Que o GS3 é o carro-chefe da GAC no Brasil, você já sabe. E viu aqui no Jornal do Carro que ele chega com preço bastante competitivo: R$ 139.990 para a versão de entrada Premium e R$ 159.990 para a topo de linha Elite. Nesse valor, não é possível adquirir as versões topo de linha dos seus principais concorrentes, como Jeep Renegade, Hyundai Creta e Volkswagen T-Cross.
Mas o mais importante é que, por esse preço, quase não é possível comprar outro carro com 170 cv de potência ou mais. O único à disposição é o Jeep Renegade, que já vem com motor de 176 cv e 27,5 kgfm de torque desde a configuração Sport de entrada, que custa R$ 120 mil.
Veja os preços dos concorrentes e as respectivas potências dos motores:
Partindo desses dados, é possível perceber que o único carro com tanta ou mais potência e torque que o GS3 é o Jeep Renegade, com o motor 1.3 turboflex da Stellantis. O Creta entrega o mesmo desempenho, mas cobra muito mais por isso.
Não colocamos o novo Nissan Kicks na jogada porque o modelo da marca japonesa só vem equipado com motor 1.0 turbo de 125 cv e 22,4 kgfm, deixando de concorrer em termos de desempenho com os rivais que oferecem duas opções de propulsor. Assim, ele fica bem distante dos 170 cv e 25,5 kgfm do GS3.
E vale mais uma ressalva: o novo Jeep Renegade será apresentado na próxima semana e não contará mais com a versão de entrada Sport de R$ 118.290 por conta da chegada do Avenger, o novo SUV de entrada da marca americana.
E, para quem gosta de comparar ficha técnica, vale dizer que, dentre os concorrentes do GS3, somente o Hyundai Creta é mais veloz que o utilitário chinês na prova de 0 a 100 km/h. O Hyundai cumpre a prova em 7,8 segundos, enquanto o GS3 chega à mesma velocidade em 8,1 segundos, de acordo com a marca.
Sobre o consumo de combustível, o GS3 alcança médias, segundo o Inmetro, de 10,2 km/l na cidade e 11,6 km/l na estrada. Esses números são mais baixos do que os 11,9 km/l em perímetro urbano e 13,5 km/l no rodoviário registrados pelo Creta.
Dimensões
O SUV tem 4,41 m de comprimento, 1,85 m de largura, 1,60 m de altura e 2,65 m de entre-eixos. Para se ter noção, um T-Cross tem 4,21 m de comprimento, 1,76 m de largura, 1,57 m de altura e 2,65 m de entre-eixos.
Apesar de o entre-eixos ser o mesmo do carro da VW, o GS3 é 20 cm mais comprido e tem 9 cm a mais de largura. Isso quer dizer que ele se assemelha a um Jeep Compass, que tem 4,40 m de comprimento, 1,81 m de largura, 1,63 m de altura e 2,63 m de entre-eixos.
E não é só na ficha técnica que ele se mostra espaçoso. Na prática, ao entrar na parte de trás da cabine, o carro tem bastante espaço para que dois adultos viajem com conforto no banco traseiro. Só não cabem três adultos confortavelmente na segunda fileira por não haver espaço suficiente para os ombros.
O passageiro do meio pode acomodar os pés com tranquilidade, uma vez que não há duto central. O pênalti fica no fato de haver apenas uma porta USB para carregamento de celular e a saída de ar oferecer apenas uma única opção de direcionamento, o que pode resfriar um passageiro enquanto os outros passam calor.
O bagageiro, no entanto, deixa a desejar. São apenas 341 litros, o que o coloca entre os menores da categoria, superando apenas o Jeep Renegade, que tem 320 litros. Até o T-Cross, que não é referência nesse quesito, tem 32 litros a mais. Somente a versão topo de linha vem equipada com abertura e fechamento elétrico da tampa do bagageiro.
