O iFood e a 99 estão entre os principais financiadores de uma aposta de R$ 304,5 milhões para acelerar a produção nacional de motos elétricas e criar uma nova cadeia industrial voltada à eletromobilidade de duas rodas no Brasil. A iniciativa foi divulgada na quinta-feira (14) e é estruturada pela YvY Capital, que pretende viabilizar a fabricação e comercialização de 600 mil motocicletas elétricas até 2035 e destravar mais de R$ 5 bilhões em investimentos na próxima década.
O movimento, porém, vai além do incentivo à adoção de motocicletas elétricas. O plano prevê a criação de uma estrutura industrial completa, incluindo produção local de veículos, motores, baterias, componentes eletrônicos, infraestrutura de recarga e reciclagem. Em um país onde motocicletas são ferramenta de trabalho para milhões de pessoas, o projeto tenta atender também este público.
A 99 anunciou aporte superior a R$ 45 milhões para se tornar investidora âncora do Fundo de Eletromobilidade de Duas Rodas da YvY Capital. O iFood já participava da iniciativa desde março. Juntas, as empresas integram a Aliança pela Mobilidade Sustentável, grupo formado por 31 companhias voltadas à expansão da eletrificação no Brasil.
O projeto surge em um mercado estratégico. O Brasil possui atualmente cerca de 30 milhões de motocicletas em circulação, consolidando-se como o maior mercado ocidental do segmento.
A expectativa é atingir 40 milhões de unidades até o fim da década. Entre esses usuários, aproximadamente 3 milhões dependem diariamente da moto para geração de renda.
É justamente nesse grupo que a eletrificação pode encontrar seu principal motor econômico. Segundo estimativas ligadas ao fundo, a substituição gradual por modelos elétricos permitiria reduzir entre 30% e 60% os custos com combustível e manutenção.
"O investimento é importante porque os veículos elétricos colaboram com o meio ambiente ao reduzir emissões e também diminuem custos de abastecimento e manutenção em até 60%, aumentando a renda líquida dos entregadores", afirma Thiago Hipolito, diretor de inovação da 99.
Embora o discurso ambiental apareça como argumento central, o plano também aposta na reindustrialização. O fundo pretende apoiar desde instalação de fábricas até desenvolvimento de startups, plataformas de compartilhamento, gestão de frotas e soluções financeiras para ampliar o acesso aos veículos.
"A plataforma brasileira de veículos elétricos de duas rodas tem potencial para transformar o mercado nacional em 10 anos, impulsionando a neo-industrialização e o adensamento produtivo do Brasil", afirma Bruno Aranha, da YvY Capital. Segundo ele, o projeto prevê novas plantas industriais voltadas à fabricação de motocicletas, motores, baterias e infraestrutura relacionada.
Na prática, a iniciativa tenta resolver um dos principais gargalos da eletrificação brasileira: criar oferta local antes que a demanda amadureça plenamente. Sobretudo em um mercado onde as motocicletas estão cada vez mais em alta (entenda no link).
O desafio será transformar investimento em escala industrial e convencer consumidores — especialmente motociclistas profissionais — de que motos elétricas podem fazer sentido financeiramente.