A urna eletrônica brasileira, ao completar 30 anos, destaca-se como segura e eficiente, enquanto outros países com sistemas eletrônicos adotam abordagens diversas, refletindo diferenças culturais, institucionais e tecnológicas.
A urna eletrônica no Brasil completa 30 anos no dia 13 de maio, consolidada como um dos sistemas de votação mais seguros e eficientes do mundo. No entanto, o país não é o único a adotar o voto eletrônico.
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Um levantamento do Instituto Internacional para a Democracia e Assistência Eleitoral (Idea) aponta que ao menos 34 países utilizam algum tipo de tecnologia eletrônica em processos eleitorais, seja em eleições nacionais, subnacionais ou em consultas específicas. E cada nação tem seu próprio modelo de urna.
Veja como são as urnas eletrônicas em outros países:
Diferenças nos formatos
Dos 34 países que utilizam algum tipo de sistema eletrônico de votação, segundo levantamento do Instituto Internacional para a Democracia e Assistência Eleitoral (Idea), 17 adotam a urna eletrônica do tipo gravação direta (DRE). O Brasil faz parte desse grupo, ao lado de países como Índia, França, Peru e Paraguai.
Nos países que utilizam esse modelo, o voto é digitado e registrado digitalmente na própria máquina. Em alguns casos, o sistema é híbrido, com a impressão de um comprovante físico do voto, que pode ser utilizado para fins de auditoria.
Na Índia, por exemplo, os eleitores votam por meio de símbolos que representam os partidos políticos, em vez de números. Entre as opções estão figuras como um papagaio, um pente, uma manga ou uma flor de lótus. As urnas são maiores e têm formato retangular, semelhantes a uma prancheta. O uso de símbolos foi adotado como forma de incluir pessoas das camadas mais pobres da população e eleitores analfabetos.
Apesar dessas diferenças, o procedimento diante da urna é semelhante ao brasileiro. Protegidos por uma cabine, para garantir o sigilo do voto, os eleitores escolhem o símbolo desejado e confirmam a opção, com um sinal sonoro que indica o registro do voto. Em seguida, é possível visualizar, por uma pequena janela de acrílico em um compartimento semelhante a uma impressora acoplada ao equipamento, um papel de auditoria que comprova a escolha feita.
A urna indiana também conta com o botão “NOTA”, sigla para None of the Above (“nenhuma das anteriores”), equivalente ao voto em branco no Brasil. Para evitar que uma mesma pessoa vote mais de uma vez, ao deixar a seção eleitoral o eleitor recebe uma marca de tinta em um dos dedos, aplicada em posição e tamanho padronizados. A marca pode permanecer visível de dois dias a até um mês e é considerada uma solução de baixo custo para prevenir fraudes, além de se tornar uma das imagens mais emblemáticas das eleições indianas.
De acordo com o Idea, em alguns países os sistemas eletrônicos de votação são utilizados de forma limitada ou complementar. É o caso da Austrália e do México, onde o voto eletrônico remoto convive com o voto em papel, geralmente destinado a eleitores que vivem no exterior ou a pessoas com necessidades especiais.
Já países como Canadá e Iraque utilizam sistemas eletrônicos de leitura de cédulas, nos quais o eleitor marca o voto em papel, mas a apuração é realizada por meio de scanners, o que agiliza a contagem.
Há ainda experiências mais específicas, como a da Coreia do Sul, que mantém o voto em papel nas eleições principais, mas utiliza sistemas de votação pela internet, conhecidos como K-Voting, em situações pontuais, como eleições internas de partidos e consultas específicas.
Por que nenhum outro país usa a urna do Brasil?
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não respondeu aos questionamentos do Terra. Especialistas ouvidos pela reportagem, no entanto, afirmam que a ausência do modelo brasileiro em outros países não indica falha do sistema, mas reflete diferenças institucionais, culturais e tecnológicas entre as democracias.
A cientista política Maria do Socorro Sousa Braga, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), explica que a tendência internacional não aponta para a adoção de um modelo totalmente digital como o brasileiro. “A maioria das democracias que utilizam tecnologia eleitoral tem migrado para sistemas híbridos ou com o VVPAT (Voter Verifiable Paper Audit Trail — rastro de papel auditável pelo eleitor)”, afirma.
