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Petrobras e Pemex: aliança estratégica ou gesto político?

20 ago 2026 - 14h46
Resumo
Petrobras e Pemex firmaram um acordo para cooperar na exploração de petróleo e biocombustíveis, celebrado pelos presidentes Lula e Claudia Sheinbaum. Apesar da complementaridade técnica entre a expertise brasileira em águas profundas e o potencial mexicano, especialistas veem o pacto com ceticismo. Por ser um documento não vinculativo, que esbarra em barreiras legais e altos custos no México, a aliança é apontada mais como um gesto político do que como um projeto econômico viável.

As duas petrolíferas estatais anunciam uma colaboração que pode ser benéfica para Brasil e México. Especialistas, no entanto, se mantêm céticos devido a experiências negativas do passado com forte peso político.Duas das maiores petrolíferas estatais da América Latina surpreenderam com o anúncio de uma aliança: a Petrobras e a mexicana Pemex assinaram um memorando de entendimento, inicialmente válido por dois anos, para cooperar na exploração e produção de hidrocarbonetos.

Elas também negociaram um segundo acordo, com foco no refino e na comercialização de biocombustíveis como o etanol.

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A notícia foi acompanhada por gestos de grande repercussão, como uma videochamada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua homóloga mexicana, Claudia Sheinbaum, na qual ambos endossaram a cooperação.

Especialistas consultados pela DW concordam que o potencial técnico é real, mas alertam que as questões políticas pesam mais do que a engenharia na aliança bilateral.

Complementaridade técnica, com nuances

No papel, as empresas se complementam: a Petrobras domina a exploração em águas profundas, enquanto a Pemex sofre com deficiências tecnológicas, mesmo conhecendo o terreno mexicano. "Claro que, em teoria, há complementaridade. A Petrobras é atualmente uma grande detentora de tecnologia para exploração em águas profundas. O Brasil é exportador de diesel e gasolina", explica Adriano Pires, consultor brasileiro de energia e doutor em Economia Industrial pela Universidade Sorbonne Paris Norte.

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Gonzalo Monroy, CEO da consultoria GMEC e especialista em petróleo e energia, concorda com Pires. "O Brasil tem vasta experiência em perfuração em depósitos de sal, o que permitiu a exploração na Bacia de Santos; no México, também existe potencial sob os depósitos de sal no Golfo".

Ele, porém, alerta para as letras miúdas: "há uma palavra no memorando que me deixa pouco otimista: afirma que o acordo não é vinculativo; nem a Pemex nem a Petrobras são obrigadas a investir nada". Na indústria do petróleo, sem muito dinheiro, nada funciona.

A longo prazo, um bom negócio

Para Elio Ohep, consultor independente e editor do site Energies.net, a parceria pode ser um bom negócio, mas apenas a longo prazo.

"A Petrobras tem vasta experiência em águas profundas e recursos financeiros consideráveis; a Pemex aprenderá com isso, e o México colherá os frutos", comenta o especialista venezuelano.

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Ele adverte, no entanto, que "obviamente, este é um projeto de longo prazo: cinco, dez, 15 anos".

Monroy destaca que, no México, após a contrarreforma do petróleo promovida pelo antecessor e mentor de Sheinbaum, Andrés Manuel López Obrador, não existem mecanismos legais e comerciais atrativos para que essa aliança se concretize.

"As estruturas atualmente previstas em lei, um contrato de prestação de serviços ou uma joint venture, não oferecem à Petrobras a rentabilidade necessária para investir no México", enfatizou.

Ohep também analisa com cautela o entusiasmo com que o acordo foi apresentado: "Sheinbaum o apresenta como algo concluído, e isso não é verdade. Não há nada de concreto, apenas um memorando de entendimento preliminar válido por dois anos."

Etanol, uma questão secundária

O segundo acordo entre as duas petrolíferas inclui biocombustíveis, mas Pires e Monroy o separam do núcleo energético do pacto. "O etanol é produzido no Brasil pelo setor privado, não pela Petrobras. Ele é misturado à gasolina por distribuidores", observa Pires, que é fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). Ele foi indicado em 2022 pelo governo brasileiro para chefiar a Petrobras, mas recusou a oferta.

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Monroy acrescenta ainda a pressão externa. "O México vem sendo pressionado para abrir seu mercado e comprar mais misturas de etanol; há pressão dos EUA, que produzem etanol à base de milho, e também do Brasil, que o extrai da cana-de-açúcar."

Ele também se mostra cético quanto aos benefícios. "Noventa e seis por cento da frota mexicana não está adaptada para funcionar com 10% de etanol. O máximo seria 6%." No Brasil, em contrapartida, até 30% de etanol são adicionados à gasolina E30, um número que o governo Lula quer aumentar para 32%.

A indústria automobilística brasileira também desenvolveu motores flex, que podem funcionar com ambos os combustíveis. Um sensor no sistema de controle eletrônico determina a mistura e faz ajustes automaticamente. Isso, por si só, exigiria a adaptação de toda a infraestrutura de transporte do México.

Monroy estima que isso acarretaria um custo enorme que a estatal petrolífera mexicana, altamente endividada, dificilmente poderia arcar. "A Pemex teria que investir entre 6 e 8 bilhões de dólares (R$ 31 e 41 bilhões) na adaptação de instalações de armazenamento e postos de gasolina."

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Pressão externa e calendário eleitoral

Segundo especialistas, o anúncio é motivado mais por cálculos políticos domésticos do que por um plano industrial. Sheinbaum está sob a sombra da renegociação do Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA) e da pressão de Washington sobre o mercado energético mexicano.

No Brasil, a descoberta de petróleo na foz do Amazonas, anunciada com a presença de Lula, ocorreu, segundo Pires, devido ao calendário eleitoral. "Esse evento aconteceu porque o Brasil está em ano eleitoral. Se não fosse esse o caso, não teria havido nenhum evento", afirma. Para o especialista, são necessários pelo menos mais quatro anos de análise para determinar se esse depósito amazônico é comercialmente viável.

Ohep enxerga uma condição para a sobrevivência da aliança entre as petrolíferas: "Esse acordo só continuará se Lula for reeleito", opina.

Como ambas as empresas são estatais, quando o governo muda, o curso dos acontecimentos também pode mudar, concorda Pires.

Lições deixadas por acordos anteriores

Os três especialistas consultados pela DW moderam suas expectativas com ceticismo histórico. Sem rodeios, Ohep resume que "a maioria dos memorandos de entendimento acaba sendo letra morta".

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Pires menciona o precedente que mais o preocupa: a parceria entre a Petrobras e a PDVSA da Venezuela durante os governos de Lula e Hugo Chávez, que resultou na refinaria de Recife, "a mais cara do mundo", manchada pelo escândalo de corrupção Lava Jato.

Ele enfatiza que esse projeto foi realizado sem nenhum investimento de capital venezuelano ou benefício para a Petrobras.

"Tenho receio desse tipo de acordo que reúne dois governos de esquerda e duas empresas estatais", alerta Pires. "Não vou dizer que vai acabar mal, mas diria que tem todos os ingredientes para ser um desastre".

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