O Volvo XC60 se tornou, ao longo dos anos, um dos carros mais importantes da fabricante sueca. É o modelo mais vendido da marca no mundo e ajudou a consolidar a Volvo na era dos SUVs premium. Agora, porém, a empresa prepara uma substituição gradual — e o sucessor não é simplesmente uma versão elétrica do utilitário atual.
O carro do vídeo acima é o novo EX60, SUV médio que inaugura uma geração tecnológica dentro da marca sueca. O modelo é o primeiro da plataforma SPA3 e traz arquitetura elétrica de 800 volts, bateria integrada à carroceria, inteligência artificial do Google (Gemini) e sistemas de segurança capazes de adaptar o funcionamento do cinto ao perfil físico do ocupante e ao tipo de colisão.
Na prática, o EX60 parece menos um sucessor do XC60 e mais uma demonstração do que a Volvo imagina para seus carros na próxima década. São mudanças que vão além de alterações de direção. Trata-se da primeira plataforma que a Volvo desenvolveu para que carros totalmente elétricos, não uma adaptação de arquiteturas já existentes.
Assim como a Volvo, durante sua vida, o arquiteto reestruturou casas para deixá-las mais atraentes. É o caso da Casa Batllò, da imagem acima. Gaudí repaginou o edifício e o tornou um dos mais visitados do mundo.
Guadí, porém, não era somente um arquiteto de "obra pronta". Ele também desenvolveu conceitos relevantes para a arquitetura. Um deles está nas colunas "tortas" da Sagrada Família, basílica que está em construção há 144 anos.
É difícil imaginar uma edificação com uma coluna inclinada, certo? Gaudí buscou na natureza esse tipo de referência. E foi na ramificação dos galhos de árvores que ele encontrou a solução para criar uma das obras mais relevantes já projetadas.
Indo ao encontro das grandes revoluções da arquitetura de Gaudí, a Volvo também quis reordenar a sua produção de veículos movidos apenas a eletricidade. Nasceu, portanto, a nova plataforma SPA3 da Volvo, que vai abrigar somente propulsão elétrica nos carros da marca.
A SPA3 abandona a lógica de dezenas de módulos independentes e passa a trabalhar com integração mais profunda. O carro utiliza bateria estrutural, chamada de megacasting — grandes peças únicas de alumínio substituindo dezenas de componentes menores. O sistema conta com computação centralizada e atualizações remotas constantes.
Não é apenas um XC60 elétrico
Visualmente, o EX60 mantém ligação clara com o XC60 atual. E isso parece intencional. Em vez de romper totalmente com o desenho do SUV mais vendido da marca, a Volvo optou por evoluir sua identidade.
Mas o novo modelo também absorve elementos do EX90, sobretudo na dianteira mais limpa e na eliminação da grade frontal tradicional. E aqui peço licença para fazer novamente o paralelo entre Volvo e Gaudí. Ambos mantêm um DNA forte: o formato da coluna C do carro, com curvas, é o mesmo desde a primeira geração do EX60 e em outros modelos da fabricante (sedãs e hatches).
Assim como as casas sem arestas de Gaudí são um marco nas construções de Barcelona. O resultado é um SUV que tenta equilibrar herança visual e modernização. O capô ficou mais baixo. A coluna A mais inclinada. A silhueta cria a impressão de um carro é mais esportivo. E o teto desce de forma mais agressiva em direção à traseira. O objetivo vai além da estética.
Segundo a Volvo, o EX60 é o veículo mais aerodinâmico já produzido pela marca, com coeficiente de arrasto de apenas 0,26 — número baixo para um SUV desse porte e que influencia diretamente autonomia, ruído interno e eficiência energética.
Na lateral, a plataforma elétrica permitiu alongar o entre-eixos para 2,97 metros, quase 10 cm acima do XC60 atual. Isso alterou as proporções do veículo, reduziu balanços e deslocou a cabine para frente.
Apesar do lançamento do EX60, o XC60 ainda continuará nos planos da Volvo. Segundo a executiva, o utilitário esportivo híbrido permanece relevante na estratégia global. "O XC60 faz parte do futuro da marca", afirmou Lorina.
A permanência do XC60, no entanto, virá acompanhada de mudanças. Segundo Felipe Yagi, head de marketing, consumer experience e communications da Volvo Cars para Brasil e América Latina, o modelo atual passará por uma atualização mais ampla nos próximos ciclos de produto.
Isso indica que a Volvo pretende manter a convivência entre elétricos puros e híbridos durante a transição da marca.
Além disso, a Volvo confirmou que o novo sedã elétrico topo de gama, o ES90, chegará ao Brasil no meio do ano (entre junho e julho) para ser uma nova opção para o consumidor que não quer um SUV, mas gostaria de andar com um carro da marca sueca por aí.
