Como navios se tornaram palco de surtos de contágio da peste à Covid, passando pelo hantavírus

Desde a peste medieval até a Covid, navios atravessam séculos como corredores clássicos de contágio, repetindo em alto-mar a mesma lógica de confinamento e medo. Em ambientes fechados onde pessoas se cruzam sem parar, surtos se espalham com facilidade, reacendendo a velha inquietação que acompanha embarcações desde que marinheiros genoveses levaram a "peste" à Europa.

13 mai 2026 - 14h18

De porta-aviões a navios de cruzeiro, da peste medieval à Covid, embarcações são um terreno ideal para a propagação de vírus devido à proximidade constante entre as pessoas a bordo. "O pior lugar para enfrentar uma epidemia, como um incêndio, é um espaço fechado e distante de qualquer socorro, como um navio em alto-mar", resumiu o historiador norte-americano Alfred Crosby em Epidemic and Peace, obra de 1918.

Imagem ilustrativa: depois do alerta internacional em torno do MV Hondius, a OMS supervisiona a evacuação dos passageiros.
Imagem ilustrativa: depois do alerta internacional em torno do MV Hondius, a OMS supervisiona a evacuação dos passageiros.
Foto: © businessnews / RFI

"O risco é duplo", analisa Jean-Pierre Auffray, presidente de honra da Sociedade Francesa de Medicina Marítima: "a transmissão da doença em terra e a infecção das pessoas a bordo". Segundo ele, navios continuam sendo ambientes fechados onde há contatos prolongados, repetidos e próximos, o que favorece a disseminação de certas epidemias, especialmente as transmitidas por via aérea, como gripe e Covid, e também as transmitidas por contato ou por alimentos, como os surtos de norovírus. Auffray publicará em junho o livro Infections en milieu maritime. (Infecções em ambiente marítimo, em tradução livre)

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O MV Hondius, cujos passageiros foram evacuados na semana passada, foi atingido por um hantavírus que pode ser transmitido por via aérea, mas "não estamos, neste momento, diante de uma epidemia", afirmou a ministra francesa da Saúde, Stéphanie Rist, nesta quarta-feira (13), diante de deputados.

Mais de 1.700 pessoas também estão confinadas a bordo de um navio de cruzeiro que chegou na noite de terça-feira (12) a Bordeaux, no sudoeste da França, após a morte de um passageiro e a suspeita de um surto de gastroenterite. Durante a pandemia de 2020, a Covid atingiu inúmeros navios, militares ou de cruzeiro, como o Zaandam, que vagou por dias com muitos doentes, rejeitado por vários países da América Latina antes de conseguir atracar na Flórida, ou o porta-aviões francês Charles de Gaulle, onde centenas de marinheiros foram infectados.

Navios de guerra e de cruzeiro são diferentes - mais espaçosos para civis - e transportam populações opostas - militares jovens e turistas aposentados. Mas as dinâmicas de contágio são semelhantes: as pessoas compartilham muitos equipamentos e se cruzam várias vezes ao dia.

"Aprendemos com a epidemia de Covid e houve melhorias" nos navios de cruzeiro, explica Auffray. "Melhoramos os sistemas de ventilação, o que ajuda a combater a propagação por aerossol. Em alguns navios grandes, há cabines dedicadas ao isolamento de doentes, com circuitos sanitários específicos para cuidados e descarte de resíduos, e há melhor formação dos médicos de bordo."

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Propagação de uma epidemia após o desembarque

Outra grande preocupação é a propagação de uma epidemia após o desembarque, e autoridades às vezes se recusam a permitir que navios contaminados atraquem. Nos séculos passados, passageiros e tripulações de embarcações em quarentena eram mantidos longe dos portos, em lazaretos, muitas vezes instalados em ilhotas.

"A ética não era a mesma; quarentena significava: 'vocês morrerão no barco e não venham nos contaminar'", lembra Auffray.

Os passageiros do Hondius foram todos desembarcados, mas é possível rastreá-los. "Hoje conseguimos identificar todas as pessoas que tiveram contato com alguém infeccioso", afirmou na terça-feira o epidemiologista francês Antoine Flahault, em entrevista coletiva.

Antes do transporte aéreo de massa, foram durante muito tempo os navios que espalharam epidemias, como a peste negra, trazida ao Mediterrâneo nos anos 1340 por marinheiros genoveses contaminados durante o cerco ao entreposto de Caffa, na Crimeia, quando cadáveres de soldados tártaros mortos pela peste foram catapultados sobre as muralhas pelo exército do Khan.

Ao voltar ao mar, os genoveses embarcaram e disseminaram a "morte [a peste]", que devastou a Europa e o norte da África. "Ai de nós que lançamos os dardos da morte sobre nossos parentes e vizinhos que vieram nos receber", escreveu à época o cronista italiano Gabriele de Mussis. "Enquanto falávamos com eles, enquanto nos abraçavam e beijavam, espalhávamos o veneno de nossos lábios."

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Com AFP

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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