Corpos dissidentes ocupam claustro medieval de Avignon em obra radical de Rébecca Chaillon

A performer afro‑feminista e militante queer Rébecca Chaillon, que fez tremer as bases do Festival de Avignon em 2023, retorna à cena principal do evento com La Parabole du Seum, obra que cruza ficção científica, rituais profanos e política do corpo para expor as fraturas da França contemporânea. Ao ocupar o claustro medieval, a peça transforma o espaço em zona de atrito onde corpos gordos, racializados, queer e imigrantes reorganizam o campo do sensível e tensionam a própria ideia de futuro.

12 jul 2026 - 07h55

Márcia Becharaenviada especial a Avignon

A espera foi longa no sábado (11), diante do Cloître des Célestins — antigo claustro medieval do século XIV, construído para abrigar monges e hoje convertido em um dos espaços mais simbólicos do Festival de Avignon, evento onde a arquitetura religiosa funciona como caixa de ressonância para obras que tensionam o presente. A fila, que dobrava o quarteirão para ver La Parabole du Seum, chegou a partir de uma convocação da diretora francesa Rébecca Chaillon, que abalou o festival há três anos.

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Durante a apresentação de Carte noire nommée désir em 2023, Chaillon enfrentou uma das polêmicas mais violentas da história recente do Festival de Avignon: o espetáculo, que desmontava o imaginário racializado em torno do corpo da mulher negra, provocou ataques racistas e insultos dirigidos à artista e às intérpretes, dentro e fora do teatro, gerando tensão entre público, equipe e segurança. A obra, celebrada pela crítica pela força política e pela linguagem híbrida, tornou‑se alvo de hostilidade justamente por expor a erotização e a exotização do corpo negro na cultura francesa.

A diretora não se deu por vencida e retorna agora com uma obra que reorganiza o espaço medieval da antiga Cidade dos Papas, para expor, sem suavizar, as fraturas que atravessam uma França contemporânea violenta e cheia de ideias pós-coloniais pré-concebidas. O claustro, historicamente dedicado ao silêncio e à disciplina, é tomado pela trupe da diretora francesa por corpos gordos, racializados, queer e imigrantes, que transformaram o pátio para produzir uma fábula sobre medo, sobrevivência e futuro.

Balança para pesar corpos dos espectadores 

A entrada do claustro para ver a peça já funciona como prólogo. Uma balança industrial, instalada como se fosse parte de um supermercado kitch dentro de um pesadelo, convida o público a se pesar e a receber um cupom calculado a partir de 10% do próprio peso. O gesto cênico, aparentemente lúdico, devolve ao espectador a lógica da gordofobia e da obsessão francesa pela medida: medir, classificar, quantificar, transformar o corpo em unidade de valor.

A operação provoca a participação da plateia que sobe ao palco para se pesar, mas também hesitação, riso nervoso e desconforto, desmontando a ideia de que o teatro começa apenas quando as luzes se apagam. Aqui, ele começa no corpo do espectador — e começa com uma violência calculada. As intérpretes circulam entre as pessoas, e as observam, nomeiam, classificam entre "gordo!", "quase!" e "magro!" (os gordos ganham cupons para um sorteio de produtos). Não há metáfora, mas a inversão irônica da forma como a sociedade organiza o olhar sobre quem é considerado "normativo", e quem é empurrado para a margem.

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Durante a peça, esse humor aparece como ferramenta de sobrevivência. Não se trata, no entanto, de um humor conciliador, mas que rasga e desloca, e que permite respirar num tempo saturado. A peça alterna momentos de riso e momentos de raiva, compondo uma parábola que tenta reorganizar o sensível diante do avanço do fascismo. A diretora não oferece um programa para ser seguido, apesar da ironia com o figurino, que às vezes se parece com uniformes de uma seita dissidente qualquer. A comunidade em cena — híbrida, indisciplinada, insurgente — tenta inventar estratégias de resistência que não dependem de instituições, mas de alianças afetivas e imaginárias. 

Cena do espetáculo “La Parabole du Seum", de Rébecca Chaillon.
Cena do espetáculo “La Parabole du Seum", de Rébecca Chaillon.
Foto: RFI

A presença da astrologia opera como uma ferramenta de projeção num mundo em colapso. Quando o céu está saturado, quando a ciência é capturada por interesses econômicos e militares, ou quando o futuro é sequestrado por políticas reacionárias, a astrologia aparece como gesto de imaginação radical. A sugestão que Chaillon desenha parece ser a de uma reorganização simbólica, uma forma de reivindicar o direito de projetar futuro quando o presente tenta impedir qualquer autoria sobre o desejo.

A peça, ao articular astronomia, astrologia, ficção científica e política do corpo, constrói uma mitologia queer que atravessa territórios periféricos tão conhecidos dos parisienses, como Seine‑Saint‑Denis, Aubervilliers, Pré-Saint-Gervais, Montreuil, entre outros, e alcança o firmamento. É uma mitologia que não busca universalidade, mas especificidade: corpos que foram historicamente empurrados para fora do centro reivindicam o direito de ocupar o céu.

Dramaturgia das estrelas

A dramaturgia se organiza como uma fábula astral que transforma o céu em campo de disputa. Não é um céu metafórico, mas um território carregado de catástrofes climáticas, vigilância tecnológica, colonização espacial e desigualdades que se aprofundam sempre nos mesmos corpos. Ao cruzar astronomia e astrologia, Chaillon produz um deslocamento que interessa diretamente à crítica: entre cálculo e crença, o céu deixa de ser promessa e passa a ser diagnóstico. A peça parte da ideia de que o firmamento, antes associado à transcendência, se tornou um espaço saturado — fragmentado por satélites, drones, sinais, tempestades — e que essa saturação revela, com precisão, as fraturas sociais que estruturam o presente.

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Chaillon não suaviza a violência das exclusões sociais e não transforma a raiva em discurso palatável. Ela, sobretudo, não oferece ao público uma versão higienizada da experiência marginal. A artista insiste que o teatro pode — e deve — confrontar o espectador com aquilo que ele prefere não ver. E é justamente essa insistência que faz de La Parabole du Seum uma obra que reconfigura o claustro dos papas: o espaço medieval, dedicado durante séculos à disciplina e ao silêncio, torna‑se, na visão de Rébecca Chaillon, palco de uma comunidade que reivindica o direito de existir com complexidade, contradição e força.

La Parabole du Seum ocupa o Cloître des Célestins no Festival de Avignon entre 3 e 21 de julho de 2026, com apresentações diárias às 22h e duração de 1h40, em francês. As sessões estão esgotadas. O site do festival traz um aviso indicando que a obra inclui cenas de caráter sexual e relatos de violências gordofóbicas, queerfóbicas, racistas, islamofóbicas, transfóbicas, sexistas e sexuais. 

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