"Você escolhe quando quer ganhar." É com essa promessa que a Uber atrai novos motoristas em sua página de cadastro, destacando o pagamento rápido como uma das principais vantagens da plataforma. Na prática, porém, motoristas parceiros relataram nos últimos dias não conseguir movimentar os valores recebidos pelas corridas, com casos de bloqueio superiores a 24 horas para acesso aos ganhos.
Quem usou o aplicativo no domingo, 26, pode ter encontrado dificuldades adicionais: usuários também relataram problemas para solicitar corridas e aumento no tempo de espera. Mas as reclamações mais graves vieram dos motoristas — alguns ficaram mais de 24 horas sem conseguir realizar transferências.
Em um dos casos, o montante retido era de cerca de R$ 1 mil. "Isso prejudica nosso planejamento do mês, com mil reais eu pago a parcela do financiamento do carro", contou um motorista que não quis se identificar e que atua em aplicativos de transporte, incluindo Uber e 99.
Uber promete normalidade
As queixas se espalharam por grupos e redes sociais, com condutores mencionando a possibilidade de reduzir o uso da plataforma e priorizar outros aplicativos diante das dificuldades para acessar o próprio dinheiro.
Procurada, a Uber não respondeu diretamente aos questionamentos enviados pela reportagem. Em nota, a empresa informou que "a instabilidade técnica que afetou temporariamente saques e operações na Uber Conta, produto do Digio, banco digital do Bradesco, foi integralmente solucionada na data de hoje, 27 de abril", e orientou os parceiros a recorrerem aos canais oficiais de suporte em caso de dúvidas.
Motoristas ganham cerca de R$ 35 por dia, diz estudo
O episódio ocorre em um contexto de fragilidade financeira estrutural para essa categoria. Um estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), com base em dados de mais de 13 mil motoristas de aplicativos na América Latina, aponta que o ganho médio desses trabalhadores é de cerca de US$ 7 por hora — aproximadamente R$ 35 —, o que, em uma jornada de 44 horas semanais, resultaria em pouco mais de R$ 6 mil mensais brutos, valor que ainda precisa cobrir despesas como combustível, manutenção do veículo e custos pessoais.
Segundo o levantamento, a atividade costuma funcionar como complemento de renda ou alternativa em períodos de desemprego e crise — um "amortecedor" econômico, mas não necessariamente uma carreira estável. O BID pondera que o trabalho em plataformas não resolve o problema do emprego, mas também não configura, por si só, uma armadilha de precarização, refletindo desafios estruturais do mercado de trabalho na região, como a informalidade e a instabilidade da renda.