No que você pensa quando falamos sobre o futuro dos carros? eles vão voar? bailar sobre as águas? ou vão responder às pungentes necessidades da sociedade? João do Amaral Gurgel ousou traduzir essas reflexões em realidade e tentar criar um carro popular genuinamente brasileiro.
O inventor, que morreu em 2009, faria 100 anos nesta quinta-feira, 26.
Antes de prosseguir na jornada de conhecer a história de um dos principais visionários brasileiros, eu te convido - amável audiência - a se questionar como, de fato, é a construção de um futuro. Vamos lá? Prepare-se, vamos viajar um pouco.
Os Jetsons - famoso desenho dos anos 60 - imaginavam o futuro com toda sua estrutura nos ares. E o que a sociedade estadunidense vivia naquele momento? Acertou quem disse: a corrida espacial. A animação não falava apenas de futuro, falava do sonho americano de conquistar as estrelas. E, nesse contexto, os carros estavam lá…voando.
Em outra perspectiva, Wakanda (cidade fictícia do filme 'O Pantera Negra') traz a visão de uma sociedade que construiu seu futuro tendo a ancestralidade como pilar, com veículos que não voam, mas vibram força e tecnologia. Não à toa, o herói nasceu no auge do movimento pelos direitos civis nos EUA.
Como João Amaral Gurgel pensou o futuro
Mas em terras tropicais, como imaginamos nosso futuro automobilístico?
João Augusto Conrado do Amaral Gurgel ousou responder a essa pergunta. Não em palavras, mas em produção. Analisando o Brasil da década de 1970, ele tentou colocar em prática o que o presente clamava e o futuro esperava. E, a partir de agora, a gente mergulha nessa jornada.
Futurismo brasileiro automotivo
O futuro se constrói no presente. E é por isso que ver um BR-800 é sinônimo de viradas de pescoço e olhares admirados. Seja pelo design incomum, pelas proporções quase "caseiras" ou pelas soluções fora do padrão da indústria, um Gurgel ainda chama atenção por onde passa.
Mais do que estética, cada carro conta uma tentativa de construir uma indústria automotiva genuinamente popular no Brasil e, como diria seu fundador, "muito nacional". Com essa abordagem, ele combatia a ideia de que apenas multinacionais conseguiam vender carros localmente.
Hoje, dia 26 de março, se estivesse vivo, Gurgel comemoraria 100 anos. Tido como um homem à frente do seu tempo, João sabia não só olhar para o futuro, mas também para as necessidades da população.
Para Gurgel, futuro era prático, não fantasia
Hoje temos carros que flutuam, automóveis com salas de estar em seu interior e modelos que nem precisam de condutores. Mas Gurgel não pensava em um futuro com vários "penduricalhos" e sim em um presente prático.
O engenheiro apostou em uma lógica simples de mecânica descomplicada, manutenção acessível e adaptação a terrenos irregulares - tudo o que o Brasil dos anos 1970 precisava. Não por acaso, modelos como o X12 ganharam fama justamente onde o asfalto acabava.
Ele também foi pioneiro no uso do chamado Plasteel, uma combinação de fibra de vidro com estrutura reforçada, que dispensava chapas metálicas tradicionais. Mais leve, resistente à corrosão e mais viável para a realidade industrial brasileira.
Carro elétrico? Gurgel fez
Mas o mais impressionante vem agora: décadas antes de se tornarem tendência global, vieram os veículos elétricos como o projeto Itaipu, ainda visto como experimental na época.
Em 1974, com pelo menos 40 anos de vantagem sobre a Tesla, ele apresentou no Salão do Automóvel o Gurgel Itaipu (E150), batizado em homenagem à usina que ainda estava sendo construída.
O Itaipu foi o primeiro carro elétrico desenvolvido na América Latina. Era um minicarro urbano de dois lugares com um design futurista. Gurgel entendia que, para as cidades, um carro elétrico pequeno e ágil era a solução lógica para o trânsito e para a poluição.
Porém, como o E150 não passou da fase de protótipos e poucas unidades produzidas, Gurgel evoluiu a ideia para o Itaipu E400 em 1981. Esse, sim, foi o primeiro carro elétrico produzido em série no Brasil.
Era um furgão utilitário robusto, vendido principalmente para frotas de empresas estatais como a Telebrás e a Eletropaulo, que o utilizavam para serviços urbanos onde a autonomia limitada não era um problema.
O gosto que fica
Aproveitando que nesta quinta-feira, 26, também é dia do cacau, é importante dizer que, assim como a semente pura, a história do Gurgel não é doce. Como você já sabe a esta altura, o futuro imaginado por ele ainda não chegou.
O E400 não vingou por diversos motivos, desde a tecnologia das baterias até o custo para compra e manutenção.
Nos anos 1990, com a abertura econômica, o aumento da concorrência e a falta de escala, o projeto perdeu fôlego. Enfrentar gigantes globais exigia mais do que inovação e pensamento futurista. Diante disso, a empresa encerrou suas atividades e, com isso, colocou fim a uma das poucas tentativas de consolidar uma indústria automotiva genuinamente brasileira.
No fim, a história de Gurgel não é apenas sobre carros, e sobre protagonismo brasileiro na construção de sua própria identidade. Como o futuro pode trazer boas surpresas, quem sabe surjam outros "Gurgéis" que ajudem a construí-lo.