Embora o modelo brasileiro não ser replicado em outros países, a pesquisadora ressalta que singularidade não deve ser vista, necessariamente, como algo positivo ou negativo. Segundo Maria do Socorro, o caráter exclusivo do sistema brasileiro oferece proteções relevantes ao processo eleitoral.
Entre os principais pontos, a especialista destaca:
- Imunidade a falhas globais: por ser um sistema proprietário, desenvolvido e mantido exclusivamente pela Justiça Eleitoral, o Brasil não fica exposto a falhas, bugs ou ataques que possam atingir softwares comerciais utilizados simultaneamente por diversos países.
- Independência de fornecedores estrangeiros: o país não depende de empresas multinacionais para atualizações ou suporte técnico, reduzindo riscos associados a pressões geopolíticas ou à interrupção de serviços.
- Isolamento de redes internacionais: as urnas brasileiras não são conectadas à internet ou a redes externas, o que dificulta ataques cibernéticos em larga escala comuns em outros sistemas.
Para o cientista político e sociólogo Rodrigo Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o modelo brasileiro está entre os mais avançados do mundo. “O modelo brasileiro é seguro. Os dados comprovam isso, os fatos comprovam isso. Ele já passou por diversas eleições sem qualquer registro de fraude comprovada”, afirma.
Ele reforça que a adoção do modelo em outros contextos poderia gerar interpretações distorcidas no Brasil caso ocorresse algum problema fora do país. “Se uma urna no modelo brasileiro for usada em outro país e lá houver fraude, isso pode ser explorado politicamente aqui, mesmo que o problema não esteja na tecnologia em si”, explica.
O professor ressalta que a segurança do processo eleitoral não depende apenas da ferramenta tecnológica, mas de um conjunto de fatores internos a cada país, como cultura política, qualidade institucional, interesses em disputa e mecanismos de controle. “A urna é uma ferramenta. O problema nunca é só a tecnologia, mas quem a utiliza, como utiliza e com quais objetivos”, diz.
Nesse contexto, Prando destaca a importância da Justiça Eleitoral brasileira, que é especializada e não existe em muitos países. Para ele, essa estrutura institucional fortalece a transparência, a fiscalização e a capacidade de resposta rápida diante de desinformação, especialmente em cenários de polarização política e disseminação de fake news. “Não é apenas a urna que garante segurança e confiança no processo eleitoral, mas também instituições sólidas, éticas e comprometidas com a democracia”, aponta.
Questionamentos sobre o modelo de urna no Brasil
Rodrigo Prando destaca que, embora existam narrativas que questionam a confiabilidade da urna, essas histórias nunca se sustentaram diante de perícias nacionais e internacionais, incluindo observadores, universidades e até as Forças Armadas. “Você tem aí um conjunto de atores sociais e políticos engajados e muito sérios que fizeram a avaliação e nunca comprovaram nenhum tipo de brecha para fraudes”.
Carolina Botelho, doutora em ciência política IESP/UERJ e vinculada ao laboratório SANI/INCT, afirma que parte da população que desacredita nas urnas, um equipamento tantas vezes testado e aperfeiçoado, se dá muito mais pela ideologia, as crenças e os valores do que pela discussão tecnológica do equipamento.
“Esse segmento da população desacredita acima de tudo dos instrumentos de controle democrático e da própria democracia. Não adianta mostrar o funcionamento da máquina, assim como todos os testes de segurança, porque não é essa a questão. O interesse desse grupo não é verificar a falseabilidade, mas de construir argumentos que possam ser utilizados na prática para erodir e descredibilizar tudo que esteja associado a institucionalidade democrática”, diz Carolina Botelho.
Ao analisar os desafios futuros do sistema, os cientistas políticos ressaltaram a importância da educação política e da qualidade do voto, além do avanço de tecnologias disruptivas e a preservação da confiança pública. "A urna eletrônica representa um avanço na confiabilidade das eleições brasileiras, mas seu êxito depende do compromisso dos cidadãos com os princípios democráticos", ressaltou Rodrigo Prando.