Fernanda Lomba apresenta a "Cinemateca Negra" como uma inflexão no modo de compreender o cinema brasileiro, ao consolidar um acervo até então disperso e, muitas vezes, invisibilizado. "[O livro] muda exatamente a organização desse pensamento e a organização da memória negra no cinema brasileiro. O que me permite, inclusive, ter a expectativa de que muda a forma como a gente pensa cinema brasileiro", afirma. Segundo ela, o levantamento, que reúne 1.104 obras produzidas entre 1949 e 2022, estabelece uma referência incontornável para pesquisadores, gestores e realizadores, além de tensionar leituras consolidadas sobre a história do audiovisual no país.
Ao estruturar essa memória, o projeto também se projeta como ferramenta de reorganização do debate contemporâneo no setor. "Agora, com um documento que é uma fonte incontornável, não é possível ignorar qual tem sido a contribuição negra à criação e ao pensamento de cinema brasileiro nas últimas sete décadas", diz Lomba. Para a cineasta, o impacto ultrapassa a dimensão simbólica e alcança temas concretos, como financiamento, acesso e políticas culturais. "Reposiciona, para a nossa contemporaneidade, uma nova forma de pensar cinema, de fazer cinema e, consequentemente, de discutir formas de financiar o nosso cinema."
Embora conte com menção institucional na abertura da publicação, a iniciativa não é estatal, ressalta Lomba. "A Nicho 54 tem buscado uma autonomia de projeto, enquanto organização brasileira, que vem trabalhando a partir de um pensamento negro brasileiro", afirma. Segundo ela, a parceria com o Ministério da Cultura tem caráter simbólico, sem comprometer a independência metodológica e política do trabalho. "Foi importante contar com algumas palavras da ministra pela sua representação simbólica, mas isso não é uma iniciativa pública do Ministério da Cultura."
A própria existência de um acervo dessa natureza expõe um apagamento histórico persistente, avalia Lomba. "A nossa existência vinha sendo ignorada", diz. Ao comentar a baixa familiaridade do público com cineastas negros de gerações anteriores, ela aponta para dinâmicas estruturais do campo cultural. "Tem a ver com todo um ecossistema de poder dentro do próprio campo do cinema, que decide quem deve ou não deve fazer parte da história oficial da produção artística e simbólica."
Nesse sentido, a "Cinemateca Negra" surge como resposta direta a um processo de exclusão que, segundo a cineasta, ainda se manifesta de forma concreta. "Esse projeto não existiu antes por uma persistência colonial, de apagamento", afirma. Para ela, a recepção da iniciativa em 2024 indica que há hoje maior disposição para reconhecer essa lacuna histórica, embora o problema esteja longe de ser superado.
A discussão ganha contornos mais concretos quando confrontada com dados recentes do setor audiovisual. Ao comentar estatísticas da Agência Nacional do Cinema (Ancine), que indicam forte concentração de diretores brancos em produções de maior orçamento, Lomba destaca a importância de pesquisas sistemáticas. "A maior dificuldade é materializar uma experiência violenta que qualquer artista ou empresário negro no Brasil sabe que existe", afirma. Segundo ela, a ausência de dados contribui para a desqualificação do debate público.
Financiamento e estrutura
Para a produtora, o enfrentamento das desigualdades passa necessariamente pela revisão dos mecanismos de financiamento. "Se a gente não tiver condições de rediscutir como a distribuição de financiamento se organiza, não há nenhuma outra discussão artística que vai ter condições de se estabelecer", afirma. Lomba observa que o setor audiovisual brasileiro depende majoritariamente de recursos públicos, o que torna ainda mais urgente a revisão de critérios e políticas de acesso.
Nesse contexto, a "Cinemateca Negra" desempenha também uma função estratégica, ao fornecer dados e evidências que podem orientar decisões institucionais. "Me interessa muito poder olhar para o futuro de uma forma totalmente diferente do que foi feito até agora, incluindo a discussão financeira", diz. A publicação, bilíngue e estruturada em ensaios, infográficos e catálogo de obras, busca justamente ampliar a base empírica do debate.
A trajetória do projeto, no entanto, foi marcada por obstáculos, inclusive internos, relata a cineasta. "Foi difícil de ser compreendido do ponto de vista da gestão", afirma. Segundo ela, a complexidade da iniciativa exigiu ajustes ao longo do processo, tanto na condução quanto na articulação institucional.
Além das dificuldades operacionais, Lomba destaca dimensões subjetivas e simbólicas do percurso. "A resistência que eu precisei exercer foi de quem está lidando com o racismo estrutural no Brasil", afirma. Para ela, a condução do projeto se insere em uma história longa de desigualdades, que remonta a mais de quatro séculos. "A minha experiência através de gerir esse projeto é uma experiência radical de liberdade", atesta.
O lançamento internacional da "Cinemateca Negra", em diálogo com iniciativas e agentes de outros países, como durante o Festival de Cannes, no sul da França, também integra a estratégia do Nicho 54. Em Paris, onde participou de encontros ligados ao circuito cinematográfico, Lomba tem buscado estabelecer conexões que possam reverberar no Brasil. "Venho estabelecendo relações acerca do que pensamos sobre o cinema no mundo de hoje, como a potência e o senso de liberdade que as imagens carregam", afirma.
Entre essas articulações está o diálogo com o cineasta Abderrahmane Sissako, referência do cinema africano contemporâneo. "Tive a honra de jantar com ele e fazer o convite para vir ao Brasil como convidado de honra do Festival Nicho", diz. Para Lomba, esse tipo de intercâmbio pode fortalecer tanto a circulação internacional quanto o debate interno no país. "Tenho certeza de que esse tipo de relação privada vai ser suficientemente forte para movimentar a cena cultural na esfera pública."