Ainda na parte do bagageiro, o local onde a tampa retrátil do porta-malas fica presa pode gerar dor de cabeça para o consumidor caso quebre. A peça parece ser bem frágil e, pior: não é em baixo-relevo, esculpida no plástico, como na maioria dos carros. É uma peça que avança para fora e pode ser facilmente quebrada se não houver cuidado ao colocar malas mais pesadas.
Passando para a dianteira, os bancos são bastante confortáveis para encarar viagens longas. Porém, só o motorista tem mimos como ajustes elétricos e refrigeração do assento. Os demais passageiros — nem mesmo o da dianteira — não contam com esses recursos.
A central multimídia é bastante grande, com 14,6 polegadas, e já vem com conexão Android Auto e Apple CarPlay. Contudo, no pouco tempo que tivemos com o carro, dá para perceber que existe um sistema de câmera 360º que aparece na central assim que a seta é acionada (tanto para a direita quanto para a esquerda).
O que incomoda é que as informações do celular, como a navegação pelo Waze, somem quando a imagem das câmeras aparece na central multimídia. E isso não é um problema exclusivo do GS3, pois veículos chineses como o Geely EX5 também apresentam a mesma característica. Isso atrapalha na hora de dirigir.
Outra tela disponível na cabine é o painel de instrumentos de 7 polegadas. Este painel parece maior porque é ladeado por dois outros painéis digitais que, sinceramente, são bastante ultrapassados. Parece o painel de um carro do início da década passada.
Ao volante
O carro é esperto, mas não empolga tanto. Com aceleração de 0 a 100 km/h em 8,1 segundos, é melhor que boa parte dos rivais, mas nada que tire o fôlego do motorista. No modo esportivo, o carro responde bem. Mas, mesmo com o pouco tempo de teste, dá para perceber que ficaria mais complicado fazer ultrapassagens com cinco adultos e porta-malas cheio.
O acelerador eletrônico do carro, entretanto, é o grande calcanhar de Aquiles do modelo. Foi calibrado com bastante atraso (delay), ou seja, ao acelerar, demora para responder. E não é a demora do turbo, mas sim um mau ajuste eletrônico. Demora cerca de um segundo para responder ao afundar o pé e também demora o mesmo tempo para deixar de acelerar quando o motorista tira o pé do pedal. Isso pode, inclusive, causar pequenos acidentes no anda e para das grandes metrópoles. Será preciso se acostumar com o carro e ser cauteloso no início.
O sistema de suspensão é, sim, macio. Mas chega a ser em demasia em algumas situações, sobretudo quando é preciso mudar de direção rapidamente em alta velocidade. Dá para sentir a rolagem da carroceria de forma acentuada.
E o isolamento acústico deixou a desejar. O carro é equipado com três modos de condução: Eco, Comfort e Sport. Com o modo esportivo ativado, a rotação do motor chega a mais de 5.500 rpm, o que faz o ruído aumentar bastante na cabine. E, mesmo em condução tranquila, passar ao lado de caminhões é incômodo, pois, mesmo com as janelas fechadas, o barulho invade a cabine em excesso (comprove no vídeo acima).
Ouro de tolo
A pirita é um mineral dourado que engana pela semelhança com o ouro, mas não possui um valor real. O GAC GS3 pode se assemelhar a esta metáfora, uma vez que tem personalidade no design, uma lista de equipamentos exemplar, uma ficha técnica de dar inveja, mas nada disso se reflete na prática.
O carro tem ótimo espaço interno, bom acabamento, central multimídia que enche os olhos e um motor bastante potente. Entretanto, a sua dinâmica precisa de ajustes urgentes, o painel de instrumentos é obsoleto, o porta-malas é um dos menores do segmento e o isolamento acústico não pode nem ser chamado de "isolamento".
Pelo preço, é um custo-benefício interessante. Porém, a GAC terá de deixá-lo nessa faixa (entre R$ 130 mil e R$ 160 mil) para ganhar a preferência do consumidor brasileiro. Pois, se ao sair da concessionária, o cliente optar por fazer test-drive em algum concorrente, ele certamente não voltará na chinesa para levar o GS3 para casa.