Mais botões e mais computação
O interior talvez seja o ponto onde o EX60 mais explicita a transformação da Volvo, mostrando que a marca não segue tudo que é ditado pela China.
É verdade que a cabine elimina quase totalmente comandos físicos. Mas a companhia parece ter feito um mea culpa e corrigido a rota de carros anteriores que, no esforço de reduzir o número de botões, acabavam prejudicando a usabilidade e até mesmo a segurança.
Segundo Louise Annermalm, gerente de design de interiores da Volvo Cars, comandos físicos para os vidros elétricos retornaram ao projeto depois do feedback recebido pela marca em diferentes mercados.
"Nós ouvimos clientes e também a imprensa. Por isso, alguns comandos físicos voltaram", explicou durante apresentação do modelo. Assim, em vez de ter dois botões que alternam entre as janelas dianteiras e traseiras, agora há quatro botões para que o motorista consiga distinguir com segurança qual janela será acionada.
Esse movimento vai na direção oposta de parte da indústria, que concentrou praticamente todas as funções nas telas centrais nos últimos anos.
No caso do EX60, a central multimídia é uma tela OLED de 15 polegadas responsável por controlar praticamente todas as funções do carro: climatização, navegação, carregamento, multimídia e modos de condução. Mas o mais importante é que os comandos para climatização, modos de pilotagem e alguns ajustes do veículo passaram a ficar fixos na tela, o que garante que um acionamento mais intuitivo.
Mais importante que a tela, porém, é o sistema por trás dela. O EX60 estreia integração com o Gemini, inteligência artificial do Google. Na prática, o carro passa a operar como um assistente digital capaz de receber comandos em linguagem natural relacionados a navegação, pesquisa, climatização ou entretenimento.
A real é que o EX60 é quase um celular sobre rodas. E pode ser atualizado de forma remota. Isso significa que o veículo comprado hoje pode ganhar novos recursos no futuro sem necessidade de mudanças físicas.
O painel de instrumentos é uma tela de 10,4 polegadas e fica afastado do motorista, assim como nos carros da Peugeot. A ideia é deixar o interior mais esportivo, uma vez que o volante passou a ter uma raio menor para não atrapalhar a visão do motorista. E a pegada na peça ficou bastante prazerosa, parecendo o volante de um bólido.
Acabamento com novos materiais
Mas não é só isso que o faz ser um veículo premium. O acabamento também segue nova direção. O EX60 utiliza materiais reciclados, madeira certificada, tecidos sustentáveis e revestimentos livres de cromo. De acordo com a chefe de design de interiores da Volvo, a madeira está presente na base do painel central e, segundo a marca, 27% do carro utiliza materiais reciclados.
Com foco em adaptar do modelo aos desejos do consumidor, o posicionamento do porta-luvas também mudou. Segundo Louise, ele foi colocado em posição mais central para facilitar igualmente o acesso do motorista e do passageiro.
"A distância é praticamente a mesma para os dois ocupantes", explicou. O detalhe parece pequeno, mas mostra como ergonomia e uso cotidiano influenciaram decisões do projeto.
Louise afirma que o desenvolvimento do interior envolveu clínicas com consumidores de diferentes regiões do planeta. Segundo ela, o objetivo foi entender expectativas culturais distintas sem perder a identidade escandinava da marca. "Sempre levamos em consideração clientes do mundo todo", garantiu a especialista.
Carro com inteligência artificial
Outro destaque do EX60 está menos ligado ao motor ou à bateria e mais à forma como o carro interpreta o ambiente ao redor. A Volvo anunciou uma integração inédita entre o Gemini, inteligência artificial do Google, e as câmeras do SUV elétrico. Com autorização do motorista, o sistema poderá analisar o entorno em tempo real para responder perguntas sobre o trajeto, reconhecer placas ou até explicar pontos de referência vistos pela janela. A ideia é que o carro deixe de ser apenas um meio de transporte conectado e passa a atuar como uma espécie de assistente do condutor.
Não foi possível fazer o teste durante o lançamento do carro, mas a Volvo garante que, ao se aproximar de uma vaga, o EX60 poderá ler placas, interpretar restrições, horários permitidos, exigência de credenciais ou regras para carregamento elétrico e traduzir tudo para o motorista.
A novidade também será aplicada ao Google Maps com o chamado "Immersive Navigation", sistema que transforma o percurso em visualizações tridimensionais de túneis, prédios e cruzamentos complexos. Segundo a Volvo, a ideia é tornar a navegação mais intuitiva ao aproximar orientações por voz do que o condutor efetivamente vê na rua.
