Wagner Moura, 'Inimigo do Povo'? Ator fala sobre estreia que revisita clássico de Ibsen em Avignon

Wagner Moura estreia neste sábado (11) O Julgamento, Depois de O Inimigo do Povo no Festival de Avignon, dramaturgia que ele assina ao lado de Christiane Jatahy e Lucas Paraizo, numa criação que convoca o público a decidir o rumo da história. Em depoimento antes da estreia, ele fala do processo de dois anos com Jatahy, da força da verdade no mundo atual e de sua primeira vez em Avignon, neste que é considerado o maior encontro de artes cênicas do mundo.

11 jul 2026 - 10h31
(atualizado às 11h34)

Márcia Becharaenviada especial a Avignon

A estreia de Depois de O Inimigo do Povo na programação oficial do Festival de Avignon marca a presença de três nomes centrais da cena brasileira num dos palcos mais prestigiados das artes cênicas contemporâneas: a encenadora Christiane Jatahy, o ator e cineasta Wagner Moura e o dramaturgo Lucas Paraizo.

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A montagem, apresentada durante a programação principal do evento dá continuidade ao clássico Um Inimigo do Povo, de Henrik Ibsen, para discutir democracia, responsabilidade coletiva, polarização e os limites da verdade num mundo em que fatos perderam peso político.

"Foi um barato, esse é um projeto que eu tenho com Cris há muito tempo. Eu queria fazer a peça do Ibsen mesmo, O Inimigo do Povo, mas ela veio com essa ideia do julgamento, com o trabalho dela, e me convidou para escrever com eles. Foi muito, muito legal. Nós passamos dois anos só conversando sobre o que íamos fazer e quando começamos a escrever, eu sabia bem que tipo de peça a gente ia fazer. Então foi muito prazeroso, muito bom", afirmou.

"Quando eu comecei a escrever essa peça com a Chris [Jatahy], acho que quando eu me apaixonei pelo Inimigo do Povo, a discussão sobre a verdade bateu forte. E sobretudo no mundo de hoje, em que acho que a verdade deixou de ser importante, os fatos deixaram de importar. Isso, para mim, é muito forte", disse o ator, durante a sessão de autógrafos durante o lançamento do livro com o texto da peça em Avignon.

Para Wagner Moura, falar três línguas em Avignon para Um Julgamento - Depois do Inimigo do Povo não se tornou obstáculo, mas parte da lógica viva da criação. Ele explica que a peça muda conforme a cidade e o júri local, o que exige abertura constante dos atores.

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"Tem um coeficiente de improviso na peça, mas, mais do que isso, a gente tá sempre muito aberto. Em cada cidade, mesmo em Salvador, havia coordenadores do júri diferente. Então, o fato de fazer em línguas diferentes… Nós fizemos em Amsterdam, foi diferente. E mesmo em Portugal e aqui na França, a gente adiciona agora mais uma: são três línguas, né? Tem um pouquinho de inglês, um pouco de francês e português. Só corrobora. Acho que só fortifica as características que a peça já tem e deixa a gente muito vivo em cena, muito alerta."

Em Um Julgamento - Depois do Inimigo do Povo, Wagner Moura interpreta um dos irmãos [Thomas Stockmann] que ocupam o centro do conflito. Seu personagem é parte do dispositivo do tribunal contemporâneo que estrutura a peça: ele se vê diante de acusações, contradições e disputas sobre responsabilidade coletiva, enquanto o público, convocado a atuar como júri, decide o rumo da narrativa.

A obra de Ibsen, escrita em 1882, acompanha o médico Thomas Stockmann, que denuncia a contaminação das águas de uma estação balneária e se torna alvo da comunidade. Na versão de Moura, Jatahy e Paraizo, o conflito se desloca para um tribunal contemporâneo em que o público é chamado a decidir o destino de personagens brasileiros. A cada noite, o espetáculo se transforma e, em Avignon, essa transformação ganha camadas específicas.

Wagner Moura em cena de "Um Julgamento - Depois de O Inimigo do Povo".
Wagner Moura em cena de "Um Julgamento - Depois de O Inimigo do Povo".
Foto: RFI

"A peça discute também a democracia. É uma peça sobre a relação entre dois irmãos. Então, tem várias coisas: a questão ambiental, que tipo de progresso a gente quer para o mundo. Acho que em cada lugar também… cada pessoa vê a peça do jeito que bate. Essa é a beleza do teatro", afirmou. Sobre sua estreia em Avignon, o ator é breve mas decisivo: "Um barato, esse festival é um barato, estou curtindo muito". 

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O festival, criado em 1947 pelo icônico ator e diretor francês Jean Vilar, consolidou-se como o mais influente encontro internacional dedicado ao teatro. A curadoria atual, sob direção de Tiago Rodrigues, privilegia obras que interrogam instituições, participação cidadã e tensões políticas contemporâneas — eixo que permeia a montagem brasileira. A diretora carioca Christiane Jatahy, que já apresentou trabalhos na Europa e integra circuitos como o Odéon e o Schauspielhaus Zürich, retorna a Avignon com um dispositivo cênico que desloca o espectador para dentro da narrativa.

A peça Um Julgamento - Depois do Inimigo do Povo, de Christiane Jatahy, Wagner Moura e Lucas Paraizo, estreia neste sábado (11), às 18h, no Gymnase du Lycée Aubanel, em Avignon. As apresentações seguem nos dias 12, 14, 15, 16, 17, 19, 20, 21 e 22 de julho, sempre às 18h, com sessões extras às 22h nos dias 15 e 20. A duração é de 2h15, em português com subtítulos em francês e inglês. A venda de ingressos é feita diretamente pelo site oficial do festival, com atualização diária de disponibilidade.

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