A 2ª Vara de Falências e Recuperação Judicial de Curitiba (PR) aceitou nesta sexta-feira o pedido de recuperação judicial apresentado pela Tradener, empresa que foi pioneira no mercado de comercialização de energia elétrica no Brasil e que busca agora reestruturar um passivo de R$1,7 bilhão.
O caso aprofunda a crise vivida pelo mercado brasileiro de comercialização, que afeta principalmente as empresas independentes, não ligadas às grandes geradoras de energia. O segmento observa uma piora no ambiente de negócios desde 2024, quando a quebra da comercializadora Gold desencadeou problemas financeiros para diversas casas.
Isso culminou mais recentemente em uma crise de reputação e crédito para as comercializadoras, o que reduziu drasticamente a liquidez para compra e venda de energia no país.
A recuperação judicial da Tradener, aceita pela juíza Luciane Pereira Ramos, inclui também a empresa Tradener Serviços em Energia e as sociedades D.G.W. Participações Ltda. e Fraternita Participações.
Na lista de credores do grupo, que soma R$1,7 bilhão em passivo quirografário, aparecem desde grandes empresas de capital aberto, como elétricas e bancos, até consumidores de menor porte e cooperativas agroindustriais.
Nos documentos à Justiça, a Tradener alega ter sofrido com uma severa crise econômico-financeira devido a "fatores extraordinários e setoriais" ligados ao mercado livre de energia brasileiro.
Um dos problemas mencionados foram "alterações regulatórias, operacionais e metodológicas que modificaram a dinâmica de formação do PLD (preço de energia) horário e ampliaram a exposição financeira dos agentes que atuam na comercialização de energia".
O preço de energia elétrica de curto prazo no Brasil tem mostrado maior volatilidade desde o ano passado, quando o governo ajustou os parâmetros de aversão a risco do modelo de precificação de energia.
De acordo com a Tradener e outras comercializadoras, essa maior volatilidade de preços tem contribuído para um desequilíbrio financeiro das empresas, principalmente devido ao descasamento entre a curva horária da energia adquirida e a curva de carga da energia vendida.
A recuperação judicial da Tradener vem após uma tentativa de mediação com credores, que, segundo a empresa, não avançou porque medidas individuais de credores e decisões da Justiça do Paraná inviabilizaram as negociações e agravaram sua situação financeira.