A bateria como parte da estrutura do veículo
Uma das mudanças técnicas mais relevantes aparece em algo que o motorista provavelmente nunca verá. O EX60 utiliza o conceito "cell-to-body", no qual as células da bateria deixam de funcionar apenas como armazenamento de energia e passam a integrar estruturalmente a carroceria. Isso ajuda a aumentar a rigidez estrutural, reduzir peso e ampliar o espaço interno.
Outra novidade é o megacasting. Em vez de dezenas de peças metálicas unidas por solda, partes da estrutura passam a ser produzidas em peças únicas de alumínio, o que aumenta a rigidez.
Segurança continua prioridade, aponta Volvo
A Volvo criou o cinto de segurança em 1959 e não exigiu pagamento de royalties pela sua invenção pois acreditava que todas as fabricantes deveriam adotar o sistema para salvar vidas. Assim, durante décadas, é inegável dizer que segurança foi sinônimo de Volvo. No EX60, essa tradição continua, mas agora com forte apoio da tecnologia.
O que parecia ser somente um dispositivo de retenção virou o "cinto de segurança multi adaptativo". Com a aplicação de sensores no cinto, agora ele consegue calcular a velocidade da colisão, direção do impacto, posição do motorista e passageiros no banco, calcular o peso do ocupante e até características físicas da pessoa.
Com isso, o sistema adapta automaticamente a força exercida pelo cinto conforme o usuário. E não é só por isso que ele passa a ser o Volvo mais seguro já feito. Ao aliar também utiliza radares, câmeras e sensores internos para monitorar fadiga, atenção do motorista e até detectar ocupantes esquecidos no interior do carro, o EX60 conta também com um pacote completo de auxílio ao condutor.
Carregamento em minutos
A nova arquitetura elétrica de 800 volts está entre os principais destaques tecnológicos do EX60. E isso é uma herança do grupo Geely, pois essa plataforma já estreou no Brasil nos carros da Zeekr, o 001 e o 7X. Segundo dados preliminares da Volvo, a autonomia da versão testada pelo Jornal do Carro é de 660 km no ciclo europeu (WLTP) e seu carregamento pode recuperar até 340 km em cerca de dez minutos. Por suportar até 400 Watts de potência no bocal de carregamento, a bateria do EX60 pode ser recarregada de 10% a 80% em aproximadamente 16 minutos.
A versão que chega ao Brasil entre outubro e novembro é a Ultra, topo de gama. E o conjunto mecânico é denominado P10, intermediário, pois, globalmente, o EX60 terá três configurações mecânicas. A versão de entrada utiliza tração traseira e entrega 374 cv de potência.
Acima dela aparece a variante P10 com tração integral, 510 cv, 72,4 kgfm de torque e 0 a 100 km/h em 4,6 segundos.
Já a configuração topo de linha P12, também com tração nas quatro rodas, entrega 680 cv, 80,5 kgfm e atinge os 100 km/h em 3,9 segundos.
O Jornal do Carro rodou nas versões P6 e P10. Dizer que o P6 já seria suficiente não é totalmente verdade. Pode até ser em termos de equipamento, mas falta uma pimenta no desempenho.
A P10 é, sim, suficiente. Aceleração em menos de cinco segundos, para um SUV de mais de duas toneladas, não é tarefa fácil e esse carro consegue cumprir essa prova de forma bastante digna.
E mais: por ter tração integral e uma dinâmica apurada, com balanços dianteiro e traseiro curtos por causa da nova plataforma — que permitiu colocar as rodas bem afastadas — trouxe a sensação do carro ser menor do que ele realmente é.
O resultado disso é o pouquíssimo balanço da carroceria, seja em acelerações, frenagens e curvas. Um modelo muito equilibrado em todos os sentidos.
Com essa dinâmica e acelerações vigorosas, interior requintado e amplo, além da lista de equipamentos de segurança, a Volvo mostra que não é só por estar em um grande conglomerado que ainda é uma marca de relevância no mercado. É a junção da tradição, preocupação com a vida a bordo e da tecnologia que faz da Volvo a marca que muitos consumidores almejam colocar na garagem.
Ficha técnica do Volvo EX60 Ultra P10:
- Comprimento: 4,80 m
- Largura: 1,90 m
- Altura: 1,63 m
- Entre-eixos: 2,97 m
- Porta-malas: 523 litros
- Porta-malas dianteiro: 58 litros
- Potência: 510 cv
- Torque: 72,4 kgfm
- 0 a 100 km/h: 4,6 s
- Autonomia: até 660 km (WLTP)
- Carregamento DC: até 400 kW
- Sistema elétrico: 800 volts
- Suspensão dianteira: double wishbone
- Suspensão traseira: multilink de cinco braços
- Multimídia: OLED 15,04?
- Painel de instrumentos: 10,4"