durante o fim de semana.

"Não se deve confundir as pessoas que se manifestam pacificamente com aquelas que cometem atos de violência", afirmou Markus Lammert, porta-voz da Comissão Europeia."Os incêndios criminosos, os saques e os ataques contra pessoas ou edifícios públicos são inaceitáveis", acrescentou.

Com agências

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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