O fim dos carros baratos? Por que a China interveio na guerra de preços das montadoras

Objetivo é evitar concorrência desleal e a oferta de veículos por valores inferiores ao custo de produção

24 mar 2026 - 08h30

Não é só no Brasil que os preços agressivos dos carros chineses chamam a atenção. Na própria China, o fenômeno atingiu um nível crítico, levando o governo a estabelecer regras que impedem as montadoras de venderem modelos por valores inferiores ao seu custo de produção.

O objetivo é frear a guerra de preços desenfreada e estimular o retorno das marcas à lucratividade. Atualmente, existe mais de uma centena de fabricantes no país — a maioria pouco sustentável a longo prazo devido à dificuldade em alcançar rentabilidade.

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Em 2025, o preço médio do carro na China foi de US$ 24 mil, segundo a Associação de Carros de Passageiros da China. O valor é 7% inferior ao do ano anterior, o que contraria a lógica natural de um mercado em expansão.

Como o governo chinês vai impedir a guerra de preços

Por meio da Administração Estatal de Regulamentação de Mercado (SAMR), o governo chinês divulgou um documento de "orientação de preços" para as fabricantes. Caso as empresas desrespeitem as diretrizes, estarão sujeitas a consequências legais.

As novas regras para a composição de preços proíbem práticas como:

  • Vender modelos atualizados pelo mesmo preço de versões de categoria inferior;
  • Oferecer descontos ou subsídios que deixem o preço final abaixo do valor de custo;
  • Utilizar vendas corporativas (frotistas) para disfarçar reduções de preços ao consumidor final;
  • Entregar volumes de veículos superiores ao faturado (bonificações "por fora");
  • Praticar o dumping (preço abaixo do custo) para eliminar concorrentes ou ganhar domínio de mercado.

Essas orientações são pilares de qualquer cartilha de livre concorrência, mas, surpreendentemente, haviam deixado de funcionar no aquecido mercado chinês. A intervenção ocorre justamente no momento em que Pequim reduz os subsídios diretos ao consumidor.

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Medida pode esfriar as vendas de veículos

Em entrevista ao South China Morning Post, o setor de varejo demonstrou preocupação. "As novas diretrizes vão esfriar o interesse de compra dos consumidores este ano, com queda nas entregas devido à retirada gradual da isenção de impostos", afirmou Zhao Zhen, diretor de vendas da concessionária Wan Zhuo Auto, em Xangai.

Segundo ele, o governo quer que as montadoras parem de buscar o volume de vendas cegamente às custas da saúde financeira. Até o ano passado, os carros elétricos contavam com uma isenção de 10% no imposto de compra; este ano, o incentivo caiu para 5% e deve ser totalmente extinto até 2028.

Sem a intervenção do governo, a tendência natural seria que as montadoras aumentassem os descontos para compensar o fim dos subsídios estatais e manter as vendas aquecidas. Agora, com os preços "travados", é provável que muitos consumidores cancelem ou posterguem a compra do carro novo.

Saúde financeira em risco

Apesar de amarga para o consumidor, a mudança é vista como vital para a sobrevivência da indústria. Até mesmo a BYD, uma das poucas marcas que opera no azul, registrou queda superior a 30% no lucro líquido no terceiro trimestre do ano passado.

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Essa falta de rentabilidade gera um efeito cascata que atinge toda a cadeia de suprimentos. Pressionadas financeiramente, algumas montadoras chegavam a demorar até um ano para pagar fornecedores de autopeças e tecnologia.

Com as novas regras, o governo espera normalizar esses ciclos de pagamento e garantir a sustentabilidade do ecossistema automotivo chinês.

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