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'Não faz sentido termos R$ 60 bilhões para emendas parlamentares no Orçamento', diz Tadini, da Abdib

Presidente executivo da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base defende uma renegociação do orçamento, com foco em setores que são, de fato, prioritários, como infraestrutura

20 ago 2026 - 14h58
(atualizado às 15h26)
Resumo
Venilton Tadini, presidente da Abdib, critica o orçamento federal por destinar R$ 60 bilhões a emendas parlamentares e apenas R$ 20 bilhões para infraestrutura. Com um déficit anual de R$ 200 bilhões no setor, ele defende um rearranjo político desses recursos para ampliar os aportes públicos, essenciais como contrapartida ao investimento privado em áreas como saneamento e mobilidade urbana, visando atingir a meta necessária de R$ 500 bilhões ao ano para sanar as carências do país.

Um cálculo tem incomodado Venilton Tadini, presidente executivo da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB). Ele, que já foi diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), não encontra sentido econômico no atual desenho do orçamento público.

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No orçamento de 2026, há R$ 60 bilhões em emendas parlamentares, recursos cujos destinos estão nas mãos de deputados e senadores. Já para infraestrutura, que reúne tudo que é importante para um país funcionar, essa faixa orçamentária é três vezes menor, aponta Tadini.

"Não faz sentido termos no orçamento da União cerca de R$ 20 bilhões de investimentos para infraestrutura e, no mesmo orçamento, R$ 60 bilhões em emendas parlamentares que não estão ligadas a programas de investimentos prioritários e de desenvolvimento", afirmou ao Estadão, em entrevista concedida durante o evento Brasil Adiante, realizado no dia 19 de agosto, em São Paulo.

Hoje, o déficit de investimentos em infraestrutura é de cerca de R$ 200 bilhões ao ano, calcula o presidente da ABDIB. Sem realinhar para onde vai o dinheiro, a conta continuará não fechando — e esse será o principal desafio de um próximo governo que queira sanar as carências de infraestrutura do País. "Temos dinheiro, sim", aponta. "Mas esses R$ 60 bilhões em emendas estão aí, dá para negociar, e é preciso realmente uma ação política para que você consiga fazer esse rearranjo orçamentário."

Como um próximo governo poderá fechar o déficit de investimentos em infraestrutura?

É importante ressaltar que estamos nesse momento vivendo um ciclo virtuoso de crescimento desses investimentos (em infraestrutura). Nós temos hoje projetos melhor estruturados, funding mais adequado, de médio e longo prazo, melhor mitigação de riscos e temos uma grande estrutura de projetos que está em andamento.

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Para se ter ideia da evolução desses investimentos, entre 2015 e 2020, nós ficamos com uma média de investimento entre R$ 160 bilhões e R$ 170 bilhões por ano, chegamos ao ano passado com R$ 280 bilhões e esse ano devemos atingir 300 bilhões. É um crescimento fantástico e isso foi uma curva de aprendizado para que nós chegássemos ao ponto que chegamos, mas o fato de termos R$ 300 bilhões de investimentos esse ano não significa dizer que nós temos efetivamente atingido um nível adequado para acabarmos com as deficiências nesse segmento.

Particularmente, nós precisamos chegar ao nível de investimento próximo de R$ 500 bilhões ao ano, por 10 anos, para que esse hiato de investimento seja suprido. O fundamental nós conseguimos fazer, que é a retomada do investimento, e ele está em crescimento acelerado. E, para atingirmos o nível suficiente para acabarmos com o hiato, é necessária a continuidade disso.

A meu juízo, o que falta é realmente entrar o investimento público, já que 80% (desses R$ 300 bilhões) é investimento privado. Nós estamos chegando a determinados níveis de projeto em que é preciso a contrapartida do setor público, como a parte dos projetos estruturantes de ferrovias, mobilidade urbana com o metrô, os trens metropolitanos e assim por diante. O setor privado não dará conta sozinho. O grande crescimento que teve o setor privado (de investimentos em infraestrutura), infelizmente, por questões de natureza fiscal, não foi acompanhado dos investimentos do setor público.

Não faz sentido termos no orçamento da União cerca de R$ 20 bilhões de investimentos para infraestrutura e, no mesmo orçamento, R$ 60 bilhões para emendas parlamentares que não estão ligadas a programas de investimentos prioritários e de desenvolvimento.

