BRASÍLIA - Após quase dois anos, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu nesta quarta-feira, 18, reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto porcentual - de 15% para 14,75%, ao ano. A decisão do colegiado foi unânime.
A autoridade monetária havia cortado a Selic pela última vez em maio de 2024, quando diminuiu a taxa de 10,75% para 10,50% ao ano. A decisão era amplamente esperada pelo mercado, diante das incertezas provocadas pela guerra no Irã e a disparada dos preços do petróleo.
Em comunicado, o Copom afirmou que os passos futuros do processo de calibração da Selic poderão incorporar novas informações relacionadas à profundidade e à extensão do conflito no Oriente Médio e seu impacto nos preços. Assim, o colegiado não sinalizou os passos da próxima reunião.
"O Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo", diz o texto.
O colegiado afirmou que a decisão de reduzir os juros em 0,25 ponto porcentual é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante.
Na reunião anterior, de janeiro, o Copom já havia indicado que começaria a diminuir os juros neste encontro. No mercado, havia dúvidas sobre a magnitude do primeiro corte, por causa da disparada dos preços do petróleo no mercado internacional, após os ataques dos Estados Unidos e Israel contra o Irã. Mas, nos últimos dias, cresceram as apostas no mercado financeiro de uma redução menor, de 0,25 ponto.
Antes do corte realizado nesta quarta-feira, a Selic estava em 15% ao ano desde junho de 2025. O período de estabilidade ocorreu depois de o BC aumentar a taxa em 4,50 pontos a partir de setembro de 2024.
Esse foi o segundo maior ciclo de alta dos juros nos últimos 20 anos, perdendo apenas para a alta de 11,75 pontos entre março de 2021 e agosto de 2022, que ocorreu após o fim da pandemia.
Mais cedo, diante das incertezas provocadas pela guerra no Irã, o Federal Reserve (Fed), o BC dos EUA, manteve a taxa dejuros na faixa entre 3,50% e 3,75% ao ano. A manutenção era amplamente esperada por analistas, com as incertezas trazidas pela guerra no Oriente Médio. O presidente do Fed, Jerome Powell, recolocou no radar o risco de aumento das taxas de juro.
Juros reais
Com a redução da Selic para 14,75%, o Brasil continua com a segunda maior taxa de juros reais (descontada a inflação) do mundo, de 9,51%, segundo o ranking MoneYou/Lev Intelligence. O País está atrás apenas da Turquia, com 10,38%. A Rússia aparece em terceiro lugar, com 9,41%, seguida pela Argentina, também com 9,41%, e o México (5,39%).
O BC calcula que a taxa real neutra de juros do Brasil - que não estimula, nem deprime a economia - é de 5,0%.
Oriente Médio no radar
O Copom afirmou que há evidências de que a manutenção da taxa Selic em um nível contracionista levou a uma desaceleração da atividade econômica no País. Isso permitiu ao colegiado diminuir a taxa básica de juros, de 15% para 14,75% ao ano, apesar das incertezas causadas pelos conflitos no Oriente Médio.
Segundo o comitê, essas evidências de transmissão da política monetária para o ritmo da atividade econômica criam condições para "ajustes no ritmo da calibração dos juros", à medida que novas informações surgirem. O objetivo, de acordo com a autoridade monetária, é assegurar uma Selic compatível com a convergência da inflação à meta.
"O comitê julgou apropriado dar início ao ciclo de calibração da política monetária, na medida em que o período prolongado de manutenção da taxa básica de juros em patamar contracionista propiciou evidências da transmissão da política monetária sobre a desaceleração da atividade econômica, criando condições para que ajustes no ritmo dessa calibração, à luz de novas informações, sejam possíveis de forma a assegurar o nível compatível com a convergência da inflação à meta", diz o comunicado.
O Copom informou que considera os impactos dos conflitos no Oriente Médio de forma "prospectiva", de olho principalmente nos seus efeitos sobre a cadeia de suprimentos global e nos preços das commodities que afetam direta e indiretamente a inflação no País. O colegiado reconheceu que a incerteza cresceu por causa do cenário internacional.
"Nesse momento, as projeções de inflação apresentam distanciamento adicional em relação à meta no horizonte relevante para a política monetária. Ao mesmo tempo, a incerteza acerca dessas projeções foi elevada consideravelmente, em função da falta de clareza sobre a duração dos conflitos e de seus efeitos sobre os condicionantes dos modelos de projeção analisados", diz o comunicado.
Cenário interno
O Comitê afirmou que os indicadores domésticos continuam mostrando desaceleração da atividade econômica doméstica, conforme esperado. No entanto, as expectativas de inflação permanecem desancoradas, enquanto o mercado de trabalho está pressionado.
"Os indicadores do final de 2025 mostraram desaceleração na atividade econômica, enquanto o cenário segue sendo marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, e pressões no mercado de trabalho", diz o comunicado.
O comitê reforçou que continua acompanhando os impactos de desenvolvimentos da política fiscal sobre a política monetária e os ativos financeiros - e, com isso, "reforçando a postura de cautela em um cenário de maior incerteza." O ambiente externo, por sua vez, se tornou "mais incerto", por causa dos conflitos políticos no Oriente Médio.
"Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e as medidas subjacentes seguiram apresentando algum arrefecimento, mas mantiveram-se acima da meta para a inflação", acrescentou o Copom.
Projeções de inflação
O Copom revisou sua projeção para a inflação acumulada em 12 meses até o fim do terceiro trimestre de 2027, de 3,2% para 3,3%. Esse é o horizonte relevante da política monetária na última reunião do colegiado, em janeiro.
A projeção segue ligeiramente acima do centro da meta, de 3%. Isso indica que a trajetória de juros embutida no relatório Focus é insuficiente para fazer a inflação convergir ao alvo no período de seis trimestres observado pelo BC. Hoje, as medianas indicam que a Selic estará em 12,25% no fim deste ano e vai cair a 10,50% no fim de 2027.
A cotação do dólar usada pelo comitê nas suas projeções diminuiu de R$ 5,35 para R$ 5,20. A mediana do Focus para o IPCA de 2026 passou de 4,0% na reunião anterior para 4,10% agora. Para 2027, permaneceu em 3,80%.
A projeção do Copom para o IPCA acumulado em 2026 passou de 3,4% para 3,9%. Também nesse cenário de referência, o Copom ajustou as suas projeções para a inflação de preços livres em 2026 (3,5% para 3,7%) e no terceiro trimestre de 2027 (3,1% para 3,3%). A projeção para os preços administrados passou de 3,0% para 4,3% este ano e de 3,3% para 3,2% no horizonte relevante.
Todas as estimativas levam em conta a evolução da taxa de câmbio conforme a paridade do poder de compra (PPC), a trajetória da Selic embutida no relatório Focus e o preço do petróleo seguindo a curva futura por aproximadamente seis meses, passando a aumentar 2% ao ano posteriormente. Além disso, no cenário de referência, adota-se a hipótese de bandeira tarifária "amarela" em dezembro de 2026 e de 2027.