Os Estados Unidos impuseram tarifas de 50% sobre cerca de US$ 20 bilhões em produtos do Canadá após o colapso das negociações comerciais bilaterais. Washington culpou Ottawa por descumprir acordos, enquanto o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, acusou os EUA de exigências injustas e prometeu retaliação imediata na mesma proporção. O impasse abala a histórica relação entre os dois países e gera incertezas sobre o futuro do acordo comercial norte-americano.
Tarifas de 50% recaem sobre cerca de 20 bilhões de dólares em produtos canadenses. Premiê do Canadá promete retaliação.Os Estados Unidos estão impondo a partir deste sábado (22/08) tarifas de 50% sobre cerca de 20 bilhões de dólares (R$ 103 bilhões) em produtos canadenses, após o fracasso das negociações comerciais entre os dois países.
O representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, responsabilizou o Canadá pelo colapso das conversas, afirmando que o país se recusou a concluir o acordo nos termos que, segundo Washington, haviam sido acertados no início da semana.
"O Canadá se recusou a finalizar o acordo comercial nos termos acordados", declarou Greer, acrescentando que novas exigências de Ottawa e o descumprimento de compromissos anteriores "perturbaram o equilíbrio cuidadosamente estabelecido".
Prazo adicional
O anúncio ocorre após três dias de intensas negociações. As tarifas estavam inicialmente previstas para entrar em vigor em 19 de agosto, mas o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, concedeu um prazo adicional de três dias para permitir a continuidade das conversas.
Poucas horas antes do rompimento das negociações, Trump havia demonstrado otimismo quanto à possibilidade de um entendimento ser alcançado.
Após a imposição das tarifas, o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, afirmou que seu país havia obtido avanços importantes, mas que as mudanças de última hora propostas pelos EUA tornaram impossível a conclusão de um acordo aceitável.
Canadá promete retaliar
Carney garantiu que o Canadá retaliará imediatamente, aplicando tarifas equivalentes "dólar por dólar" para proteger trabalhadores e empresas, destacando que "a América mudou" e que os dois países "não voltarão à sua antiga relação".
As tarifas americanas incidem sobre cerca de 5% das exportações anuais canadenses para os EUA, abrangendo produtos como tacos de hóquei, materiais de construção, bebidas alcoólicas e determinados tipos de vestuário.
Segundo fontes não identificadas da administração Trump, citadas pela agência de notícias Associated Press (AP), Ottawa buscava concessões sobre tarifas já existentes para aço, alumínio, automóveis e madeira, algo que Washington não estava disposto a conceder. Carney acusou os EUA de apresentar "condições injustas e não econômicas" e ordenou o retorno da equipe negociadora a Ottawa.
O colapso das conversações representa uma mudança brusca em relação ao otimismo demonstrado dias antes e lança dúvidas sobre o futuro do acordo comercial norte-americano que envolve EUA, Canadá e México. Enquanto Washington iniciou negociações formais com o México para revisar o USMCA, as negociações com o Canadá permanecem suspensas.
Relações abaladas
A crise comercial agrava uma relação historicamente amistosa entre os dois países vizinhos. O comércio bilateral alcançou 880 bilhões de dólares (R$ 4,5 trilhões) em 2025, e cerca de 72% das exportações canadenses têm como destino os Estados Unidos.
Os Estados Unidos e o Canadá disputam questões comerciais há décadas, com divergências recorrentes sobre importações de madeira canadense e o acesso dos EUA ao mercado protegido de laticínios do Canadá.
Apesar dessas tensões, os dois países mantiveram uma relação de amizade, aliança e parceria comercial. A fronteira de 8.890 quilômetros entre eles permanece sem defesa militar, sendo atravessada diariamente por cerca de 330 mil pessoas e por mercadorias avaliadas em 2 bilhões de dólares (R$ 10,3 bilhões).
Apesar da proximidade histórica, incluindo cooperação militar e fronteira aberta, a administração Trump tem adotado uma postura mais agressiva, impondo tarifas e fazendo declarações provocativas sobre transformar o Canadá no "51º estado" americano.
A tensão já provocou forte reação pública no Canadá, com uma petição para expulsar o embaixador americano reunindo mais de 248 mil assinaturas.
Candace Laing, presidente da Câmara de Comércio do Canadá, classificou as tarifas como "um golpe duro para a competitividade americana" e alertou que elas aumentarão os custos para os consumidores nos EUA, além de ameaçar investimentos e pequenas empresas no Canadá.
md (Lusa, AFP, AP)
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