Acordo entre EUA e Irã redesenha o Oriente Médio: Irã sai ganhando, rivais acendem alerta

18 jun 2026 - 14h51

O acordo entre os Estados Unidos e o ‌Irã -- o primeiro assinado por um presidente norte-americano e um iraniano desde a Revolução Islâmica de 1979 no Irã -- está sendo aclamado por seus defensores como o acordo do século.

Mas, para adversários de Teerã em todo o Oriente Médio -- de Israel aos países do Golfo e às facções no Líbano --, ele parece mais a maldição do século: um acordo que pode tornar o Irã mais seguro, mais legítimo ⁠e, em última instância, mais influente.

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O presidente dos EUA, Donald Trump, e o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, ‌assinaram o acordo provisório na quarta-feira, encerrando uma guerra de três meses. Trump optou por formalizá-lo em Versalhes, à margem da cúpula do G7, cenário amplamente visto como simbólico da reconstrução da ordem ‌internacional após um conflito.

O acordo de 14 pontos prorroga o ‌cessar-fogo por 60 dias, inclusive no Líbano, para permitir negociações para um acordo permanente e ⁠abordar questões como o programa nuclear do Irã.

"Para Washington e Teerã, este é um grande acordo -- o acordo do século, sem volta", disse o comentarista libanês Sarkis Naoum. "A probabilidade de sucesso supera o risco de fracasso. O Irã não pode suportar mais sofrimento econômico sob as sanções, e Trump não tem incentivo para iniciar uma nova guerra."

REVÉS PARA ISRAEL

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O analista israelense Danny Citrinowicz descreveu o acordo como uma "catástrofe" ‌estratégica. O que havia sido apresentado como uma campanha conjunta dos EUA e de Israel para enfraquecer, ou ‌mesmo derrubar, a República Islâmica transformou-se, ⁠em sua opinião, no ⁠reconhecimento do Irã por parte dos EUA.

"Fomos derrubar o regime com o apoio dos EUA e acabamos com Washington ⁠efetivamente conferindo legitimidade e fortalecendo o mesmo regime que queríamos ‌derrubar", disse Citrinowicz, pesquisador sênior ‌especializado no Irã do Instituto de Estudos de Segurança Nacional de Israel.

Segundo ele, o acordo não atende a nenhuma das principais exigências de Israel: não há restrições ao programa de mísseis do Irã nem a grupos aliados, e não há um caminho claro para o desmantelamento de ⁠suas instalações nucleares. Até mesmo a campanha de Israel no Líbano foi limitada pelo acordo de cessar-fogo imposto por insistência do Irã.

As consequências são tanto políticas quanto estratégicas. O acordo enfraquece a narrativa de Netanyahu sobre o Irã e expõe os limites de sua influência sobre um presidente dos EUA visto como estreitamente alinhado a Israel.

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Citrinowicz afirma que o ‌Irã ganhou margem de manobra e que o acordo corre o risco de consolidar sua posição, ao mesmo tempo em que aprofunda o isolamento de Israel. "Tudo é ruim", disse ele sem rodeios. "E só ⁠vai piorar."

Se o acordo se mantiver, o Irã deve garantir o resultado mais favorável: o fim da guerra, o alívio gradual das sanções, a retomada das exportações de petróleo e a perspectiva de vastos recursos para a reconstrução -- além da aceitação implícita de seu sistema político.

Washington, por outro lado, fica aquém das metas que compartilhava com Israel: derrubar o establishment clerical, desmantelar o programa nuclear do Irã e conter seu alcance regional. Em vez de redefinir a posição do Irã, o acordo a restaura.

Os EUA e Israel iniciaram a guerra contra o Irã em 28 de fevereiro, assassinando o líder supremo aiatolá Ali Khamenei, de 86 anos, e outras figuras importantes nos primeiros dias. O conflito se intensificou, matando mais de 7.000 pessoas, principalmente no Irã e no Líbano, ao mesmo tempo em que elevou os preços da energia e aumentou os temores de uma crise alimentar nos países em desenvolvimento.

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