O imigrante haitiano Jean Paul Estivel compara a vitória do Brasil sobre seu país pela Copa do Mundo, nesta sexta-feira, ao coração de um homem apaixonado por duas mulheres. "É difícil escolher. Ficamos divididos. Não lamento muito a derrota, só um pouquinho", diz o artesão de 46 anos, sete meses em São Paulo, aproximando o polegar e o indicador.
Boa parte dos moradores do Glicério, região central, entende esse sentimento. O local mudou de cara nos últimos anos por causa da intensa imigração haitiana. Esse pedaço do Cambuci se transformou em uma pequena Porto Príncipe paulistana.
O Estadão foi ver como torce o "adversário". Adversário tem de ser assim, com aspas, por que os haitianos adoram falar que amam o Brasil. Lamentaram a derrota, mas sem clima de velório.
Alguns haitianos afirmam gostar gostar do Brasil desde Pelé, muito do Jogo da Paz, em 2004. "Usamos o nome de Pelé como adjetivo", diz o professor de francês Legba Ceridor, de 42 anos.
Essa admiração não se mostrou ser incondicional ao longo do jogo. Quando o gol de Raphinha foi anulado, perto dos 15, os haitianos comemoraram como gol. E celebraram outras chances perdidas pelo rival. No começo do segundo tempo, o salão já tinha esvaziado. Mas as barraquinhas de comida, do lado de fora, estavam cheias.
Para entender bem essa atmosfera, é preciso dar alguns passos atrás e olhar ao redor da rua do Glicério. Logo abaixo da fachada vermelha da galeria Haiti Shop, vitrines exibem tênis, calças, perucas e infinitos produtos do Caribe. Dos 18 estabelecimentos, dez pertencem a haitianos.
Na calçada, Alice vende marmitas de peixe com banana-da-terra em embalagens de isopor. Jovens conversam em crioulo. O cheiro bom da comida, os sons e as cores fazem o visitante esquecer que está no centro de São Paulo. Muito antes dessa partida, os dois países já se trombavam pelas ruas.
Oásis para quem chega
A festa para assistir ao jogo foi organizada pelos próprios imigrantes na sede da Missão Paz. Outras festas também são feitas ali, no salão principal. É um auditório grande onde o palco exibe um telão e, abaixo, um pôster da seleção caribenha.
Foi nesse espaço que milhares de haitianos encontraram abrigo após o terremoto de 2010, que matou mais de 200 mil pessoas e desencadeou uma das maiores ondas migratórias da história recente do Caribe.
"Entre 2014 e 2016 tivemos o momento mais forte da migração haitiana. Uma estrutura foi montada para abraçar os haitianos de corpo e alma", afirma o padre Irmani Borsatto, que pertence à Congregação dos Scalabrinianos, ordem religiosa católica se dedica ao acolhimento a migrantes e refugiados.
Hoje, a Casa do Migrante, mantida pela instituição, dispõe de 110 vagas para acolhimento temporário. Na manhã de segunda-feira, 15, 104 delas estavam ocupadas. Mas a relação já ultrapassou a necessidade de abrigo.
Os haitianos se referem ao espaço como "bo pé a", expressão que significa "bom padre" ou "bom pastor" em crioulo, como explica a advogada Eliza Donda, coordenadora Jurídica e de Proteção.
Novo rosto do centro
O perfil da migração haitiana mudou nos últimos anos. Mulheres, crianças e idosos vêm chegando em número crescente. Em 2023 e 2024, o número de registros de residência de mulheres haitianas superou o de homens pela primeira vez, de acordo com a Agência da ONU para Refugiados.
"Primeiro vinha uma pessoa para trabalhar e se estabelecer. Depois trazia a família. É um movimento observado em vários fluxos migratórios pelo mundo", explica a pesquisadora Poliana Fonseca, do Centro de Estudos Migratórios.
Os haitianos estão concentrados em ocupações de baixa/média qualificação, como a fabricação de produtos alimentícios (30,6% em 2024) e produção de bens e serviços industriais (65,6% em 2024), ainda de acordo com a ONU.
Os rendimentos, na maioria dos casos, não ultrapassam dois salários mínimos. O comércio tem sido uma alternativa. Mas a vida é dura. O comerciante Joanest, que prefere divulgar apenas o primeiro nome, admite as dificuldades. "É difícil vender. As roupas ficam aí muito tempo", afirma.
A cabeleireira Abel Marthine é uma das histórias de sucesso que circulam entre os recém-chegados. Depois de trabalhar como babá e garçonete, economizou cerca de R$ 5 mil para abrir um salão de beleza em frente à Missão Paz. O negócio mistura salão e loja de cosméticos.
Casos assim ajudam a alimentar o imaginário de quem ainda pensa em migrar. Só no passado chegaram cerca de 1200 haitianos a São Paulo de acordo com o Núcleo de Estudos de População Elza Berquó (NEPO) da Unicamp.
Entre os recém-chegados está o agente de segurança Jean Rossiny, de 26 anos. Antes de chegar ao Brasil no passado, ele viveu três anos na Turquia. Diz que enfrentou dificuldades para regularizar sua situação migratória e decidiu recomeçar por aqui. "Lá havia muita pressão sobre os imigrantes. O Brasil é mais tranquilo".
Tranquilo só até a página 2 - ou até o minuto 23 do primeiro tempo, quando Mateus Cunha abriu o placar. Aí acabou a tranquilidade de Jean na Copa do Mundo.