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Venilton Tadini participou do painel Infraestrutura, Saneamento e Energia, no evento Brasil Adiante
Venilton Tadini participou do painel Infraestrutura, Saneamento e Energia, no evento Brasil Adiante
Foto: Felipe Rau/Estadão / Estadão

Na prática, como redesenhar esse orçamento público para ampliar recursos para infraestrutura, em um cenário de fiscal apertado e gastos se elevando?

Sinceramente, é muito complexo do ponto de vista político porque é uma questão de economia política. Você está tratando do orçamento e ele tem de refletir as prioridades de governo. O nosso não reflete.

E por que não reflete? Além das questões referentes ao déficit da previdência, dos penduricalhos, nós temos uma questão que é relativamente recente, de cinco ou seis anos para cá, que são as emendas parlamentares. É uma questão que deixa o Executivo sem grau de liberdade, porque o nosso orçamento é mais de 90% vinculado às despesas, e nós temos R$ 60 bilhões de emendas parlamentares.

Nós temos para o orçamento da União, para a infraestrutura, cerca de R$ 20 bilhões. Não faz sentido ter R$ 60 bilhões de emendas parlamentares sem destinação clara e específica, muitas delas sem transparência. Então, temos dinheiro, sim.

Esses R$ 60 bilhões em emendas estão aí, dá para negociar, e é preciso realmente uma ação política para que você consiga fazer esse rearranjo orçamentário.

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Em relação à atração do capital privado, o sr. acha que já existem incentivos suficientes?

Olha, como eu havia dito, nós temos hoje uma estrutura de projetos que estão em andamento e serão licitados para a iniciativa privada. São cerca de 480 projetos para serem transferidos às áreas de concessões de rodovias, à parte de saneamento e assim por diante para a iniciativa privada.

O que temos em relação ao passado é uma sinalização de médio e longo prazo, seja pelo governo federal, seja pelos Estados e alguns municípios, do programa que existe. Então, você tem, primeiro, visibilidade e planejamento. Você tem uma perspectiva de médio e longo prazo de projetos bem feitos.

O segundo ponto é que, efetivamente, o setor privado já entrou com recursos e você tem grandes fundos de investimentos do mundo aqui dentro. Os fundos estão entrando e fazem captações no exterior. E o que nós temos visto é que não faltaram recursos nem concorrentes em nenhum leilão. Hoje a gente tem, efetivamente, uma articulação de gestão do setor público, seja o regulador, seja a fiscalização e controle, e seja a do executivo, que dá essa segurança.

É super fantástico, não tem nenhum problema de segurança juridica? Claro que tem. Em qualquer lugar do mundo, concessão de serviço público tem (algum problema). Contudo, nos últimos anos, no que diz respeito à segurança específica para os projetos de infraestrutura, ela melhorou muito.

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Para traduzir a importância da infraestrutura ao leitor: o que significa, para a população, não termos níveis adequados de investimento em infra?

Olha, o segmento onde essas coisas são mais claras para o cidadão é na parte de saneamento, que nós estamos evoluindo muito depois do novo marco regulatório.

Nós saímos de uma média em torno de R$ 20 bilhões de investimentos ao ano e agora passamos de R$ 40 bilhões ao ano de investimento. Está tendo um avanço significativo com a participação privada.

E isso, certamente, o cidadão percebe na carne: por uma melhor coleta e tratamento de esgoto e melhora na qualidade da água. Isso diminui a questão de você precisar de auxílio da saúde pública e assim por diante.

A outra questão fundamental, nas principais capitais do País, é a mobilidade urbana. São Paulo, por exemplo, é um escárnio. Eu lembro, quando eu era estagiário, o nosso metrô estava começando junto com o da Cidade do México. A Cidade do México hoje tem 250 quilômetros de metrô. São Paulo tem 150 quilômetros. Eu levei duas horas para chegar aqui de casa. Então, isso afeta o cidadão diretamente.

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E, logicamente, também toda a parte de iluminação pública, que tem programas e a Abdib atua nisso. Ela é fundamental para o cidadão, para o efeito também da segurança nas principais capitais.

Sem contar que, no momento de grandes variações climáticas, os efeitos que você pode ter, se não der o tratamento adequado, no que diz respeito à energia elétrica ser interrompida a cada momento, se não tomar medidas adequadas. São coisas importantes para a indústria, são importantes para o cidadão e que afetam o dia a dia de toda a população.

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