Relatório francês aponta que redes sociais ameaçam saúde mental de adolescentes

O uso das redes sociais é prejudicial à saúde mental dos adolescentes, principalmente das meninas. É o que aponta um relatório da Agência Francesa de Segurança Alimentar, Ambiental e do Trabalho (ANSES), publicado nesta terça-feira (13). Segundo o estudo, as redes sociais acessadas por smartphones, nas quais metade dos jovens de 12 a 17 anos passa de duas a cinco horas por dia, constituem uma câmara de eco que reforça estereótipos, promove comportamentos de risco e fomenta o ciberbullying.

13 jan 2026 - 11h21

Isso decorre de um modelo econômico que maximiza o tempo de uso para obter lucro e de estratégias de captura de atenção que incentivam os adolescentes a permanecerem nas redes sociais em detrimento do sono. Isso leva à sonolência, irritabilidade, tristeza e promove sintomas depressivos, observa a ANSES.

Uma adolescente com seu celular. Em Sydney, Austrália, em 22 de novembro de 2025.
Uma adolescente com seu celular. Em Sydney, Austrália, em 22 de novembro de 2025.
Foto: © Hollie Adams / Reuters / RFI

Embora não seja a única causa do declínio da saúde mental dos adolescentes, os efeitos negativos das redes sociais, recentemente proibidas para menores de 16 anos na Austrália, são "numerosos" e "documentados", afirmou a ANSES em seu parecer, resultado de cinco anos de trabalho de um comitê multidisciplinar de especialistas.

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A Agência Francesa recomenda "agir na origem" para garantir que os menores de idade acessem apenas "redes sociais projetadas e configuradas para proteger sua saúde". Isso implica que as plataformas devem modificar algoritmos de personalização de conteúdo, técnicas de interface persuasivas e configurações padrão, enfatiza a agência, cujo trabalho influencia decisões de políticas públicas.

Contatadas pela AFP nesta terça-feira, TikTok, Snapchat e X não responderam, enquanto a Meta se recusou a comentar.

"Este estudo fornece argumentos científicos para o debate sobre mídias sociais, que têm se intensificado nos últimos anos: ele se baseia em 1.000 estudos que foram analisados" e documentam "os efeitos na saúde", afirmou Olivia Roth-Delgado, coordenadora da pesquisa, em uma coletiva de imprensa.

O desafio é criar uma estrutura de governança "compatível com os riscos", destacou Olivier Merckel, chefe da Unidade de Avaliação de Riscos de Agentes Físicos, enfatizando que estabelecer "medidas regulatórias robustas e ações de controle" para proteger a saúde de menores "é responsabilidade das plataformas".

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Essas plataformas devem implementar "sistemas confiáveis para verificação de idade e obtenção de consentimento dos pais" para cumprir a Lei Europeia de Serviços Digitais (DSA) e o Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD). Este último permite o cadastro a partir dos 13 anos, com validação dos pais entre os 13 e os 15 anos.

Meninas mais impactadas

Segundo a agência de saúde, os "sistemas de captura de atenção" das plataformas "exploram vulnerabilidades específicas" dos adolescentes, como, por exemplo, a tendência a correr riscos, a se comparar com os outros e a importância do julgamento dos amigos.

Além disso, o conteúdo transmite ideais normativos inatingíveis, internalizados pelas meninas, por meio de imagens retocadas, o que pode levar à baixa autoestima, criando um terreno fértil para sintomas depressivos e transtornos alimentares. Os algoritmos de personalização de conteúdo expõem alguns menores a publicações que incitam suicídio, automutilação ou comportamentos de risco (desafios perigosos, uso de drogas, álcool, tabaco e cannabis, etc.) e ao ciberbullying, amplificado pelo anonimato e pela facilidade com que as ameaças podem se espalhar.

Por usarem as redes sociais mais do que os meninos, as meninas estão mais sujeitas à "pressão social ligada a estereótipos de gênero" e são mais frequentemente vítimas de ciberbullying, sendo "mais impactadas", observa a ANSES, assim como pessoas LGBTQI+ e jovens com problemas de saúde mental preexistentes.

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Em 2024, a advogada Laure Boutron-Marmion entrou com uma ação coletiva contra o TikTok no tribunal de Créteil (Val-de-Marne, no subúrbio de Paris) em nome de sete famílias devastadas pelo suicídio ou tentativa de suicídio de seus filhos. Essas famílias acusam a plataforma de permitir a circulação de conteúdo que promove suicídio, automutilação e distúrbios alimentares entre seus filhos, que caíram "no caldeirão mortal" do TikTok, disse a advogada à AFP.

Atualmente, vários projetos de lei com o objetivo de proibir o uso de redes sociais para menores de 15 anos estão sendo analisados na França: um é de iniciativa do presidente Emmanuel Macron, outro do grupo Renaissance do deputado e ex-primeiro-ministro Gabriel Attal e outros do Senado.

Com AFP

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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