Para unir desenvolvimento e sustentabilidade, o Brasil precisa usar sua matriz energética limpa e a bioeconomia na criação de uma indústria verde competitiva, defende Marina Grossi, do CEBDS. Ela destaca a urgência de valorizar esses ativos ambientais no preço dos produtos e nos créditos de carbono, agregando critérios sociais e ecológicos. Para viabilizar esse avanço e atrair investimentos, o país deve garantir segurança jurídica, previsibilidade e governança com o setor privado.
Um dos caminhos que o Brasil pode seguir para conciliar desenvolvimento e preservação ambiental é, na visão de Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), conseguir valorizar a matriz energética limpa que o País tem e embuti-la no preço final de suas produções.
Segundo ela, no Brasil se usa energia de fontes renováveis, com pouca emissão de carbono, para produzir aço, cimento, produtos agrícolas, mas isso ainda não aparece no preço final.
Além da energia renovável, ela acredita que outros elementos, como bioeconomia, biodiversidade e inclusão social também podem ser incluídos nessa conta para que os créditos de carbono exportados pelo País possam ter ainda mais valor.
Marina foi uma das convidadas do quarto encontro do Brasil Adiante, na última quarta-feira, 20. Realizado pelo Estadão, o evento reúne especialistas com o objetivo de propor ações práticas que o próximo governo pode adotar nos dois primeiros anos de mandato. O tema central do último encontro foi Produtividade, Infraestrutura e Sustentabilidade.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista.
Quais medidas práticas o governo deve adotar nos dois primeiros anos de mandato para que a agenda verde possa se tornar um motor de crescimento do PIB?
O mais importante é a gente capturar as vantagens que temos com as soluções climáticas. Temos uma energia muito limpa no Brasil, temos excelentes exemplos no agro, na Amazônia. Mas, para capturar isso, precisamos de regularização fundiária, de segurança jurídica, previsibilidade, e usar também a nossa energia limpa como uma base para uma nova indústria, aquela que vá permitir que SAF (combustível sustentável de aviação) seja competitivo, que o aço verde seja competitivo.
Mas, para isso, precisamos ter uma governança onde o setor privado não entre só na hora da implementação. Ele precisa entrar também para dar foco aos projetos, para ser mais eficiente. Em um momento de ajuste fiscal, não podemos ficar errando com o pouco dinheiro que temos. Há vários caminhos, mas eu diria que um ambiente acolhedor para negócios - segurança jurídica é fundamental para isso -, e também aproveitar os nossos ativos, como agricultura, energia limpa, entre outros, seriam um bom ponto de partida.
Quais são os principais entraves que impedem o País de alcançar esse crescimento?
Justamente ter maior previsibilidade, não ter uma distância entre o que você planeja e o que você executa, ter uma boa gestão. Não faltam planos, não faltam bons exemplos, não falta iniciativa privada nem dinheiro. Mas eu acho que essas pontas todas precisam estar juntas.
Temos uma iniciativa de sucesso no Brasil que é o RenovaBio, que tem um ativo chamado CBIO (crédito de descarbonização), que aproveitou a vantagem que já tínhamos de biocombustível, de etanol. A partir desse mercado que já existia, com a regulamentação e com um ativo como o CBIO, foi alavancado todo um setor. Então, são coisas desse tipo que precisamos identificar também no SAF, no aço verde e em outros momentos de inovação, bioeconomia.
Aproveitando o gancho da bioeconomia, o Brasil lançou recentemente o Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio). A sra. já comentou que o Brasil, que tem condições de promover uma economia de baixo carbono, ainda tem uma bioeconomia pequena perto do que poderia ser. O que é necessário fazer para que a bioeconomia seja mais pujante?
A bioeconomia pega os atributos naturais que temos em geral. Então, não é só a sociobioeconomia, as atividades do pequeno agricultor ali no campo fazendo produtos em pequena escala, mas também na larga escala, o agro também entra.
Na economia de exportação dos produtos tropicais de bioeconomia, a gente aproveita muito pouco, é ínfima a participação que o Brasil tem no mercado. Mas não temos implementado essa política. No que estamos concentrando? É o cacau? É a castanha? De que maneira a gente pega a cadeia inteira? Porque não adianta você só olhar o produtor, você tem de olhar o transporte, a logística, como é que ele é remunerado, se ele está sendo remunerado adequadamente.
Uma das coisas que falamos no painel - e que eu acho que não vem de uma solução só -, é que o nosso ativo ambiental, ou seja, as nossas florestas, os nossos produtos que vêm da natureza e que são responsáveis pelo regime de chuvas e por tanta coisa, ele não é valorado devidamente. Então, para que você tenha esse valor adequado, não é só uma coisa, não é só pagamento por serviços ambientais. É isso junto com crédito de carbono, com blended finance, que é o financiamento que junta com filantropia, com recurso que alavanquem e atraiam o recurso do setor privado. É uma série de ferramentas.
O momento agora é de olhar para um elemento que vai dar força para catalisar o movimento, capaz de mudar e destravar um setor inteiro.
O Brasil está em fase de regulamentação do mercado de carbono para torná-lo operacional até 2030. Qual a importância do mercado de carbono para o País?
Mercado de carbono é uma bandeira que interessa muitíssimo ao Brasil, porque ele é muito limpo. A nossa matriz é muito limpa. A matriz energética é quase 50% de renovável, e se a gente for olhar a eletricidade, quase 90% é renovável. Então, é muito limpa.
O que que significa isso? Que você, na indústria, utiliza uma energia para produzir aço, cimento, ou também na agricultura, com uma energia na qual é muito pouco utilizado carbono, porque vem muito de fonte renovável. E isso não está no preço final. Como isso não está no preço final, ter o crédito de carbono e se apropriar de uma coisa que hoje não está devidamente valorada vai nos favorecer muito.
Então, somos um grande exportador de créditos de carbono pelas soluções que temos: restauração, regeneração florestal etc. Como a questão climática é global — tanto faz se você emite na China ou no Brasil, vai para a atmosfera do mesmo jeito —, então as soluções também podem ser globais.
O crédito de carbono permite que, por exemplo, o Japão ou a Europa comprem crédito do Brasil fazendo um projeto de restauração, de reflorestamento, e possa utilizar para reduzir as suas emissões.
E como é que o Brasil tem de utilizar isso? Não é vendendo o seu crédito mais barato, é ter uma estratégia do crédito de carbono que aquele lugar onde a gente não consegue capital, a gente possa receber capital de fora para alavancar aquela indústria. Onde a gente consegue capital, não precisamos fazer isso.
É por isso que precisamos de uma estratégia também para valorizar o crédito de carbono. E, ao meu ver, podemos utilizar muito bem o crédito de carbono no Brasil, porque temos regras, podemos colocar não só a economia, mas também a bioeconomia, a biodiversidade, a inclusão social como atributos do nosso crédito de carbono, para que ele tenha um valor ainda maior.