Vindos principalmente dos arredores de Paris e do norte da França, os tratores do sindicato FNSEA se instalaram perto da Assembleia Nacional logo no início do dia. Os veículos chegaram antes do amanhecer e desceram parte da avenida Champs-Élysées.
A polícia, que autorizou o ato, contabilizava às 10h cerca de 400 manifestantes reunidos nos arredores da Assembleia Nacional e 353 tratores posicionados diante do prédio e nas margens do rio Sena. Damien Greffin, um dos vice-presidentes do sindicato FNSEA, organizador da mobilização junto com os Jovens Agricultores (JA), afirmou haver "mais de 500 tratores e 800 agricultores".
Uma das principais razões do protesto é o acordo de livre-comércio UE-Mercosul. Os manifestantes consideram que o tratado vai desestabilizar a agricultura europeia com produtos importados — como carne bovina, açúcar, aves — mais baratos e nem sempre respeitando as normas da UE, devido à falta de controles suficientes. A poucos dias da assinatura do texto, prevista para sábado (17) no Paraguai, os agricultores também multiplicaram suas ações em outras regiões da França, incluindo bloqueios de rodovias importantes.
Reivindicações vão além do comércio internacional
Desde o início de dezembro, os protestos de agricultores se multiplicam na França. Na semana passada, manifestantes da Coordenação Rural, segundo maior sindicato agrícola, também levaram seus tratores a Paris, desafiando proibições de comboios e manifestações não declaradas perto dos centros de poder.
Mas os agricultores não contestam apenas o acordo UE-Mercosul. Os manifestantes protestam contra a gestão de uma epidemia de dermatose bovina no sudoeste do país e reivindicam melhores condições de trabalho em geral, em uma profissão diretamente exposta às variações climáticas e econômicas.
Algumas medidas chegaram a ser anunciadas pelo governo francês na sexta-feira (9), após desfiles de tratores da Coordenação Rural e da Confederação Camponesa na capital. Mas as promessas não foram suficientes para acalmar a revolta. "Estamos no nosso limite, já faz três anos que não conseguimos gerar renda em nossas propriedades. Os políticos são incapazes de nos dar uma direção", declarou nesta terça-feira diante da Assembleia Nacional Guillaume Moret, 56 anos, um dos dirigentes da FNSEA na região Île-de-France, que inclui Paris.
Conflito com lobos entra na pauta das reivindicações
Nesta terça-feira, representantes locais do FNSEA foram recebidos pelo gabinete do primeiro-ministro Sébastien Lecornu. No fim da tarde, o primeiro-ministro prometeu aos agricultores que apresentará em março um projeto de "lei de urgência". O chefe do governo não fez nenhuma alusão ao acordo UE-Mercosul e disse apenas que o texto vai garantir melhores condições de acesso e armazenamento de água para irrigação — uma das reivindicações dos agricultores — e trará medidas concretas sobre autorizações para o abate de lobos, outra questão levantada requentemente pela categoria.
Atualmente, alguns agricultores são autorizados a realizar tiros de defesa contra lobos em caso de ataque, mas pedem que o Estado mande agentes para matar os animais devido ao aumento das ataques, que causaram mais de 800 mortes de rebanhos em 2025. Eles também exigem insistentemente um aumento da cota anual de abate autorizada, fixada em 19% da população estimada.
Com agências