Do 3 a 0 à vida real: haitianos mudam bairro no centro de São Paulo

Rede de comércio, cultura e acolhimento criada por imigrantes transforma o Glicério e recria paisagem urbana de Porto Príncipe

19 jun 2026 - 23h42

O imigrante haitiano Jean Paul Estivel compara a vitória do Brasil sobre seu país pela Copa do Mundo, nesta sexta-feira, ao coração de um homem apaixonado por duas mulheres. "É difícil escolher. Ficamos divididos. Não lamento muito a derrota, só um pouquinho", diz o artesão de 46 anos, sete meses em São Paulo, aproximando o polegar e o indicador.

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Boa parte dos moradores do Glicério, região central, entende esse sentimento. O local mudou de cara nos últimos anos por causa da intensa imigração haitiana. Esse pedaço do Cambuci se transformou em uma pequena Porto Príncipe paulistana.

Movimentação de haitianos na Igreja Nossa Senhora da Paz, no bairro do Glicério: paróquia organizou um telão para o povo haitiano
Movimentação de haitianos na Igreja Nossa Senhora da Paz, no bairro do Glicério: paróquia organizou um telão para o povo haitiano
Foto: Tiago Queiroz/Estadão / Estadão

O Estadão foi ver como torce o "adversário". Adversário tem de ser assim, com aspas, por que os haitianos adoram falar que amam o Brasil. Lamentaram a derrota, mas sem clima de velório.

Alguns haitianos afirmam gostar gostar do Brasil desde Pelé, muito do Jogo da Paz, em 2004. "Usamos o nome de Pelé como adjetivo", diz o professor de francês Legba Ceridor, de 42 anos.

Essa admiração não se mostrou ser incondicional ao longo do jogo. Quando o gol de Raphinha foi anulado, perto dos 15, os haitianos comemoraram como gol. E celebraram outras chances perdidas pelo rival. No começo do segundo tempo, o salão já tinha esvaziado. Mas as barraquinhas de comida, do lado de fora, estavam cheias.

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Para entender bem essa atmosfera, é preciso dar alguns passos atrás e olhar ao redor da rua do Glicério. Logo abaixo da fachada vermelha da galeria Haiti Shop, vitrines exibem tênis, calças, perucas e infinitos produtos do Caribe. Dos 18 estabelecimentos, dez pertencem a haitianos.

Festa dos haitianos no início do jogo na Igreja Nossa Senhora da Paz, no bairro do Glicério.
Foto: Tiago Queiroz/Estadão / Estadão

Na calçada, Alice vende marmitas de peixe com banana-da-terra em embalagens de isopor. Jovens conversam em crioulo. O cheiro bom da comida, os sons e as cores fazem o visitante esquecer que está no centro de São Paulo. Muito antes dessa partida, os dois países já se trombavam pelas ruas.

Oásis para quem chega

A festa para assistir ao jogo foi organizada pelos próprios imigrantes na sede da Missão Paz. Outras festas também são feitas ali, no salão principal. É um auditório grande onde o palco exibe um telão e, abaixo, um pôster da seleção caribenha.

Foi nesse espaço que milhares de haitianos encontraram abrigo após o terremoto de 2010, que matou mais de 200 mil pessoas e desencadeou uma das maiores ondas migratórias da história recente do Caribe.

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"Entre 2014 e 2016 tivemos o momento mais forte da migração haitiana. Uma estrutura foi montada para abraçar os haitianos de corpo e alma", afirma o padre Irmani Borsatto, que pertence à Congregação dos Scalabrinianos, ordem religiosa católica se dedica ao acolhimento a migrantes e refugiados.

Hoje, a Casa do Migrante, mantida pela instituição, dispõe de 110 vagas para acolhimento temporário. Na manhã de segunda-feira, 15, 104 delas estavam ocupadas. Mas a relação já ultrapassou a necessidade de abrigo.

Haitiano mostra adereço com as bandeiras dos dois países na Igreja Nossa Senhora da Paz, no bairro do Glicério
Foto: Tiago Queiroz/Estadão / Estadão

Os haitianos se referem ao espaço como "bo pé a", expressão que significa "bom padre" ou "bom pastor" em crioulo, como explica a advogada Eliza Donda, coordenadora Jurídica e de Proteção.

Novo rosto do centro

O perfil da migração haitiana mudou nos últimos anos. Mulheres, crianças e idosos vêm chegando em número crescente. Em 2023 e 2024, o número de registros de residência de mulheres haitianas superou o de homens pela primeira vez, de acordo com a Agência da ONU para Refugiados.

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"Primeiro vinha uma pessoa para trabalhar e se estabelecer. Depois trazia a família. É um movimento observado em vários fluxos migratórios pelo mundo", explica a pesquisadora Poliana Fonseca, do Centro de Estudos Migratórios.

Os haitianos estão concentrados em ocupações de baixa/média qualificação, como a fabricação de produtos alimentícios (30,6% em 2024) e produção de bens e serviços industriais (65,6% em 2024), ainda de acordo com a ONU.

Os rendimentos, na maioria dos casos, não ultrapassam dois salários mínimos. O comércio tem sido uma alternativa. Mas a vida é dura. O comerciante Joanest, que prefere divulgar apenas o primeiro nome, admite as dificuldades. "É difícil vender. As roupas ficam aí muito tempo", afirma.

A cabeleireira Abel Marthine é uma das histórias de sucesso que circulam entre os recém-chegados. Depois de trabalhar como babá e garçonete, economizou cerca de R$ 5 mil para abrir um salão de beleza em frente à Missão Paz. O negócio mistura salão e loja de cosméticos.

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Casos assim ajudam a alimentar o imaginário de quem ainda pensa em migrar. Só no passado chegaram cerca de 1200 haitianos a São Paulo de acordo com o Núcleo de Estudos de População Elza Berquó (NEPO) da Unicamp.

Entre os recém-chegados está o agente de segurança Jean Rossiny, de 26 anos. Antes de chegar ao Brasil no passado, ele viveu três anos na Turquia. Diz que enfrentou dificuldades para regularizar sua situação migratória e decidiu recomeçar por aqui. "Lá havia muita pressão sobre os imigrantes. O Brasil é mais tranquilo".

Tranquilo só até a página 2 - ou até o minuto 23 do primeiro tempo, quando Mateus Cunha abriu o placar. Aí acabou a tranquilidade de Jean na Copa do Mundo.

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