Ao capturar o ditador Nicolás Maduro e assumir o controle da Venezuela, o presidente norte-americano, Donald Trump desrespeitou o direito dos Estados Unidos e internacional. Para a revista francesa Le Nouvel Obs, o gesto revive a tradição imperialista norte-americana e abre caminho para futuras ações em outras regiões estratégicas, como o Ártico, por meio da Groenlândia.
O periódico lembra que a operação Resolução Absoluta (Absolute Resolve, no original em inglês) confirma que Trump, que se dizia pacificador, privilegia a diplomacia militar direta. O presidente segue a chamada "doutrina Trump", concebida por seu vice J.D. Vance: primeiro, definir claramente o interesse nacional; segundo, esgotar a diplomacia; terceiro, recorrer à força esmagadora quando necessário, retirando-se rapidamente antes que o conflito se prolongue. A ação em Caracas, segundo o Le Nouvel Obs, seria "apenas a primeira de um plano mais amplo, que consolida o Ocidente sob a influência norte-americana, ignorando adversários como Rússia e China, e lembrando antigas operações secretas da CIA na América Latina".
A revista observa que a aparente obsessão de Trump pelo tráfico venezuelano contrasta com a clemência concedida ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, condenado a 45 anos de prisão por envio de mais de 400 toneladas de cocaína aos Estados Unidos.
Para especialistas citados pela semanal, o presidente se guia unicamente pelo interesse estratégico norte-americano, visando a apropriação de recursos naturais — do petróleo venezuelano aos minerais da Groenlândia —, sob uma lógica de capitalismo agressivo e "predatório".
Quem será o próximo?
Para a revista Le Point, o sentimento que domina o início de 2026 é o da hybris, termo grego que significa o poder desmesurado, sem limites. Com Nicolás Maduro capturado, Donald Trump atira para todos os lados e o veículo questiona na capa: "Quem será o próximo?".
A questão central levantada por Le Point é se Trump abriu uma brecha que outros atores tenderão a explorar. A revista caracteriza a postura de Trump como imperialista - e, em certos aspectos, colonial. Se houver um próximo alvo, ele provavelmente estará na América Latina, diz Le Point. O próprio presidente não esconde: "ninguém voltará a questionar a dominação norte-americana no hemisfério ocidental".
Quanto à Groenlândia, tema que preocupa governos europeus, Le Point arrisca uma hipótese: Trump fará tudo para adquirir o território - que, na visão norte-americana, também integra o "hemisfério ocidental" -, mas aposta que poderá "comprá-lo", e não tomá-lo pela força.
Resta o Irã. Para o líder republicano, seria mais vantajoso esperar um eventual colapso interno do regime do que arriscar a captura do aiatolá Ali Khamenei, mergulhando a região em um caos comparável ao do Iraque pós-2003.
No balanço de Le Point, esse início de ano reduz ainda mais as chances de Trump receber um dia o Prêmio Nobel da Paz. Em menos de 12 meses, ele autorizou mais ataques - com mísseis, bombas e drones - do que Joe Biden ao longo de todo o seu mandato.
Nova ordem mundial para quem?
Já a L'Express traz uma ilustração impactante: Trump como cowboy armado, com faixa estilo "Rambo", sob o título "A Nova Ordem Mundial". Para a publicação, o sequestro de Maduro marca o advento da "lei do mais forte" e abre espaço para todas as possibilidades geopolíticas.
A ação em Caracas, segundo a revista francesa, sinaliza que Trump não é mais apenas o candidato populista da campanha de 2016: ele se tornou um imperador pragmático e decidido, capaz de aplicar sua visão mesmo desorientando parte da base que esperava uma postura isolacionista.
A revista destaca ainda que a Estratégia de Segurança Nacional divulgada em dezembro deixa claro o projeto do presidente: tornar os Estados Unidos a "nação mais poderosa e próspera da história" e reconquistar seu quintal histórico, a América Latina.
A publicação cita a historiadora francovenezuelana Elizabeth Burgos, que observa a necessidade de Washington criar dissuasão na região para manter influência global. Medidas simbólicas, como rebatizar o Golfo do México de "Golfo da América", reforçam essa lógica expansionista.