Antes da COP31, crise energética fortalece argumento econômico da urgência da ação climática

Foram dez dias de negociações intensas, mas o clima da SB64 - a última grande reunião técnica antes da próxima COP31, concluída nesta quinta-feira (18) - foi mais calmo do que o do ano passado, apesar de a geopolítica fora das salas de reunião, em Bonn, na Alemanha, estar mais turbulenta do que nunca.

18 jun 2026 - 14h02
(atualizado às 14h55)

Vivian Oswald, em Bonn para a RFI

Terminou em Bonn, na Alemanha, a última reunião técnica antes da COP 31, em novembro, na Turquia. Imagem de 16 de junho de 2026.
Terminou em Bonn, na Alemanha, a última reunião técnica antes da COP 31, em novembro, na Turquia. Imagem de 16 de junho de 2026.
Foto: © UN Climate Change | Lara Murillo / RFI

A sensação geral é a de que os quase 200 países presentes entenderam que o momentum já está dado e que, diante da crise energética global sem precedentes e da pressão que ela exerce sobre a inflação, os juros e o endividamento, cresce também entre a população a percepção de que é preciso reduzir a dependência dos combustíveis fósseis.

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Para o secretário-executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), Simon Stiell, nada disso significa que as diferenças tenham sido resolvidas. Ainda há muito o que discutir até lá, e a polarização continua enorme.

"E simplesmente não podemos nos dar ao luxo de reabrir decisões anteriores, renegociar metas existentes ou retroceder", afirmou no último dia do encontro, sob um calor de rachar na Alemanha e em boa parte da Europa, que está sob alerta de onda de calor extremo.

Stiell afirmou que todas as partes devem se sentir confortáveis e confiantes para reafirmar os compromissos globais já assumidos, sem selecionar apenas aqueles que lhes convêm taticamente em determinado momento.

"Compromissos assumidos no primeiro Balanço Global; compromissos que respondem à ciência e ao limite de 1,5 grau; sobre Perdas e Danos; sobre os US$ 300 bilhões; sobre os US$ 1,3 trilhão; sobre triplicar o financiamento para adaptação; e muito mais. Estas são as bases", disse ele.

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O secretário-executivo destacou ainda que tem insistido com a presidência turca da COP31 e com a presidência australiana do processo negociador para que tragam ministros para as discussões entre agora e a cúpula de Antália, na Turquia, onde será realizada a próxima edição da conferência.

Rumo à COP31

Em novembro, o bastão da presidência será passado do Brasil para essa dupla liderança. O modelo de condução do regime climático internacional será diferente a partir daí, com dois países compartilhando a responsabilidade pela coordenação do processo.

Stiell afirmou com todas as letras que as tensões geopolíticas do momento atravessaram as salas de negociação. E isso ficou claro para quem circulou pelos corredores do World Conference Center Bonn, onde negociadores e técnicos do mundo inteiro - com exceção da representação oficial dos Estados Unidos - estiveram reunidos.

Os americanos já não estiveram presentes formalmente no ano passado, desde que seu presidente, Donald Trump, anunciou que, mais uma vez, retiraria o país do Acordo de Paris. Também não estiveram representados oficialmente na COP30, em Belém.

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Mas não é inteiramente correto dizer que os Estados Unidos não participaram dos debates em Bonn. Cerca de 75% do PIB americano esteve representado na SB64 por governos estaduais, empresas e organizações da sociedade civil.

Presença americana

O grupo America Is All In, que representa 25 estados, 300 grandes empresas e mais de 3.000 organizações - responsáveis, segundo seus próprios cálculos, por uma economia maior do que a da China - reuniu-se com negociadores à margem das reuniões formais. O objetivo foi acompanhar o andamento das discussões e mostrar o que continua sendo feito nos Estados Unidos, apesar dos esforços do governo federal em direção contrária.

Em suas palavras finais, no encerramento do encontro em Bonn, Simon Stiell disse que é preciso evitar o que percebeu em algumas salas de negociação: uma tendência recorrente ao individualismo, ou ao que chamou de "primeirismo".

"Grupos se recusando a cumprir compromissos ou permitir que o processo avance, a menos que outros o façam primeiro", explicou.

Essa é, segundo ele, uma receita para o impasse, justamente quando é fundamental que todas as frentes de negociação avancem rapidamente.

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Ainda há muito a ser negociado até a COP31, e nada estará acertado até que tudo esteja acertado, como repetem os interlocutores em Bonn. Mas o que tem oferecido uma dose de confiança aos participantes é a percepção de que, se no ano passado prevaleceram a urgência climática, a necessidade de encontrar caminhos comuns e o argumento moral para agir, neste ano, diante do agravamento da conjuntura internacional - em níveis que muitos sequer imaginavam possíveis -, os argumentos econômicos e de segurança passaram a falar ainda mais alto.

Isso reforça a ideia de que o momento para agir é agora.

"Sob pena de perder-se de vez o momentum", resumiu uma fonte do UNFCCC.

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