Nos anos 1980, a Fórmula 1 vivia um de seus períodos mais selvagens. Estamos falando da era dos turbos, quando os motores entregavam potências absurdas e os carros exigiam coragem quase irracional de quem os guiava. Foi nesse ambiente que a Lotus encontrou seu novo protagonista: um brasileiro chamado Ayrton Senna.
O talentoso piloto chegou ao time em 1985 e naquela temporada conquistou duas vitórias: em Portugal e na Bélgica. Embora tenha enfrentado problemas, o promissor brasileiro era visto como um dos favoritos para a temporada 1986.
E a Lotus apostava no 98T, novo carro projetado pelo engenheiro francês Gérard Ducarouge, para transformar a velocidade de Senna em campeonato. O modelo era uma evolução direta do 97T.
Sob a carroceria, o 98T escondia uma verdadeira máquina de guerra. O motor era o Renault EF15B, um V6 turbo de 1,5 litro que representava o ápice daquele período. Em configuração de corrida, rendia cerca de 900 cv de potência. Nas voltas de classificação, quando a pressão do turbo era elevada ao extremo, o número podia chegar a algo próximo de 1.200 cv.
O mesmo chassis também levou Senna à pole position no GP de San Marino, em Ímola, embora a corrida tenha terminado cedo, após a quebra de um rolamento de roda na volta 11.
Mesmo assim, o brasileiro voltou ao pódio em outras etapas importantes da temporada. Terminou o GP de Mônaco em terceiro lugar e foi segundo em Spa.
A melhor demonstração de sua capacidade de recuperação viria no GP de Detroit. Senna conquistou ali sua quarta pole position da temporada. A corrida, no entanto, começou complicada: uma troca de marcha errada lhe custou a liderança, e um furo de pneu na volta 14 o obrigou a parar nos boxes, caindo para a oitava posição.
O que veio depois foi uma daquelas suas atuações geniais. Senna começou a ultrapassar adversário após adversário até assumir novamente a liderança e vencer a corrida. O segundo colocado, Jacques Laffite, cruzou a linha mais de 30 segundos atrás.
A "aposentadoria" do Lotus 98T
Apesar das vitórias e das poles, a campanha acabou prejudicada por problemas mecânicos. Senna terminou o campeonato em quarto, enquanto Alain Prost, com a McLaren, conquistava seu segundo título mundial.
O Lotus 98T também marcaria o encerramento de uma era histórica na Fórmula 1. A temporada de 1986 foi a última com as famosas cores preto e dourado da John Player Special. A marca de cigarros deixou a categoria ao final daquele ano, sendo substituída pela Camel.
Depois de se aposentar das pistas, o 98T-3 passou por diferentes coleções dedicadas ao automobilismo até ser adquirido pelo atual proprietário em 2016. O carro foi restaurado pela Paul Lanzante Ltd, especializada em máquinas históricas de competição, e hoje está totalmente funcional.
Ou seja: não se trata apenas de um objeto de coleção. É um carro pronto para voltar à pista — e oferecer ao próximo dono algo a chance de sentir, ainda que por alguns minutos, a brutalidade mecânica que Ayrton Senna domou durante a temporada de 1986.
Os lances pelo carro começaram no último dia 4 de março. E, quando um Lotus desses aparece, não se leiloa apenas um carro. Leiloa-se um pedaço da própria história da Fórmula 1.