Entenda a crise bancária que levou à renúncia de Santiago Peña no Paraguai

Colapso do Ueno Bank, ligado a antigos investimentos do presidente, provocou protestos, investigação e ameaça de impeachment

5 nov 2026 - 14h31
(atualizado às 14h35)
Presidente do Paraguai apresenta renúncia em meio à crise por banco digital: ‘Preservar instituições’
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A crise financeira envolvendo o Ueno Bank, no Paraguai, levou o presidente Santiago Peña a renunciar ao cargo nesta quinta-feira, 5. A instituição financeira digital, que chegou a ter cerca de 3 milhões de clientes, foi colocada sob intervenção do Banco Central do Paraguai (BCP) após apresentar problemas de solvência. A medida deixou os correntistas sem acesso às contas e causou dúvida sobre o destino de recursos públicos depositados no banco.

O caso atingiu o governo de Peña, que foi acionista de uma empresa ligada ao grupo que controlava o banco.

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O presidente do Banco Central, Carlos Carvallo Spalding, por sua vez, havia comandado uma financeira que deu origem ao Ueno. Houve questionamento sobre um possível conflito de interesses e a atuação dos órgãos responsáveis pela fiscalização.

A oposição ao governo apresentou um pedido de impeachment contra Peña e o vice-presidente Pedro Alliana. O pedido ganhou força depois que o ex-presidente Horacio Cartes, líder do Partido Colorado, ter declarado apoio ao afastamento. Peña anunciou que iria deixar o cargo horas antes da Câmara dos Deputados analisar a denúncia.

A seguir, entenda a crise e como o banco, apresentado como motivador do crescimento do sistema financeiro paraguaio, chegou ao colapso.

O presidente do Paraguai, Santiago Peña Palacios, renunciou ao cargo em meio à tensão política causada pela crise do Ueno Bank
O presidente do Paraguai, Santiago Peña Palacios, renunciou ao cargo em meio à tensão política causada pela crise do Ueno Bank
Foto: Mehmet Eser/Anadolu via Getty Images

Como começou a crise?

Criado a partir da Financeira El Comercio, adquirida pelo Grupo Vázquez em 2021, o Ueno Bank cresceu rapidamente nos últimos anos, e recebeu autorização para operar em 2023, ampliando sua carteira após incorporar o Visión Banco, em 2024.

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Em novembro de 2026, porém, o Banco Central identificou que o índice de solvência da instituição havia caído para menos da metade do mínimo exigido por lei. O indicador mede a capacidade do banco de absorver perdas. Por isso, o órgão iniciou um processo de resolução e assumiu a administração da instituição.

Quais são os vínculos com o presidente?

Peña admitiu, em 2025, que havia sido acionista da Ueno Holding, empresa ligada ao grupo controlador do banco. Segundo ele, o investimento foi feito em 2019 e encerrado em março de 2025, durante uma fusão. O presidente afirmou que não tinha participação direta no Ueno Bank.

Outro nome citado é de Carlos Carvallo Spalding, que presidia o Banco Central durante a intervenção. Antes de assumir o órgão, em 2023, ele havia comandado a Financeira Ueno. Carvallo renunciou ao cargo no Banco Central na última terça-feira, 3.

A oposição ao governo também questiona a presença de recursos públicos no banco. A instituição administrava entre US$ 800 milhões e US$ 850 milhões de órgãos estatais, incluindo cerca de US$ 380 milhões do Instituto de Previdência Social, responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões.

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O que aconteceu com o dinheiro dos clientes?

Após a intervenção, clientes ficaram temporariamente sem conseguir sacar ou transferir dinheiro. O Fundo de Garantia de Depósitos do Paraguai cobre até 228,3 milhões de guaranis por pessoa, o equivalente a aproximadamente US$ 38 mil. Segundo estimativas preliminares, o valor protege integralmente cerca de 97% dos depositantes do Ueno.

Quem tem valores acima do limite garantido ainda enfrenta incertezas sobre o reembolso. O Banco Central afirmou que buscará oferecer a maior proteção possível. Já o fundo de pensões estatal informou que os pagamentos aos aposentados continuarão normalmente, com a transferência dos beneficiários para outra instituição.

Por que Peña renunciou?

Nesta quarta-feira, 4, deputados da oposição formalizaram um pedido de impeachment contra o presidente, Peña, e o vice, Alliana. Entre as acusações estavam conflito de interesses, possíveis decisões favoráveis ao banco e questionamentos sobre a concentração de recursos públicos na instituição.

A crise piorou quando Horacio Cartes, ex-presidente e líder do governista Partido Colorado, anunciou apoio ao impeachment. A manifestação se tornou um revés político para Peña, que foi eleito em 2023 pela legenda. Horas antes de a Câmara dos Deputados analisar o pedido, Peña anunciou sua renúncia em um vídeo publicado nas redes sociais.

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“Tomei a decisão de apresentar minha renúncia à Presidência da República. Faço isso pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas”, afirmou.

Caso é comparado ao Banco Master

A crise do Ueno Bank passou a ser comparada ao caso do Banco Master, de Daniel Vorcaro, no Brasil. As duas instituições tiveram crescimento acelerado, receberam recursos de fundos de previdência e enfrentaram questionamentos sobre operações financeiras e relações com o poder público.

O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central brasileiro em novembro de 2025, e Vorcaro, controlador do banco, foi preso no âmbito de investigações sobre suspeitas de fraudes financeiras.

(*Com informações do Estadão Conteúdo, BBC, AP e AFP)

Fonte: Portal Terra
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