Crises políticas relâmpago são marca da política paraguaia; entenda

País tem histórico de disputas entre grupos do Partido Colorado e processos de impeachment acelerados; em 2012, presidente foi destituído em menos de 36 horas

5 nov 2026 - 14h05
Resumo
A renúncia de Santiago Peña encerrou uma crise detonada pela intervenção estatal no Ueno Bank e reforçou o histórico de instabilidade do Paraguai. Ameaçado por um impeachment relâmpago sob acusações de conflito de interesses e sem apoio de alas do Partido Colorado, ele deixou o cargo antes da votação. O caso remete à destituição expressa de Fernando Lugo em 2012 e aos protestos de 2017, evidenciando como as disputas internas da legenda governista seguem ditando a volatilidade do poder no país.
Santiago Peña renunciou nesta quinta-feira, 5, ao cargo de presidente do Paraguai
Santiago Peña renunciou nesta quinta-feira, 5, ao cargo de presidente do Paraguai
Foto: Antonio Masiello/Getty Images

A renúncia do presidente do Paraguai, Santiago Peña, nesta quinta-feira, 5, encerrou uma crise política que ameaçava seu governo e reacendeu o debate sobre a instabilidade institucional do país. O episódio tem precedentes na história recente paraguaia, marcada por disputas entre grupos políticos, tentativas de alterar a Constituição e processos de impeachment conduzidos em ritmo acelerado.

A crise ganhou força após a intervenção do Banco Central no Ueno Bank, instituição ligada a um grupo do qual Peña foi acionista até março de 2025. A medida deixou milhões de clientes sem acesso às contas e provocou protestos no país.

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Parlamentares da oposição apresentaram um pedido de impeachment contra o presidente, com acusações de conflito de interesses, uso indevido de recursos previdenciários e encobrimento de irregularidades. As denúncias também aprofundaram divergências dentro do Partido Colorado e enfraqueceram a sustentação política do governo.

Nesta quinta-feira, 5, o Congresso iniciou as discussões sobre o afastamento de Peña. O processo, porém, foi interrompido pela renúncia do mandatário antes da conclusão do caso.

A rapidez com que a crise se desenrolou remete a outros episódios da história política paraguaia. O caso mais emblemático ocorreu em junho de 2012, quando o então presidente Fernando Lugo foi afastado do cargo em um processo que durou menos de 36 horas. A rapidez da destituição provocou críticas de países vizinhos e levantou questionamentos sobre o respeito ao direito de defesa do mandatário.

Lugo havia chegado ao poder em 2008, encerrando seis décadas de hegemonia do Partido Colorado. Sem maioria no Congresso, enfrentava dificuldades para governar e perdeu o apoio de parte da coalizão que o havia levado à Presidência. O estopim para o impeachment foi um confronto entre policiais e camponeses durante uma operação de reintegração de posse em Curuguaty, que deixou 17 mortos.

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No dia seguinte ao episódio, a Câmara dos Deputados aprovou a abertura do processo de impeachment. O Senado conduziu o julgamento e, em poucas horas, decidiu pela destituição de Lugo. O vice-presidente Federico Franco assumiu o comando do país. O procedimento foi questionado por governos da região e levou à suspensão temporária do Paraguai do Mercosul.

Outro episódio de instabilidade ocorreu em 2017, durante o governo de Horacio Cartes. Naquele ano, aliados do presidente tentaram aprovar uma mudança constitucional que permitiria a reeleição presidencial, proibida pela Constituição de 1992, elaborada após o fim da ditadura de Alfredo Stroessner.

A proposta avançou em uma votação realizada de surpresa no Senado, em uma sessão paralela à oficial, na madrugada de 1º de abril. A iniciativa provocou protestos em Assunção, que terminaram com a invasão e o incêndio de parte do prédio do Congresso. Dezenas de pessoas ficaram feridas, e um jovem ligado ao Partido Liberal morreu após ser atingido por um disparo da polícia.

Por trás desses episódios está a influência do Partido Colorado, que domina o cenário político nacional há décadas. A legenda esteve à frente do país durante a ditadura de Stroessner e voltou a ocupar a Presidência em 2013, depois da vitória de Cartes. A exceção recente foi o governo de Lugo, entre 2008 e 2012.

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A força eleitoral do partido, no entanto, não significa unidade interna. A legenda é dividida em grupos rivais, entre eles o Honor Colorado, liderado por Cartes, e o Colorado Añetete, associado ao ex-presidente Mario Abdo Benítez. As disputas entre essas correntes influenciam a composição do governo, as votações no Congresso e a sustentação dos presidentes.

Durante o governo de Abdo Benítez, por exemplo, a oposição tentou abrir processos de impeachment em meio a crises políticas e denúncias contra a administração. As iniciativas não avançaram, em parte porque Cartes e seus aliados tinham influência decisiva no Congresso.

No caso de Peña, as divergências internas contribuíram para o enfraquecimento de seu governo, enquanto o vice-presidente Pedro Alliana, também ligado ao Honor Colorado e aliado de Cartes, recebeu apoio para assumir o comando do país.

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